Se beber, recicle: Artista utiliza tampinhas em trabalho de conscientização
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Se beber, recicle: Artista utiliza tampinhas em trabalho de conscientização

tampinhas
Recriação do clássico quadro O Grito, de Edvard Munch, feito por Alfredo Borret apenas com tampinhas de metais

A iniciativa da reciclagem já deu passos importantes no Brasil nas últimas décadas, mas o desperdício de materiais com potencial para reutilização ainda é incalculável. Se garrafas pet e latinhas de alumínio são comumente convertidas em novos produtos, outros resíduos pouco lembrados da indústria de bebidas ainda permanecem esquecidos. É o caso das tampinhas de metal, que se transformaram no mote do trabalho do artista plástico e educador ambiental Alfredo Borret no Rio de Janeiro.

Desde 2007, o artista atua em um projeto denominado Ecotampas. Com sua técnica, transforma as tampinhas de garrafas de cervejas e refrigerantes em trabalhos que vão de pequenos souvenirs a releituras e réplicas de obras de arte. “É uma proposta de consciência ambiental e reflexão sobre a consciência do resíduo do lixo. Utilizo a arte para despertar a consciência ecológica e socioambiental do cidadão”, conta Borret em entrevista ao Guia da Cerveja.

Divulgado recentemente pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2017 apontou que 40,9% de todo o lixo do país não tem a destinação correta, sendo que o número de cidades que usa lixões aumentou para 1.610 no último ano. Além disso, 1.647 municípios – ou 29,6% do total – ainda não possuem serviço de coleta seletiva.

Inicialmente, diante do cenário pouco inspirador, Borret voltou sua habilidade para criar arte através das garrafas pet, um dos materiais mais reciclados no Brasil, ao lado do alumínio e do papel. Mas, posteriormente, decidiu concentrar sua ação nas tampinhas, um resíduo pouco lembrado para reciclagem, o que lhe motivou a transformá-las em beleza através de um trabalho de sustentabilidade e com caráter educacional.

“Comecei a observar que ninguém olhava para o resíduo tampinha. Até hoje, não existe essa gestão por uma empresa. A tampinha é um lixo que está fora do radar da reciclagem. A pergunta que sempre faço é: ‘para onde foi parar a sua última tampinha?’. Ninguém sabe”, explica, apontando o status de “patinho feio” das tampinhas de metal na reciclagem.

A razão para esse esquecimento das tampinhas é financeiro, como calcula Borret. “Uma tampinha pesa 2,5 gramas, é um metal barato, então um quilo equivale a 400 tampinhas. E um quilo no ferro-velho vale R$ 0,50. Não tem valor, então as empresas não se interessam”, explica.

Nesse cenário, o retorno financeiro para a reciclagem poderia ser irrisório para as partes envolvidas nas cadeias da indústria de bebidas. Mas o trabalho de conscientização através da arte tem potencial para evitar o descarte errado do lixo, ação que provoca problemas ambientais e à saúde pública.

O estudo divulgado pela Abrelpe aponta que nos últimos cinco anos foram enviados para lixões 45 milhões de toneladas de materiais recicláveis, que poderiam movimentar mais de R$ 3 bilhões por ano, segundo a estimativa da associação. E não se trata apenas de uma questão econômica. “Uma tampinha pode ser um criadouro para o Aedes aegypti”, alerta Borret, sobre o mosquito transmissor da dengue.

A arte de Borret
No início de seu trabalho, o artista distribuía pequenos brindes aos turistas que visitavam a cidade, como imãs para geladeiras e chaveiros dos principais cartões-postais do Rio. Mas as ações se expandiram, a ponto de Borret calcular já ter utilizado mais de 5 toneladas de tampinhas nos últimos 11 anos, dando uma alternativa para um material de difícil recomposição.

Exposição com as obras de Borret

Entre os trabalhos, o artista já montou uma árvore de Natal em frente à quadra da escola de samba Salgueiro com 82 mil tampinhas, além de ter decorado a fachada de um dos camarotes da Apoteose – onde tradicionalmente ocorrem os desfiles do carnaval carioca – com 13 mil tampinhas. E, também, frequentemente, realiza exposições do seu trabalho.

Para transformar as tampinhas em arte, Borret utiliza uma técnica definida por ele como única, inspirada em quebra-cabeças e que provoca um efeito de mosaico em seus trabalhos. “Uso recorte e colagem de fotografia. Pego uma foto grande, de 90cm x 60cm, por exemplo, e no verso faço diversas bolinhas, cortando uma por uma e encaixando. Depois, com uma agulha, vou alinhando”, detalha.

Sem parcerias com grandes empresas ou indústrias de bebidas, Borret precisa realizar um trabalho de “formiguinha” para colocar seu plano de conscientização artística em prática. Assim, faz parcerias com bares e estabelecimentos para obter as tampinhas, em uma iniciativa que rende bons frutos para todas as partes envolvidas.

“Faço a gestão do resíduo, colocando um coletor de tampinhas. Depois, coleto as tampinhas. E aí transformo as tampinhas em um imã. Vira um souvenir de marketing ambiental. E também recebo doações”, comenta Borret, que tem um slogan e um mantra para seu trabalho: “Se beber, recicle”.

 


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