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Um brinde à Zona Leste: vida que pulsa em São Paulo

Iniciando 2026, minha primeira coluna do ano não poderia deixar de saudar a cidade de São Paulo por seus 472 anos de história. Uma cidade cercada de boas histórias, mas também marcada por profundas contradições — e, ainda assim, profundamente amada por mim e por tantas outras pessoas. Nos últimos tempos, minha escrita tem assumido um tom mais afetivo. Isso não significa ignorar os “espinhos” que surgem pelo caminho, mas, hoje, escolho celebrar uma São Paulo que já conhecia e que, recentemente, mergulhei com mais profundidade: a Zona Leste (ZL).

Um território que pulsa vida, memória e resistência.

A Zona Leste como universo próprio

A Zona Leste é um universo à parte: linda, vibrante, cheia de histórias que nem sempre ocupam o centro das narrativas oficiais da cidade. Neste passeio, compartilho lugares, encontros e experiências que me atravessaram profundamente — da espiritualidade à cultura, da memória à cerveja artesanal.

Prepare-se: a conversa é longa, mas cheia de afeto.

Memória, negritude e pertencimento

Sou apaixonada por São Paulo. Gosto de percorrer o centro, desbravar sua arquitetura e descobrir as histórias negras que sustentam essa cidade. Tebas, os Rebouças, Luiz Gama — homens negros que ergueram São Paulo e cujas trajetórias ainda precisam ser mais conhecidas.

A casa onde Luiz Gama viveu e trabalhou — preservada na Rua 25 de Março, 595 — , é um desses lugares em que a história do Brasil se revela viva, acessível e urgente.

A cidade que também se vive pela arquitetura e pela arte

Desde a adolescência, nutro um encantamento especial pelo Copan. Suas curvas, traçadas por Oscar Niemeyer, sempre me chamaram. Perdi as contas de quantas vezes me hospedei ali. Se pudesse, moraria.

Museus também fazem parte do meu roteiro afetivo: o Museu Afro Brasil, exposições temporárias, centros culturais. São Paulo me exige tempo — e eu gosto de oferecer.

Zona Leste: afeto, história e cotidiano

Há bairros da Zona Leste que me são especialmente caros: Ermelino Matarazzo, Penha, Belém. Lugares onde passeio sem pressa, observando o cotidiano, as pessoas, os detalhes.

No último final de semana, vivi intensamente alguns desses espaços.

Conheci o Ceu (Centro Educacional Unificado) Padre Ticão, um espaço educativo e cultural que homenageia Antônio Luiz Marchioni, o Padre Ticão — líder religioso, social e político fundamental para a história da Zona Leste. Sua atuação foi decisiva para conquistas importantes da região, como a USP Leste. As histórias que ouvi ali me atravessaram profundamente.

Natureza e desaceleração no Parque Ecológico do Tietê

Outro refúgio indispensável é o Parque Ecológico do Tietê. Um espaço de respiro em meio ao caos urbano: fauna, flora, trilhas, lago para ver o pôr do sol, espaços para crianças e adultos, que circulam livres — atentos, curiosos e rápidos.

E o parque ainda abriga um museu que narra a história do Rio Tietê e da fundação da cidade. Um lugar para permanecer.

A primeira igreja de São Paulo está na Zona Leste

Em São Miguel Paulista, encontra-se a Capela de São Miguel Arcanjo, a primeira igreja construída na cidade de São Paulo, datada de 1560. Erguida pelos indígenas Guaianases, sob orientação dos jesuítas, a construção carrega tanto valor histórico quanto as marcas da violência colonial.

O tombamento da capela, em 1938, articulado por Mário de Andrade, foi um marco para a preservação do patrimônio histórico paulistano. História viva, a céu aberto.

Arte contemporânea e ancestralidade

No Sesc Belenzinho, vivi uma tarde de domingo atravessada pela arte. A exposição Ònà Irin — Caminho de Ferro, da artista baiana Nádia Taquary, com curadoria de Amanda Bonan, apresenta obras que dialogam com ancestralidade, memória e força feminina negra.

A mostra fica em cartaz até 22 de fevereiro de 2026 e é daquelas experiências que permanecem no corpo, na alma e no espírito.

Café Quintal: casa de vó na Zona Leste

Se existe um lugar que sintetiza acolhimento, memória e afeto, esse lugar é o Café Quintal. Um espaço que parece suspenso no tempo, onde cada objeto conta uma história e nos leva de volta à infância.

Bolos, rabanadas, cafés e doces artesanais — tudo feito com cuidado e carinho. É sobre comida, mas também sobre pertencimento.

Cervejaria 77: encerrando com chave de ouro

Para fechar o passeio, a parada é obrigatória: Cervejaria 77. Há 12 anos, o espaço leva aromas e sabores à Zona Leste, sob a maestria de Aline Motta e Markus Honório.

Ambiente acolhedor, familiar, democrático. Dá para chegar com amigos, pets, sentar numa cadeira de praia e deixar o papo correr solto. Ali, racismo, homofobia, sexismo, etarismo, dentre outras violências contra minorias políticas, não cabem.

A cerveja escolhida por mim foi a “Durango 95”, inspirada em Laranja Mecânica. Uma Dark Mild Ale, estilo oriundo da escola inglesa. Confesso que ainda não conhecia: leve, com apenas 3% de álcool, mas com uma explosão de sabores — toffee, chocolate e nozes. Drinkability impecável, cor marrom quase rubi que, contra à luz, entregava muita beleza.

É com essa cerveja incrível que ergo um brinde à cidade de São Paulo, uma cidade feita por muitas mãos, sobretudo, por operários(as), trabalhadores(as) incansáveis, que merecem descansar nessa cidade que não para, que não dorme.

O papo foi longo, mas espero que você aproveite cada pedacinho da Zona Leste como aproveitei na companhia de meus amigos Sérgio Crusco e Lucas, e das minhas amigas Silvana Aluá e Camilla. Costumo ouvir: há muita vida pulsando na ZL. Pude atestar: tem, de verdade! 

Por fim, desejo que tudo seja sempre leve, como a vida deveria ser, como um pôr do Sol na ZL.

Até o próximo encontro.


Sara Araujo é sommelière de cervejas e palestrante sobre relações raciais; consultora, formada em Direito (ITE de Bauru/2012) e em Ciências Sociais (UEM/2022), é também especialista em História da África e da Diáspora Atlântica (Instituto Pretos Novos/2025), além de mestranda em Ciências Sociais pela UEM.


* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.

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