O ano de 2025 se aproxima do fim trazendo uma sensação mista para as cervejarias artesanais brasileiras. De um lado, existe a percepção de que foi um período de oportunidade e crescimento que trouxe ainda mais ansiedade para a chegada de 2026. De outro, fica a impressão de um momento de aprendizado e possíveis correções de rota.
Para entender melhor como foi o ano de 2025 para o setor, a reportagem do Guia conversou com 21 executivos de cervejarias brasileiras. Confira abaixo as análises exclusivas:
O que dizem as cervejarias artesanais
Bertol (Evandro Bertol, proprietário)
O ano foi mediano, meu mercado retraiu devido à concorrência desleal de cervejarias com preços abaixo do custo (e com qualidade duvidosa), que se dizem artesanais, e cervejarias maiores com alto poder financeiro. De maneira geral avalio que a qualidade das cervejas caiu muito devido à competição por preços cada vez menores.
Biela (Carlos Alberto Buffon, sócio)
Foi um ano ruim, com queda nas vendas.
Cachorro Magro (Guilherme Antonini Donato, sócio-proprietário)
Para nós foi um ano de crescimento no mercado, um ótimo ano em vendas e consolidação de marca.
Capitano (Luiz Tiveron, sócio-proprietário)
Foi um ano péssimo, as vendas despencaram.
Confraria das Véia (Denis Silva, proprietário)
Foi um ano bom.
Cosvesi (Lucas Costa, sócio)
Para nós, foi um ano de crescimento, devido à transição de cervejaria cigana para brewpub.
Cozalinda (Diego Simão Rzatki, sócio)
Foi o melhor ano de todos os tempos da Cozalinda. Apesar da melhora nos últimos dois anos, este ano foi o de melhor resultado da empresa em seus 11 anos. Um ano que, além de coroar os lançamentos de rótulos de entrada como nossa Saison e venda recorde de Praia do Meio (Fermentação Mista), nos deu fôlego para abrir outras frentes, como o lançamento de uma linha de sidras artesanais.
DosMoret (Flávio Moret, sócio-proprietário)
Um bom ano, com muitos desafios, pois esse foi nosso primeiro ano com a fábrica. Então tivemos de colocar tudo para rodar, em meio a um mercado bem difícil.
Duas Torres (Vinicius Agostinho, sócio)
Notamos um crescimento na média do consumo de cerveja comparado ao ano passado. Mas ainda seguimos com o desafio alto referente ao aumento de imposto, insumo, custo fixo, frete, etc. Acreditamos que o público irá sentir, caso o aumento seja proporcional no produto final. Neste ano também tivemos duas conquistas: ganhamos medalha no Mondial de La Bière e na Copa Rio de Cervejas Artesanais.
Hespanha (João Hespanha, sócio-proprietário)
Foi um ano muito bom. Tivemos aumento de faturamento, produção e lucro.
Hocus Pocus (Vinicius Kfuri, fundador)
O ano de 2025 foi um período de amadurecimento importante para a Hocus Pocus. Mesmo diante de um ambiente desafiador, seguimos focados no que está na essência do nosso negócio: espalhar magia por meio da cerveja, com inovação, qualidade e autenticidade. O resultado foi um crescimento em torno de 30%, sustentado por uma agenda clara de eficiência e evolução interna. Investimos fortemente na melhoria dos KPIs de todas as áreas, no fortalecimento das ferramentas e processos e no aumento da disciplina do time, sem perder a nossa criatividade e a capacidade de inovar que sempre definiram a Hocus Pocus.
Mãttu (Daniel Palhano Mourão Lopes, sócio)
2025 foi um ano desafiador, porém decisivo para a Mãttu. O mercado nacional continuou concentrado — apenas 1% das cervejarias responde por metade do volume produzido — enquanto os custos de insumos e logística subiram acima da média. No Maranhão, a cultura cervejeira ainda é jovem e o consumo de artesanais caiu, o que reforçou a necessidade de trabalhar nichos específicos. Mesmo assim, para nós, foi um ano de afirmação. Como sommelier, observei a consolidação da tendência por cervejas mais leves, com menor teor alcoólico e menos açúcares, alinhada ao movimento nacional que impulsionou o crescimento das cervejas sem álcool. Como cervejeiro cigano, 2025 fortaleceu processos, aperfeiçoou receitas e reforçou a identidade da Mãttu no segmento artesanal de alta qualidade. Foi um ano de resiliência e aprendizado — e também de reafirmar por que acreditamos profundamente na cerveja artesanal e no papel da Mãttu no Maranhão.
Monka (Guilherme Marinho, fundador)
A Monka Cervejaria completará dois anos em 21 de dezembro. Além disso, é um brewpub, o que a diferencia, substancialmente, de cervejarias artesanais que fabricam e apenas distribuem em PEVs. Ou seja, não só pela idade, mas pelo formato, a percepção mercadológica da Monka pode ser um pouco diferente das demais. Avaliamos 2025 como um ano de amadurecimento significativo no mercado cervejeiro brasileiro, tanto em relação ao público, quanto às cervejarias. De acordo com o Anuário da Cerveja 2025 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o setor registrou um crescimento de 5,5% no número de cervejarias ativas em 2024, chegando a 1.949 estabelecimentos, e essa tendência de consolidação continuou em 2025. Esse crescimento vem, paulatinamente, diminuindo e a tendência é que, em breve, tenhamos mais cervejarias fechando do que abrindo, como vem acontecendo nos EUA. Aquela hype que existia há alguns anos, especialmente antes da pandemia em relação às cervejas artesanais, deixou de existir. O Brasil, terceiro maior consumidor mundial de cerveja com cerca de 70 litros per capita anuais (dados da Abracerva), viu o mercado evoluir para um consumo mais seletivo. O foco agora é a em qualidade, em vez de expansão descontrolada. Hoje, temos um público menos curioso, mas que leva muito em consideração a qualidade da cerveja. Não há mais aquele frisson em relação a muitos lançamentos ou à quantidade de estilos no tap; pelo contrário, os clientes buscam boas cervejas e, se a cerveja é boa, voltam e querem beber exatamente o que já experimentaram. O que concluímos é que, apesar de a cerveja artesanal não vender massivamente como era antes de 2020 – com uma perda de 1,1 milhão de consumidores entre agosto e dezembro de 2024, mas um aumento de 20% nas ocasiões de consumo fora de casa (relatório FoodBiz) –, um público muito fiel às artesanais se formou. A Geração Z, com 55% dos jovens evitando álcool (dados do Mapa), vem se interessando pela cerveja low alcohol, impulsionando o crescimento de 536,9% neste setor em 2024, o que representa 4,9% da produção nacional. Por outro lado, muitos dessa mesma geração vêm experimentando cervejas artesanais alcoólicas, mas focando em qualidade e não quantidade ou no maior ABV. Ou seja, só vão sobreviver as cervejarias artesanais que entregam qualidade; a curiosidade pela mera experimentação, quantidade de rótulos, número de lançamentos ou maior ABV passou, dando lugar a um mercado mais sustentável e fiel.
Nave (Rodrigo Gruppelli, sócio)
2025 foi o ano do menor consumo desde 2019, tirando talvez o ano da pandemia.
Paralelo 30 (Paulo Vitola, sócio)
O ano começou bem e terminou fraco em vendas. Reduziu cerca de 10-20%. Nossa avaliação é que tivemos um inverno mais rigoroso, redução do poder de compra da população, concorrência com bets e redução do consumo de cerveja por parte de jovens e de pessoas tomando remédio para emagrecimento. Foi um ano importante para arrumar a casa e traçar bem a estratégia para os próximos períodos.
Philipeia (Isaac Ferreira Costa, sócio)
Aqui na Philipeia o ano de 2025 foi um ano chave, dobramos nosso espaço físico e quase triplicamos nossa capacidade produtiva. Tivemos vários desafios no ano, sem dúvida, porém todas as metas e planejamentos traçados em 2024 foram cumpridos e alguns, inclusive, superados. Em um ano que se viu uma crescente retração do mercado, com, inclusive, fechamentos de cervejarias artesanais e baixo consumo, atrelado, ainda ao crescente desinteresse do público mais jovem em beber efetivamente, crescer no nosso Estado, que culturalmente não é um Estado cervejeiro, foi uma grande façanha. Além disso, passamos a ser também uma indústria de bebidas mais completa, onde hoje temos o foco de 100% da nossa produção em barris e 50% das vendas voltadas a eventos de todos os segmentos com barril, e implementamos uma tendencia que acreditamos ser permanente, que é a produção de bebidas mistas no barril. Introduzimos nossa expertise de cervejaria para criar produtos com insumos cervejeiros conhecidos, como lúpulos cítricos e extrato de malte, e criamos possibilidades que também agregam ao público cervejeiro. Acreditamos que 2025 foi um forte divisor de águas para a implementação da cultura cervejeira aqui na Paraíba e temos orgulho de estarmos capitaneando a ideia.
Ruera (Bruno Martinelli, sócio-proprietário)
Um ano duro, que foi preciso muito criatividade para atrair o público, porém melhor que o ano de 2024. É nosso segundo ano de Bar, então tivemos um crescimento considerável.
Salva (João Luís Giovanella, sócio-fudador)
O ano de 2025 foi realmente muito desafiador. Os pontos de venda especializados tiveram muita dificuldade em manter suas empresas no azul e a inadimplência cresceu muito. As grandes redes enxugaram o mix e espremeram ainda mais as margens. Além disso o mercado consumidor reduziu consideravelmente o ticket médio. Não fosse tudo isso ainda temos as bets “sugando” mais de 50 bilhões de reais do varejo e um modismo do zero álcool que para as cervejarias artesanais muitas vezes é um nicho inatingível.
Sampler (Bruno Braga, CEO)
2025 foi um ano muito desafiador para todos no mercado cervejeiro. Para a Sampler foi um ano de muito trabalho, reinvestimento, crescimento e prêmios. Aumentamos nossa capacidade produtiva em 30%, iniciamos com sucesso a busca por novos parceiros de vendas e recebemos 19 premiações ao longo do ano, incluindo duas medalhas no World Beer Awards, além de um ouro nacional que nos credenciou a representar o Brasil mais uma vez, agora no World Beer Cup 2026. Logo, o saldo do ano foi bastante positivo para a cervejaria.
Quatro Poderes (Marcelo Naves, sócio)
2025 foi um ano muito positivo. Tivemos um crescimento em faturamento dentro do planejado e muitos lançamentos como a IPA Sem Álcool e a Cerrado Grape Ale, além de vários rótulos especiais dentro do projeto Quatro Poderes LAB.
ZEV (Mikhail Ganizev, proprietário)
Foi um ano diferente. Nem ruim, nem bom. Mas de crescimento!


