Entrevista: Mercado cervejeiro enfrentará seleção natural nos próximos 5 anos
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Entrevista: Mercado cervejeiro enfrentará seleção natural nos próximos 5 anos

Quem se preocupar mais com qualidade e nível de serviço se destacará frente às demais, avalia Alexandre Luis Prim (Foto: Alban Martel - Unsplash)

O mercado brasileiro de cerveja é composto por apenas 2% de artesanais, número que chega a 12% nos Estados Unidos e 20% na Europa. Não há como negar que o potencial de crescimento seja imenso a toda cadeia produtiva do setor. Mas os riscos do “boom” cervejeiro também são iminentes. Em meio à ampliação exponencial da oferta, o país também pode, por outro lado, viver uma seleção natural nos próximos anos.

Essa é a análise de Alexandre Luis Prim, que vem estudando detalhadamente o mercado cervejeiro em seu doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), com ênfase na linha de pesquisa Gestão de Operações e Competitividade.

Mestre em Administração pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), ex-consultor do Senai/SC, autor do livro “Gerenciamento do Escopo, Tempo e Custos em Projetos” e atualmente professor de cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade Senac Blumenau e da Uniasselvi, Prim falou com exclusividade ao Guia da Cerveja. E, em sua análise, embora se demonstre otimista, ele trouxe importantes ponderações no debate sobre o futuro do mercado cervejeiro.

“O potencial de crescimento deste setor é gigantesco, uma vez que está havendo uma mudança de hábito no consumo de cervejas artesanais”, garante o especialista. “Mas, num futuro breve (aqui estimo no máximo 5 anos), haverá uma seleção natural das melhores cervejarias devido a uma maior maturidade no setor.”

Prim comenta também sobre os caminhos para sobreviver a essa eventual seleção de mercado: investir na padronização de processos e, especialmente, na qualidade do produto. “As empresas brasileiras irão perceber uma seleção de mercado e, desta maneira, obrigatoriamente terão de se reinventar”, pontua.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Alexandre Luis Prim, doutorando pela FGV e professor da Faculdade Senac Blumenau e da Uniasselvi.

Em meio a tantos números por vezes conflitantes, qual seria hoje o tamanho aproximado do mercado brasileiro de cerveja artesanal, considerando-se não apenas os dados oficiais?

Atualmente há em torno de 1000 cervejarias instaladas no Brasil. No entanto, este número se expande ao adicionar as cervejarias ciganas (aquelas que não possuem uma fábrica própria), bem como os cervejeiros caseiros. Estima-se que há aproximadamente 5000 cervejarias ciganas no Brasil no presente momento.

Prim é professor do Senac Blumenau

Qual o potencial de crescimento desse mercado?

O potencial de crescimento deste setor é gigantesco, uma vez que está havendo uma mudança de hábito no consumo de cervejas artesanais, bem como inovações também estão sendo muito bem-vindas. Dados do setor demonstram que o mercado brasileiro é composto por aproximadamente 2% de cervejas artesanais sobre as de produção em massa. Em contrapartida, nos Estados Unidos, este contraste é menor, com aproximadamente 12%, e 20% na Europa. De acordo com estes dados, há ainda uma imensa oportunidade de crescimento das cervejarias artesanais.

E, diante desse cenário, quais os principais desafios do setor cervejeiro?

No momento, as cervejarias estão na “crista da onda” e, portanto, “praticamente” tudo o que se faz é aceito pelo mercado. Mas, num futuro breve (aqui estimo no máximo 5 anos), haverá uma seleção natural das melhores cervejarias devido a uma maior maturidade no setor. Então, neste caso, as empresas que se preocuparem mais com qualidade e nível de serviço serão melhores que as demais. Por sua vez, a evolução deste setor ainda é um pouco limitada devido à logística de distribuição para atender diversas regiões no país, bem como pela carga tributária, ainda que seja na mesma proporção das grandes.

Olhando para as principais referências externas no mercado, o que aproveitamos com qualidade e onde ainda precisamos melhorar?

Aqui posso lhe dizer com base em uma pesquisa que estou conduzindo em relação à qualidade: a maioria das empresas de cerveja ainda não está enxergando um ponto de corte vindo do mercado, num futuro breve, em relação à qualidade do produto. Como as artesanais possuem recursos limitados para controlar todos os processos e reduzir a variabilidade nesses processos, ainda há um imenso trabalho para padronização de processos, controles e melhoria contínua no que se refere à qualidade do produto e de processos.

Como isso afetará o mercado?

Como mencionei na resposta anterior, eu acredito que naturalmente as empresas brasileiras irão perceber uma seleção de mercado e, desta maneira, obrigatoriamente terão de se reinventar. Neste momento, aquelas que se preocuparem antecipadamente com a qualidade terão seu nome garantido no mercado.

Há características próprias do mercado interno que as cervejas brasileiras podem aproveitar?

Com certeza. Cada mercado pode aproveitar características locais para demonstrá-las ao mundo. Um exemplo claro são as cervejas da cervejaria Lohn Bier, de Santa Catarina, que utilizam frutas ou especiarias regionais para dar um toque regionalístico em seus produtos. Até onde eu sei nenhuma cervejaria recebeu tantas premiações de feiras como a Lohn Bier (mais de 40 prêmios em apenas 3 anos de operação). Como eles fazem? Inovação constante em seus produtos. Trazem características locais para pensar no global.


2 Comments

  • Leandro Reply

    5 de julho de 2018 at 18:06

    Muito interessante saber que este mercado de cervejas artesanais tem um potencial tão grande pela frente aqui no Brasil. Entretanto, como mencionado, é importante é padronização nos processos para garantir a qualidade para que essas cervejarias se mantenham competitivas e cresçam de forma sustentável.

    • guiadacerveja Reply

      6 de julho de 2018 at 10:39

      Obrigado pela observação, Leandro. Nosso objetivo é esse mesmo: discutir os rumos do mercado de maneira consciente. Abraço

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