Entrevista: Brasil precisa olhar para outros mercados além dos EUA
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Entrevista: Brasil precisa olhar para outros mercados além dos EUA

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Para sommelier Taiga Cazarine, olhar só para mercados interno e dos EUA não é suficiente para compreender a cena das artesanais (foto: Bruno Avila)

Por mais que a cena cervejeira brasileira viva um bom momento, com o crescimento do número de marcas e uma revolução criativa no que diz respeito a receitas e estilos, é primordial que os envolvidos no mercado mantenham os olhos abertos ao que vem de fora do país, além da nossa principal influência, os Estados Unidos. É o que defende a sommelier e professora Taiga Cazarine.

Após sua recente participação como jurada do Mbeer Contest, Taiga conversou com o Guia sobre os rumos do mercado e da educação cervejeira brasileira, bem como as influências de produtos e culturas de outros países nessa jornada.

“Tem muita coisa bacana acontecendo no mundo inteiro que ninguém imagina”, afirma ela, citando os mercados latino-americanos como exemplos a serem observados.

Taiga é juíza certificada pelo Beer Judge Certification Program (BJCP) e já julgou concursos em eventos de locais como Brasil, Costa Rica, Canadá e Panamá. Nos últimos anos, empreendeu viagens por diversos países em busca de novas perspectivas e olhares sobre o mundo da cerveja. Sua última viagem foi para o estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, a convite do governo do Estado, para conhecer mais de perto a cena cervejeiro local.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Taiga Cazarine , juíza do BJCP, sommelier e professora.

Em seu atual estágio de desenvolvimento do mercado de cervejas artesanais, que outros mercados servem como horizonte para o mercado brasileiro?
O Brasil se inspira muito no mercado norte-americano, mas eu aconselho que as pessoas olhem para mais mercados craft. Tem muita coisa bacana acontecendo no mundo inteiro que ninguém imagina. Na Alemanha, que a gente entende como um país cheio de história cervejeira, não imaginamos que eles também sofram para conseguir fazer a venda de cerveja artesanal. Em Colônia, região muito famosa por sua cerveja, a praça principal está cheia de cervejarias com até 300 anos. Só em uma esquina você encontra um bar de cerveja artesanal, com gente trabalhando arduamente como os nossos empreendedores aqui do Brasil, tentando educar o consumidor, buscar clientes, fazer esse resgate de estilos.

Por mais que existam diversos estilos alemães, o que mais se encontra lá é basicamente o Kölsch. No entanto, ele é transformado, muito diferente do que a gente está acostumado a ler nos guias e degustar aqui quando alguém faz seguindo o estilo tradicional. Lá ele é muito mais límpido, lembra muito a nossa Pilsen. É uma transformação de mercado, que se tornou muito comum lá.

Fora isso, há outros mercados muito recentes em artesanais, como Argentina, Venezuela, Uruguai e Chile, que começaram cenas de cervejas artesanais mais tarde do que o Brasil, mas que estão em um desenvolvimento tão bacana quanto o nosso. Em pouco tempo eles podem nos alcançar.

Atualmente o mercado brasileiro tem uma massa muito grande de consumidores em um estágio inicial de contato com as artesanais, e uma fatia pequena com envolvimento alto. Há uma tendência ou espaço para crescimento dessa fatia de mais envolvida?
Ainda há uma fatia muita grande do mercado com pouco envolvimento, muito superficial, com a cerveja artesanal. Pense no mercado de vinho, acontece a mesma coisa: tem muita gente que não entende de vinho, mas se predispõe a consumir. Temos pessoas entrando na idade legal para o consumo de bebidas alcoólicas o tempo todo, tem sempre novos consumidores. Tem sempre pessoas entrando no mercado, estudando, saindo do mercado. A possibilidade de crescimento está se renovando o tempo todo.

Em que sentido devem ir os esforços de educação de cervejarias e escolas?
O sentido da educação de cervejarias e escolas, eu acho, deve ser mais concentrado em criar atuação de mercado. Temos um monte de profissionais, mas não temos vagas disponíveis para todos.

A ideia de artesanal carrega consigo quase sempre a valorização do “local”. Há algum tipo de conflito entre a proposta de beber local e possíveis esforços para o fomento das importações?
Beber local e ter contato com produtos de outros lugares são estruturas diferentes de pensamento. Uma coisa não inviabiliza a outra. Ter acesso ao que está sendo feito lá fora é importante, assim como proporcionar a oportunidade de consumir local. Assim como importamos para ter acesso ao que está rolando lá fora, exportamos para mostrar o que está acontecendo por aqui. É uma troca de perfil de qualidade.

O que o consumidor brasileiro pode aprender com um acesso mais amplo das importadas?
O que tanto o consumidor quanto o empreendedor brasileiros têm a aprender com o acesso ao que vem de fora é justamente buscar entender um perfil de receita, sensorial. Tem muitas cervejas sendo produzidas aqui que não são o que se entende por seu estilo nos mercados lá fora. Já tomei muita English IPA que nada tem a ver com a English IPA de fato. Só fui entender o que realmente era esse estilo indo para a Inglaterra. Não basta pegar o guia da BJCP e construir de acordo com a receita. É preciso entender o que de fato você precisa reproduzir. Seria o mesmo que alguém lá de fora querer produzir a Catharina Sour e reproduzir sem nunca ter tomado. Para ele entender o que o consumidor deve esperar dela, ele tem que provar uma, autêntica. O contato com o que vem do exterior é exatamente essa percepção de aprendizado.


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