Cangaceiras da cerveja: A luta da Confraria Maria Bonita pela inclusão feminina
Últimos destaques Novo

Cangaceiras da cerveja: A luta da Confraria Maria Bonita pela inclusão feminina

maria bonita
Inspirada em Maria Bonita, confraria luta para que a mulher seja respeitada como cliente e consumidora de cerveja

A terra árida, seca, quase dourada da Grota do Angico, em Poço Redondo, no Sergipe, se enlameou definitivamente com o sangue ainda quente de Maria Bonita em 1938, a companheira de Lampião degolada viva após uma emboscada. A história de luta da primeira mulher cangaceira, contudo, foi retomada décadas depois por um grupo de pernambucanas. E o que se verte, hoje, é resistência lupulada: entre goles de um líquido também dourado, agora festivo, mas ainda exclusivo, a Confraria Maria Bonita trava sua moderna batalha pela inclusão da mulher no mercado cervejeiro.

Diretoria no aniversário de dois anos da Confraria Maria Bonita

Contra a ideia estabelecida de que o “sexo frágil” (sic) deve, por exemplo, gostar apenas de cerveja leve e doce, entre tantos outros preconceitos, o grupo foi formado em fevereiro de 2015 por quatro mulheres interessadas em mudar esse cenário. Tem, entre suas integrantes, gente do calibre de Gabi Ramos, da Ambev, Patrícia Sanches, sócia da cervejaria Patt Lou e do Instituto Ceres de Educação Cervejeira, e Nadhine França, consultora cervejeira e organizadora de eventos.

“A confraria surgiu da inquietação da beer sommelière Gabi Ramos em perceber que o mercado cervejeiro local só tinha homens e, em conjunto com Patrícia, que havia começado a fazer cerveja com o esposo, resolveram criar a confraria em uma tentativa de reunir mais mulheres com esse interesse, além de poder atrai-las para o mundo cervejeiro. Começamos com quatro meninas fazendo degustações e participando de eventos”, relata Nadhine França.

A confraria, então, cresceu. Entre conversas no WhatsApp para debater assuntos, tirar dúvidas cervejeiras e compartilhar eventos, a Confraria Maria Bonita foi se estruturando em comissões – “um grupo toca as degustações, outro as brassagens, que normalmente são mensais, outro organiza os eventos maiores”, segundo Nadhine – até alcançar mais de 90 membros.

“Hoje, o grupo conta com 93 participantes. Todas possuem interesse na cerveja de alguma forma, seja apenas para aprender a apreciar melhor, seja profissionalmente ou efetivamente fomentando a cultura cervejeira local”, explica Nadhine.

Uma nova batalha
O crescimento da Confraria Maria Bonita, porém, não esconde uma dura realidade: ainda há muito trabalho a ser feito pelas integrantes para minimizar os efeitos do machismo não apenas do mercado cervejeiro, mas da sociedade em geral.

“Hoje nossa luta é contra o machismo de uma maneira mais ampla, mas tentando mudar o status quo no meio cervejeiro com pequenas ações. Lutando para que nos lugares que frequentamos, a mulher seja respeitada como cliente e consumidora de cerveja, que a mulher tenha chances iguais de trabalho e salário equivalente ao de um homem na mesma função. Mostrar para a mulher que a cerveja é um mundo, além de um mercado em ascensão, e que temos todo o poder para estar dentro dele.”

Se a difícil missão passa por superar um dos grandes males enraizados em nossa cultura patriarcal, a escolha de sua principal inspiração demonstra que, entre copos de cerveja, a confraria sabe bem o que pode construir. “Maria Bonita é uma representante da força da mulher nordestina. Ela também vivia em um ambiente majoritariamente masculino, foi a primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros. E abriu margem para entrada de muitas outras. Morreu lutando por aquilo que acreditava e hoje é um símbolo”, aponta Nadhine.

Patrícia, Lucy, Gabriela e Nadhine, as quatro primeiras fundadoras

Conheça algumas integrantes da Confraria Maria Bonita:

Patrícia Sanches é beer sommelière, técnica cervejeira, sócia da Cervejaria Patt Lou e do Instituto Ceres de Educação Cervejeira;
Lucy Cavalcanti
é consultora cervejeira e gerente do BrewPub Cervejaria Laborada;
Gabi Ramos é beer sommelière e trabalha na Ambev;
Nadhine França é consultora cervejeira, entusiasta e organizadora de eventos;
Julyana Alecrim é beer sommelière e sócia do Instituto Ceres de Educação Cervejeira;
Márcia Marcondes é beer sommelière e cervejeira caseira.

 

 

Leia, também, no Guia da Cerveja:

O abismo sublime: A turbulenta relação que une cerveja, álcool e literatura russa

Cervejaria norte-americana celebra volta de pintura de Van Gogh a museu

Bebida universitária: O trabalho da UFMG para desenvolver a cerveja artesanal


0 Comments

Leave a Comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password