A tragédia climática que atinge a Zona da Mata mineira nesse mês de fevereiro de 2026 deixou um rastro de destruição. São 64 mortos confirmados e mais de 4 mil desabrigados ou desalojados em cidades como Juiz de Fora e Ubá até a manhã desta sexta-feira (27). Além das perdas estruturais e humanas, a economia local também foi atingida em cheio. As cervejarias artesanais da região enfrentam paralisações logísticas, prejuízos acumulados e um cenário de incerteza profunda.
Não há relatos de cervejarias que tenham sido alagadas ou sofrido desabamentos até o momento, explica Alexandre Vaz, presidente da Associação das Cervejarias da Zona da Mata Mineira (Unicerva). A entidade tem sede no epicentro da tragédia, em Juiz de Fora, e reúne 28 cervejarias associadas na região – 18 delas têm fábricas próprias e 10 são ciganas.
No entanto, todo o contexto da cidade está impactando o setor: desde a distribuição de barris até a própria operação estrutural das fábricas, além da segurança das equipes de trabalho.
O cenário nas cervejarias locais
O alto volume de chuvas que levou aos alagamentos, desabamentos e desmoronamentos desta semana foi o ápice de um evento climático que já vem impactando a região desde o início deste ano, explica Alexandre Vaz, que também é proprietário da Cervejaria São Bartolomeu. O movimento comercial de bares e fábricas já vinha caindo desde janeiro. “A gente vem de dois meses de chuvas ininterruptas, tem 40 dias que chove sem parar na região. Ninguém sai de casa. As vendas das cervejarias caíram muito, o público dos bares e restaurantes desapareceu”, diz.
O setor já estava sentindo este impacto quando a tragédia maior aconteceu. Na Cervejaria São Bartolomeu, por exemplo, o acesso ficou bloqueado nesta semana porque a rua que levava à fábrica cedeu. Diversos funcionários do setor tiveram seus veículos e casas alagados e sofreram perdas materiais significativas, tendo que abandonar suas casas às pressas devido ao risco iminente. “A cidade inteira está meio parada”, resume Vaz, ressaltando a dificuldade de retomar qualquer rotina comercial neste cenário.
Outra cervejaria, a Bravo Beer, relata falta de água, de energia e que houve infiltrações na estrutura. “Há diversos cancelamentos de pedidos e muitos bloqueios de ruas pela cidade”.
Prejuízos no Carnaval e o fantasma da inadimplência

O fato desta tragédia ter ocorrido em uma data próxima a um dos eventos mais importantes do ano para a indústria cervejeira – o Carnaval – acrescenta ainda mais drama à situação local.
Vaz relata que a sua fábrica, que tem uma produção mensal entre 20 mil e 25 mil litros, sofreu um baque severo na época de folia. A cervejaria preparou bebida para atender 60 blocos de Carnaval, mas não conseguiu realizar as vendas esperadas, amargando prejuízos logo no início do ano.
Agora, o grande temor do setor artesanal é o efeito dominó financeiro causado pelo fechamento dos pontos de venda. Isso porque a maioria dos bares depende de capital de giro e do fluxo diário de caixa para honrar seus compromissos, explica Vaz. Como os estabelecimentos estão de portas fechadas e sem faturamento, há um medo real de que uma alta taxa de inadimplência atinja as cervejarias no próximo mês.
Reconstrução, planejamento e solidariedade
Apesar da devastação e do risco contínuo — com alertas vermelhos do Inmet ainda ativos devido ao solo completamente encharcado —, a cultura de união do setor cervejeiro tem se provado essencial. Diversas cervejarias estão utilizando seus veículos de entrega e logística para distribuir ajuda solidária aos afetados, conta Vaz.
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A longo prazo, a preocupação da Unicerva volta-se para a lenta recuperação econômica e para os severos danos psicológicos sofridos pela população, que vão inibir o consumo e a realização de eventos na cidade nos próximos meses.
A diretoria da associação agendou uma reunião para a tarde da próxima segunda-feira (2) com os associados para debater o impacto e iniciar o planejamento de sobrevivência e reconstrução do setor na Zona da Mata.
Dimensão histórica da tragédia climática
Os relatos do setor cervejeiro refletem o colapso estrutural da região, que enfrenta um volume de precipitação sem precedentes. De acordo com o Inmet, Juiz de Fora já acumulou mais de 740 milímetros de chuva desde o início de fevereiro, o maior volume para o mês desde 1961.
O governo federal já reconheceu o estado de calamidade pública na região, e o governador Romeu Zema decretou luto oficial de três dias no estado.
As chuvas não pouparam nenhuma infraestrutura. Casarões avaliados em mais de um milhão de reais desabaram em bairros nobres, conta Vaz. A Avenida Rio Branco, principal via central de Juiz de Fora, transformou-se em um rio caudaloso, que não cede.


