Entrevista: Próxima legislatura pode trazer redução de impostos ao setor
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Entrevista: Próxima legislatura pode trazer redução de impostos ao setor

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Presidente da Abracerva, Carlo Lapolli demonstra confiança na redução de impostos e na criação de uma associação latina de artesanais (Crédito da foto: Letícia Garcia)

O clima de tensão e instabilidade política que cerca as eleições de 2018 não impede o surgimento da expectativa, mesmo que cautelosa, serena, de que certos desvios de rota possam ser corrigidos para os próximos anos. Esperança que parece ainda mais arraigada às cervejas artesanais, um setor que se expandiu 23% nos últimos nove meses mesmo com todos os percalços conjunturais.

Lapolli: A articulação política é importante porque dá uma verdadeira voz dentro da categoria

Para entender melhor o que a indústria cervejeira pode esperar das eleições de domingo, o Guia da Cerveja realizou uma entrevista com Carlo Giovanni Lapolli, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), órgão que vem construindo nos últimos anos uma importante representatividade com o setor público.

E, no que depender da análise de Lapolli, o setor precisa nutrir, sim, boas expectativas. Satisfeito com o elo estabelecido com o meio político, o presidente da Abracerva conta que a associação amadureceu, estabeleceu-se em Brasília e agora pleiteia diretamente demandas para a cerveja artesanal, que passou a ser “recebida como um setor”.

O resultado dessa equação que envolve fortalecimento da Abracerva e eleições, segundo ele, pode ser uma conquista a muito almejada pelo setor: a redução de parte dos impostos que tanto dificulta a sobrevivência das artesanais.

“Já conseguimos uma medida no Senado para acabar com a ST no Simples, das cervejarias que estão no Simples, e falta agora a aprovação na Câmara. É um processinho demorado, mas a gente está sendo ouvido. Acho que conseguiremos avançar na próxima legislatura, o que é muito importante.”

Na entrevista exclusiva, em que discorre um pouco mais sobre os desafios da tributação, Lapolli fala também sobre outras ações efetivas da Abracerva e conta sobre a possível criação de uma associação latino-americana de cervejas artesanais.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Carlo Giovanni Lapolli, presidente da Abracerva.

Como você avalia essas eleições e o que o setor pode esperar delas?
A Abracerva fez uma pauta que a gente entende que seja as bandeiras da associação, que está no nosso site e os políticos podem apoiarem. Então, lá tem vários candidatos – alguns que já são deputados e nos ajudaram – que aderiram a essas pautas, acho que são mais de 30 candidatos do país inteiro. Estamos sendo ouvidos, muitos até se comprometeram a gravar vídeos em nossa causa. E isso é bom, porque vai multiplicando a nossa base de apoio, o que vai ser importante lá na frente. Estamos no caminho. É uma associação jovem e já estamos agora conseguindo ter um pouco de fôlego para ampliar nossas ações. É importante chegar em uma idade um pouco mais madura da associação para ampliar nossa participação nesse meio político.

E como essa participação tem sido efetiva para o setor?
Tivemos, por exemplo, um problema em São Paulo com o growler. Alguns estabelecimentos foram autuados pelo Ministério da Agricultura, porque o Mapa entendia que precisava de um registro para vender growler. Aí sentamos aqui com o pessoal do ministério em Brasília para deixar tudo muito claro, que não é preciso de registro para vender growler. Na semana passada, também, tivemos com o próprio presidente [Michel] Temer, colocando algumas questões do setor e também dos incentivos fiscais do refrigerante, que de certa forma nos afeta. Isso é muito bom, porque somos recebidos como um setor. Essa articulação política é importante para a Abracerva porque dá uma verdadeira voz dentro da categoria da cerveja artesanal.

Depois desse trabalho de fortalecimento institucional, o que vocês miram como próximos passos?
Eu assumi a Abracerva faz praticamente um ano – fez agora em agosto – e alcançamos quase 450 associados no Brasil inteiro. Estamos agora dando enfoque na criação das Abracervas regionais, para estados que tenham mais de dez associados e queiram fazer um órgão local, regional, para ter essa interação com o poder público, para serem recebidos na esfera estadual. Já estamos com a Abracerva-DF, a Abracerva-ES e a Abracerva-AM. Deve agora partir para Natal, Goiás e Ceará. Temos também a primeira copa de cervejas artesanais, independentes, que vai acontecer aqui em Brasília. Já estamos organizando os eventos do ano que vem, como o Congresso de Sommeliers e uma feira de negócios em Vitória, no Espírito Santo.

Existe algum outro tipo de trabalho feito anteriormente, tanto aqui quanto externamente, em que vocês espelham essa relação com o setor público?
A gente se espelha um pouco na Brewers Association [a associação das artesanais norte-americana], não tenha dúvida. Mas as realidades são bastante distintas, em termos legislativos, econômicos, de ambiente de negócios. Mas nos espelhamos muito neles. E a gente tem compartilhado muito também com as associações latino-americanas. Recentemente foi criado um bloco de associações latinas e teremos uma reunião no Panamá, em fevereiro, para finalizar os estatutos e fundá-la juridicamente. E, com certeza, como consideram os próprios vizinhos, o Brasil é o grande país da cerveja artesanal, depois dos Estados Unidos, obviamente. Para eles, a gente é um espelho para os países menores. Mesmo para Argentina, Paraguai, Uruguai, que estão aqui perto, a gente é um espelho pelo crescimento que vem tendo ano a ano.

Interessante a ideia de pensar a cerveja artesanal como um bloco.
Sem dúvida. Pela própria troca de experiência, de realidades, de ver algumas ações conectadas. É muito importante.

É claro que existem uma série de demandas políticas, mas quais as mais urgentes para o setor hoje?
Sem dúvida alguma, nós temos que pensar o processo tributário da cerveja artesanal. O maior problema que a gente vê hoje é que, além de ser um imposto caro, e estamos falando de ICMS e ICMS-ST, que é dos estados, é que ele é diferente em cada estado da federação. Então, além de ser caro, é complexo para acompanhá-lo. Eu desconheço uma cervejaria que consiga vender para todos os estados porque tem uma diferença de tributo – e é difícil para você pagar. Precisa fazer uma guia para aquele estado no momento de receber a mercadoria, o processo de cálculo é difícil, tem uma multa muita grande, cada estado emite uma lei que muda de tempo em tempo… É muito difícil você acompanhar tudo isso.

E, nessa linha, como a Abracerva tem atuado?
A gente pleiteia, e está trabalhando isso no próprio Confaz, que é o conselho dos secretários da fazenda dos estados, que se acabe com a ST para a cerveja artesanal ou pelo menos faça um modelo mais lógico. Já conseguimos uma medida no Senado para acabar com a ST no Simples, das cervejarias que estão no Simples, e falta agora a aprovação na Câmara. É um processinho demorado, mas a gente está sendo ouvido. Acho que conseguiremos avançar na próxima legislatura, o que é muito importante, porque é caro e complexo. E o complexo custa caro, porque você precisa de mais gente na cervejaria só para cuidar de imposto.


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