O mundo da cerveja acaba de ver “ressuscitar” uma lenda. No último dia 15 de dezembro, a cervejaria escocesa Innis & Gunn lançou oficialmente, em Edimburgo, na Escócia, a Innis & Gunn 1875 Arctic Ale. Ela foi criada a partir de uma cerveja rara produzida originalmente há um século e meio para abastecer uma expedição britânica ao Ártico.
A novidade não é apenas uma homenagem, mas uma reconstrução técnica baseada em uma das garrafas mais caras do mundo.
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Uma cerveja rara como ponto de partida
O projeto nasceu da obsessão por preservar a memória cervejeira que o mestre cervejeiro e fundador da Innis & Gunn, Dougal Gunn Sharp, diz ter. Ele adquiriu em um leilão, há mais de uma década, uma garrafa original da “Arctic Ale” de 1875. Investiu 3 mil libras à época, segundo o site The Drinks Business, o que daria cerca de R$ 21 mil hoje.
O valor pago foi alto porque se trata de uma cerveja rara, mas o objetivo era também científico: estudar o líquido remanescente para entender o perfil sensorial e a composição daquela cerveja histórica.
“É difícil dimensionar a raridade desta garrafa. Algumas pessoas podem achar loucura abri-la, mas acho que a verdadeira loucura seria deixá-la guardada em uma prateleira. Cerveja é para ser compartilhada”, disse Sharp, segundo a publicação.
“Esta cerveja foi produzida para uma viagem de resistência e aventura, e acho justo que ela faça mais uma jornada — para o copo. Há algo muito especial em poder degustar um pedaço da história da cerveja e da história marítima. É por isso que estamos fazendo isso”, afirmou.

Artic Ale original
A Allsopp’s fabricava a bebida original. Trata-se de uma das cervejarias mais influentes do século 19. Na época, o cervejeiro desenvolveu o produto para suportar as temperaturas extremas enfrentadas pelos exploradores do Ártico.
Para isso, a receita era robusta. Graças aos açúcares não fermentáveis que impediam o congelamento a -40°C, a bebida era considerada “forte e nutritiva”, possuindo seis vezes mais calorias que o padrão de mercado. Registros de fabricação da época descrevem a cerveja como espessa, escura e “lembrando o antigo vinho da Madeira”. Tão densa que os cervejeiros precisavam retirar da tina de cobre em baldes.
Artic Ale “moderna”
Para trazer essa raridade de volta à vida, a Innis & Gunn uniu forças com a própria Allsopp’s. A marca, que havia desaparecido, foi recentemente revivida por Jamie Allsopp, herdeiro direto da família fundadora.
Essa colaboração garantiu que a nova versão respeitasse o legado da receita original, unindo o conhecimento histórico da Allsopp’s com a tecnologia de produção e maturação em madeira da Innis & Gunn. O resultado é um produto com 9,5% de teor alcoólico (ABV). A Allsopp’s descreve a Artic Ale como uma cerveja de marrom intenso, com sabor que lembra madeira antiga e nada efervescente: a bebida é “quase sem gás”, segundo a empresa.
“Recriar esta cerveja foi um desafio técnico e uma honra. Ver o que os cervejeiros de 150 anos atrás eram capazes de fazer é inspirador”, afirmou a cervejaria durante o lançamento.
Lançamento em um cubo de gelo

E o lançamento dessa recriação histórica não poderia ser mais imagético. A Innis & Gunn levou um bloco de gelo enorme para o evento especial de apresentação, evocando as águas congeladas do Ártico.
De acordo com o site Scottish Field, os convidados puderam provar a cerveja a -10°C. Nada mais justo, já que os marinheiros de 150 anos atrás apreciavam o líquido da mesma forma.
A cervejaria produziu apenas uma quantidade limitada da cerveja. Milhares de pessoas participaram de um sorteio para ter a chance de comprar uma das somente 250 garrafas feitas por 25 libras. No lançamento, a edição limitada esteve disponível em barril nos bares Innis & Gunn Taprooms em Edimburgo e Glasgow. Em janeiro, a Allsopp’s vai ser engatar um barril no The Blue Stoops em Londres, um pub da rede da cervejaria parceira. Não há previsão de que chegue ao Brasil.


