Balcão da Matisse: História da arte e da cerveja - parte 1 | Guia da Cerveja

Balcão da Matisse: História da arte
e da cerveja – parte 1

“O objetivo da arte não é representar a aparência externa das coisas, mas seu significado interno” – Aristóteles

A história da arte começa com as pinturas rupestres há cerca de 40 mil anos, mas a cerveja só surge oficialmente na história da arte por volta de 4.000 a.C., com uma placa de barro originária da Suméria. Nela se veem duas figuras que bebem possivelmente cerveja de um pote, utilizando para isso longas palhas, tradicionalmente usadas para aspirar a bebida e evitar a ingestão dos resíduos de cereal.

Outro registro de arte relacionada à cerveja, também produzida pelos sumérios, o Hino a Ninkasi (1.900-1.800 a.C.), a deusa da cerveja é, na realidade, uma receita de cerveja – aliás, a palavra Ninkasi significa “tu que me enches tanto a boca”.

Há mais de 10 mil anos os seres humanos conhecem a magia da fermentação. Pinturas em cavernas de 12 mil anos atrás contêm imagens de pessoas que recolhiam mel. O mel já contém levedura em estado de dormência por falta de água. Então junte-se um pouco de água e o meio se torna propício para a fermentação, convertendo os açúcares em álcool e gás carbônico, originando a bebida mais antiga que se conhece, o hidromel.

A produção do hidromel não requer calor, portanto é possível que faça parte da vida humana há mais tempo do que o fogo. Ela certamente influenciou os pintores rupestres, ou pelo menos facilitou a sua longa estadia dentro das cavernas.

Há muito se associa o estado alterado induzido pelo consumo de fermentados a narrativas orais, tradições míticas, poesia e, porque não, pintura rupestre.

Antes do surgimento da arte greco-romana, na região do Nilo Azul, onde hoje é o Sudão, em cerca de 7.000 a.C., os povos locais já produziam uma bebida fermentada a partir de sorgo.

Os sumérios e outros povos teriam percebido que a massa do pão, quando molhada, fermentava, ficando ainda melhor. Assim teria aparecido uma espécie primitiva de cerveja, como “pão líquido”, considerada uma “bebida divina” e, neste sentido, intimamente ligada à arte, também considerada uma atividade voltada para o divino. A arte bizantina, por exemplo, era preocupada sobretudo com a representação do divino, a transmissão de poder e mistério.

Mas a arte, assim como a cerveja, não faz parte apenas do divino; ela retrata temas modestos do mundo cotidiano, mundo em que a cerveja está presente, fazendo parte da dieta de nobres e camponeses desde tempos imemoriais.

Finalmente, não podemos falar de história da arte e da cerveja sem citar o Código de Hamurabi, um conjunto de leis criadas na Mesopotâmia, por volta de 1.750 a.C., por Hamurabi, sexto rei da Babilônia. O código é baseado na lei de talião, “olho por olho, dente por dente”. As 281 leis foram talhadas em uma rocha de diorito de cor escura, uma verdadeira obra de arte.

Hamurabi introduziu várias regras relacionadas à cerveja no seu grande código de leis, entre elas a que tinha como objetivo proteger os consumidores da cerveja de má qualidade. Ficou assim definido que o castigo a aplicar por se servir má cerveja seria a morte por afogamento na própria cerveja ruim que produziu. Imaginem se esta lei ainda estivesse em vigor…


Mario Jorge Lima é engenheiro químico e sócio-fundador da cervejaria Matisse

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