A importadora Bier & Wein vai iniciar em setembro a produção no Brasil de dois rótulos da Hofbräu (HB), uma das cervejarias mais tradicionais da Baviera, na Alemanha. Além da Munich Helles, a Weissbier também passa a ser fabricada nacionalmente — um marco histórico, já que é a primeira vez que ela é feita com finalidade de distribuição fora de seu país de origem. Com isso, a HB se torna mais uma das marcas estrangeiras que nos últimos anos começaram importadas e depois passaram a ser feitas por aqui. Brooklyn, Ballast Point e até Blue Moon já seguiram esse mesmo caminho. O modelo traz muitas vantagens e tem se firmado alternativa à importação, que sempre foi complexa em nosso país e se tornou muito cara com a desvalorização da moeda brasileira. Nos últimos dez anos, o Real acumula perda de mais de 80% do valor frente ao dólar americano.
Segundo adiantou a assessoria de imprensa da Bier & Wein ao Guia da Cerveja, os rótulos serão produzidos em duas cervejarias diferentes do interior de São Paulo a partir deste mês de setembro. E essa nacionalização coloca o Brasil como protagonista num projeto de expansão internacional da Hofbräu. “O que convenceu os alemães da HB a escolher o Brasil foi a força do nosso mercado. Somos o terceiro maior consumidor de cerveja do mundo, e temos know-how acumulado em mais de 30 anos como importador e fabricante”, explica Marcelo Stein, sócio da Bier & Wein.
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A fabricação local será realizada sob licença e supervisão de mestres cervejeiros de Munique. A receita seguirá os padrões originais da Hofbräu, com algumas adaptações. “Os únicos ingredientes nacionais serão o malte Pilsen e a água. Já os maltes especiais, lúpulos e a levedura continuarão sendo importados. No caso da Weiss, vamos contratar uma empresa especializada para manter e propagar a levedura aqui no Brasil”, detalha Stein.
Hofbräu e as vantagens de nacionalizar a produção
A iniciativa da HB segue um movimento de nacionalização da produção que já vem sendo adotado por outras marcas. Brooklyn Brewery, Ballast Point e Blue Moon, por exemplo, já possuem produção local de rótulos que antes eram importados. Algumas das principais vantagens da fabricação local são a garantia de mais frescor do produto, além de maior competitividade e disponibilidade no mercado brasileiro.

Para os consumidores, a principal mudança é sentida no bolso. No caso da HB, por exemplo, sem as taxas de importação e custos logísticos, a expectativa é de uma redução em torno de 20% no valor final do produto. Além disso, a cerveja chegará mais fresca e estará muito mais disponível nas prateleiras dos supermercados e bares. “A produção local vai permitir abastecer o Brasil de forma mais contínua, em muito mais pontos de venda”, reforça Stein.
A qualidade da cerveja foi o que fez a Brooklyn optar por uma produção nacional. A marca americana, que é uma das principais artesanais do mundo, está sendo produzida pela cervejaria curitibana Maniacs no Brasil desde 2018. Recentemente, a cervejaria publicou um vídeo do Garrett Oliver, mestre cervejeiro da marca e autor do guia Oxford da cerveja, contando da dificuldade que era exportar as cervejas para o Brasil sem perder qualidade. “Enviávamos as cervejas de Nova York de navio num trajeto que era todo ensolarado, então, às vezes, a cerveja chegava meio cozida. A gente colocava a melhor refrigeração, mas ela não chegava aqui na sua melhor forma. Então, é ótimo que a Maniacs esteja fabricando no Brasil porque ela fica muito mais fresca”.
A presença de marcas internacionais de referência também causa um ganho de marketing para quem produz. Em junho de 2024, foi a vez da californiana Ballast Point iniciar a sua produção nacional, em parceria com a cervejaria Stadt Jever, de Belo Horizonte (MG). Para o mestre cervejeiro mineiro e fundador da marca, Miguel Carneiro, a permissão para fabricação do rótulo americano em sua cervejaria foi motivo de grande prestígio. “Para mim foi um sonho porque a primeira cervejaria que quis visitar quando estive na Califórnia em 2013 foi a Ballast Point”, disse Miguel à jornalista Fabiana Arreguy no programa Sextou Happy Hour da Rádio CDL FM de Belo Horizonte na época do anúncio da produção local. Os primeiros lotes se esgotaram rapidamente.

A prática é até mais antiga entre os gigantes do mercado cervejeiro, que chegam a importar rótulos do seu portfólio internacional e depois produzem localmente. É o caso, por exemplo, da Hoegaarden, da Ambev. E para mencionar um caso recente, o Grupo HEINEKEN optou por produzir nacionalmente a Blue Moon em 2022, que chegou a ser importada pela imprensa em 2021 e, antes disso, pela importadora Interfood desde 2019.
Outra marca internacional produzia em Terras Tupiniquis é a cerveja alemã Weltenburger, uma das mais antigas do mundo. No entanto, diferente das demais mencionadas, começou a ser vendida no Brasil em 2010 e teve sua produção nacionalizada desde o início. Trazida pelo Grupo Petrópolis — dono das marcas Crystal, Itaipava e Petra —, ela é produzida na fábrica de Teresópolis (RJ), utilizando as mesmas receitas e matéria-prima do mosteiro.
“No Brasil, todas as cervejas da linha Weltenburger utilizam o mesmo malte importado da Alemanha, usado no mosteiro da Baviera. Além da clássica Anno 1050 (uma Lager alemã do estilo Märzenbier), produzimos também a Barock Dunkel (uma das mais antigas cervejas puro malte escuras do mundo), a Kloster Hefe-Weissbier Dunkel (cerveja escura de trigo, preparada conforme a antiga tradição das cervejas de trigo da Baviera) e a Urtyp Hell (puro malte tipo Pilsen de baixa fermentação)”, afirma o Grupo Petrópolis em seu site oficial.
Para Stein, a produção local de cervejas internacionais, além de democratizar o acesso ao produto, traz um ganho cultural importante. “Há 25 anos, a Bier & Wein introduziu a categoria Weissbier no Brasil e ajudou a transformar o paladar do consumidor. Agora, com a Hofbräu nacionalizada, damos um passo a mais para aproximar a tradição de Munique do público brasileiro”.


