Alguns eventos simplesmente acontecem. Outros passam por ciclos. Há também aqueles que, depois de um período de desgaste, conseguem algo mais raro: reinventar-se. É justamente esse terceiro caso que parece definir o momento atual do Degusta Cervejas do Brasil. Depois de anos em que o festival parecia ter perdido parte de sua energia original, as duas últimas edições indicam que um novo ciclo está em curso e que ele pode atingir seu potencial máximo em 2027.
Festivais cervejeiros vivem, em grande medida, da percepção do público. A reputação de um evento não é construída apenas pela lista de cervejarias ou pela estrutura oferecida, mas pela sensação que fica depois que tudo termina. É aquela pergunta simples que circula entre quem esteve presente: valeu a pena estar lá?
Durante algum tempo, essa resposta deixou de ser tão clara.
A edição de 2024 ficou aquém de qualquer expectativa. O modelo utilizado já demonstrava sinais evidentes de esgotamento e o formato, que em outros momentos ajudou a consolidar o festival como um dos principais encontros da cerveja artesanal no país, parecia incapaz de mobilizar o mesmo entusiasmo.
O impacto foi perceptível em vários níveis. Algumas cervejarias que tradicionalmente participavam do evento deixaram de comparecer. Parte do público que costumava viajar de diferentes regiões do país reduziu sua presença. A diversidade de rótulos diminuiu e a atmosfera que antes caracterizava o festival perdeu intensidade.
A situação acabou sendo agravada por problemas ligados à administração anterior. As dificuldades acumuladas tornaram inevitável a mudança de organização, abrindo caminho para uma nova fase do evento.
Degusta Cervejas do Brasil
A reconstrução de um festival, porém, não acontece de um ano para o outro.
A nova direção assumiu a tarefa de redesenhar o evento praticamente do zero. O desafio não era apenas reorganizar o evento, mas recuperar a confiança do mercado e do próprio público cervejeiro. Era preciso demonstrar que o festival ainda tinha capacidade de evoluir.
Os primeiros sinais dessa mudança começaram a aparecer rapidamente. O formato foi ajustado, a experiência do visitante passou a receber maior atenção e ficou evidente que havia um esforço real para reconstruir a identidade do evento.
Mesmo assim, o processo ainda carregava o peso do passado. Disputas judiciais e questões herdadas da gestão anterior inevitavelmente influenciavam a percepção de quem acompanhava o festival de fora.
Com o tempo, porém, os resultados começaram a falar mais alto.
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A edição mais recente mostrou um evento mais organizado, com maior diversidade de cervejarias e um ambiente muito mais próximo daquilo que se espera de um grande festival cervejeiro. O público voltou a circular com entusiasmo pelos estandes e as conversas que surgiram depois do evento passaram a refletir algo que há algum tempo não se ouvia com tanta frequência: a sensação de que Blumenau voltou a valer a visita.
Esse tipo de percepção se espalha rapidamente dentro da cena cervejeira.
Quem frequenta festivais sabe que as decisões de participar ou não de um evento são fortemente influenciadas por relatos de amigos, cervejeiros e frequentadores habituais. Quando as avaliações começam a mudar, a reputação do festival também muda.
Muita gente que havia deixado de ir ao evento começa agora a reconsiderar essa decisão. A expectativa para as próximas edições cresce justamente porque o Degusta parece ter reencontrado aquilo que faz um festival funcionar: relevância para o público e para o mercado.
O futuro
É nesse contexto que 2027 surge no horizonte cercado de expectativa.
A tendência é de crescimento tanto no número de cervejarias participantes quanto no público presente. Mais do que simplesmente ampliar os números, o festival parece caminhar para consolidar um novo posicionamento dentro da cena cervejeira nacional.
Se essa trajetória se confirmar, o Degusta pode voltar a ocupar um papel central como grande ponto de encontro da cerveja artesanal brasileira, não apenas como um festival, mas como um espaço de convivência, troca de experiências e celebração da cultura cervejeira.
Naturalmente, sempre há espaço para aprimoramentos.
No fim das contas, revitalizar um festival nunca é tarefa simples. Exige capacidade de reconhecer erros, disposição para ajustar rotas e, principalmente, coragem para reconstruir a confiança do público.
O Degusta Cervejas do Brasil parece ter iniciado esse processo.
Se continuar evoluindo no mesmo ritmo observado nas últimas edições, 2027 pode marcar mais do que um grande evento. Pode ser o momento em que o festival deixa definitivamente para trás um período de incertezas e volta a ocupar o lugar que sempre deveria ter tido no calendário cervejeiro nacional.
Um daqueles raros casos em que um festival não apenas sobrevive ao tempo, mas retorna mais forte justamente depois de quase ter sido dado como superado.
André Lopes é advogado, sócio do escritório Lopes Verdi Advogados e criador do Advogado Cervejeiro. E também colunista do Guia da Cerveja
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


