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Padronização e polos produtivos são desafios do setor de lúpulo nacional

O avanço do lúpulo nacional como uma cultura agrícola robusta no Brasil passa, inevitavelmente, pelo desafio da comercialização. Se por um lado o país alcançou níveis recordes de produtividade em campo, por outro o mercado interno ainda impõe gargalos que exigem uma mudança de rota estratégica. 

Dados do Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), apontam que 53% dos produtores vendem diretamente para as cervejarias e 18% não conseguem comercializar a produção (confira o relatório completo). Atualmente, a produção nacional atende de 2% a 3% de toda a demanda da indústria cervejeira brasileira e tem um amplo espaço para crescer.

Para Daniel Leal, vice-presidente Aprolúpulo, para preencher essa lacuna e, no futuro, competir em nível global, os produtores precisam deixar para trás o trabalho individualizado e focar em escala, padronização e na transição das variedades cultivadas.

O desafio do custo e a força do amargor

A atual dinâmica de vendas no país é muito voltada para o mercado de cervejas artesanais, que valoriza e absorve os lúpulos de aroma, como o Comet e o Cascade, explica Leal. 

Essas variedades possuem um valor de mercado mais atrativo para o produtor, o que ajuda a viabilizar financeiramente as pequenas lavouras. No entanto, elas não representam a fatia mais expressiva do consumo das cervejarias, que necessitam de vastas quantidades de lúpulos de amargor para linhas principais. A dificuldade de atender a esse segmento está na importação do insumo estrangeiro, já que os lúpulos importados chegam ao país com valores extremamente competitivos.

Daniel Leal reconhece que o salto de crescimento dependerá de resolver essa equação de custos. “A gente tem mapeado quais são os gargalos que precisamos destravar para voltar a ter saltos produtivos”, afirma Leal. Entre eles, está um aumento expressivo no volume das lavouras. “No atual nível de escala do mercado brasileiro, é difícil você ter competitividade no mercado. Porque esse lúpulo, lá fora, ele também tem alta produtividade, enfim, então ele chega aqui no Brasil a um preço menor”.

Como as variedades de amargor entregam uma produtividade por planta superior às de aroma, o custo de produção por quilo cai de forma natural. Apontando o caminho financeiro viável para o produtor. “À medida que a gente for ganhando escala, a gente vai fazer uma transição também para a gente produzir cada vez mais lúpulo de amargor e menos lúpulo de aroma”, projeta o vice-presidente.

Polos produtivos

Outro gargalo comercial está na forma como o insumo é processado e vendido. Em uma cultura emergente, muitos produtores pioneiros operam de maneira totalmente verticalizada. E absorvem sozinhos os altos custos de secagem, peletização e embalagem, além de realizarem vendas diretas. A saída para esse desafio financeiro é a integração regional e a centralização dos processos de beneficiamento, criando polos produtivos.

Isso também muda o principal argumento de venda do lúpulo nacional. Nos últimos anos, muito se falou sobre o “terroir brasileiro”, destacando as características aromáticas únicas que plantas estrangeiras desenvolvem ao crescerem sob o clima e solo do Brasil. No entanto, para abastecer a grande indústria, a constância do insumo vale mais do que a sua exclusividade.

Daniel Leal pontua que o discurso do terroir funciona bem na atual fase do setor, mas precisará dar espaço à segurança industrial. “Quando a gente pensa que os produtores estão mais pulverizados, cada um fazendo seu esforço comercial, esse é um argumento que sim, ele tem valor. Mas quando a gente pensa em crescer e desenvolver a cultura para uma escala maior, o fator do padrão, qualidade e processo de industrialização estabelecido será muito mais relevante ao setor do que o fator do terroir”, argumenta.

Lúpulo nacional de olho no mundo

Embora o mercado interno do lúpulo represente uma fração pequena do agronegócio brasileiro, o potencial de expansão é grande. E é visto como um passaporte para um futuro mais ambicioso. 

O objetivo imediato da Aprolúpulo e de seus produtores é conseguir organizar a cadeia produtiva para suprir uma parte relevante das cervejarias nacionais, afirma Leal. Assim, quando as barreiras de escala e de custo forem superadas dentro do próprio país, as portas de exportação estarão naturalmente abertas para as fazendas brasileiras. “A partir do momento em que atendermos ao mercado interno, o mundo inteiro passa a ser o público-alvo do setor”, conclui Leal.

Assim, as perspectivas do setor envolvem melhorar a integração entre produtores, ampliar a industrialização e promover a entrada de novos agentes com capacidade de investimento e avanço em pesquisa para iniciar um novo ciclo no setor.

Confira o relatório completo

Élida Oliveira
Élida Oliveira
Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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