Histórias etílicas: Stalin, a Zhigulevskoye e a cerveja russa que nem era "alcoólica"
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Histórias etílicas: Stalin, a Zhigulevskoye e a cerveja russa que nem era “alcoólica”

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Jovens urbanos russos já preferem cerveja à vodca, diz estudo. Na foto, balcão da badalada Rule Taproom, em Moscou (Foto: Divulgação)

Quando se trata do consumo de bebidas alcoólicas, os russos não brincam. O povo, acostumado a doses fortes, tem a vodca como preferência e, perto de outros países, não consome tanta cerveja: a média é de 68 litros por habitante por ano – similar ao Brasil e longe de vizinhos como Polônia (97 litros) e ex-repúblicas soviéticas como Lituânia (96l) e Letônia (78l). A relação da Rússia com a cerveja, no entanto, passou por altos e baixos no período soviético, como nos tempos de Stalin, até ela se consolidar, hoje, como segunda mais consumida no país.

Zhigulevskoye, a cerveja típica da URSS

Durante o período soviético, a bebida se confundia com a marca Zhigulevskoye. Originalmente, é o nome de uma cervejaria surgida em Samara no final do século 19, fundada e tocada pelo austríaco Alfred von Vacano nos mais latos padrões de tecnologia, infraestrutura e higiene da época. Seu principal rótulo era uma Vienna Lager, que caiu no gosto da população na virada para o século XX.

Na década de 1930, o staff do líder comunista Joseph Stalin aprovou a cerveja de Vaccano e adotou a receita de sua Vienna Lager como a cerveja oficial da União Soviética, rebatizando-a com o nome da própria cervejaria.

A Zhigulevskoye passou a ser produzida em centenas de cervejarias pelo país e mesmo hoje, após a entrada de diversos players internacionais no mercado, continua popular e reverenciada na Rússia.

Alcoolismo e restrições
Mas o consumo abusivo de álcool já aparecia como um problema de saúde pública e a popularização da cerveja, acelerada após o final da URSS, tem certo papel na mudança desse cenário. Em 1985, a Organização Mundial de Saúde alertava que a expectativa de vida dos homens soviéticos era 12 anos mais baixa do que a de um norte-americano. E o motivo era claro: o excessivo consumo de álcool.

O governo, então sob Mikhail Gorbatchev, tomou medidas visando a diminuição do consumo, aumentando preços e impostos sobre vodca, vinho e cerveja, restringindo horários e pontos de venda.

Assim, a vodca passou a ter preços proibitivos para certas faixas da população. Nas áreas rurais, a alternativa foi recorrer ao tradicional samogon, nome dado a qualquer bebida destilada artesanalmente, sem regulamentação, geralmente feita com açúcar, milho, beterraba e batata, enquanto a cerveja, por mais que tivesse encarecido, se tornara opção acessível nos centros urbanos. O resultado foi a queda drástica nas vendas e no consumo.

A medida só valeu até 1991, mas os efeitos dela e da consequente popularização da cerveja ainda são sentidos. Com a abertura do país para o mercado na década de 1990, cervejarias internacionais lá se instalaram, diversificando e popularizando a bebida.

Estudos de acadêmicos da Kellog School (EUA), em parceria com a Nova Escola de Economia da Rússia, mostram que a medida surtiu efeitos significativos: homens russos que tinham entre 16 e 22 anos e moravam em áreas urbanas no período de restrição às bebidas – e logo após o colapso da União Soviética – têm a cerveja como sua preferência.

O cenário é diferente para homens da mesma idade que viviam na área rural, cuja preferencia continuou entre vodca e samogon. Associada a outros fatores, a taxa de mortalidade caiu um terço nos anos 1990, enquanto se acentuou a diferença de mortalidade entre os que passaram a consumir cerveja e aqueles que continuaram nas bebidas mais fortes.

O problema, contudo, não terminou aí. Os níveis de consumo de álcool na Rússia continuaram mais altos do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde. O governo adota até hoje medidas com o objetivo de restringir o consumo – a maioria delas passa por taxação e proibições.

Mas, em 2011, uma medida curiosa abriu caminho para restrições mais duras: até então, apenas produtos com mais de 10% de teor alcoólico entravam na categoria de alcoólicos. A maioria das cervejas se enquadrava como “softdrink” até esse ano, quando todas elas passaram a ser consideradas bebida alcoólica de fato.


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