A crise do metanol deixou a sociedade em estado de alerta. Pessoas estão com medo e estão buscando informações para tirar suas dúvidas. Porém, muitos mitos e inverdades em relação ao metanol e a cerveja estão saindo nas redes sociais, causando um problema também de desinformação.
Algumas dessas questões são confusões compreensivas, dada a complexidade do processo de fabricação de bebidas; outras são equívocos de entendimento sobre os produtos, fiscalização, adulteração e falsificação; mas há também casos de fake news propositais, com vídeos adulterados por montagem.
Para esclarecer algumas dessas questões, o Guia da Cerveja fez uma lista das cinco principais inverdades que estão sendo propagadas na internet sobre metanol e a cerveja, dando as explicações corretas. Confira:
1 – Falsificação não é o mesmo que adulteração
Há muita confusão sobre adulteração e falsificação de produtos. E, apesar do que possa parecer, são coisas diferentes. Adulteração é quando um produto é adicionado ou subtraído de algo, mas parte do produto original continua lá, explicou o mestre cervejeiro Marcus Dapper ao Guia da Cerveja na semana passada.
Essa é uma das principais hipóteses sobre o que está acontecendo com as bebidas destiladas e gerando as intoxicações e suspeitas de intoxicação por metanol. Investigadores trabalham com a probabilidade de que parte do destilado original tenha sido removido da garrafa da bebida, que foi adicionada de metanol.
Já falsificação de um produto é quando nenhuma parte do produto original está presente. É o caso da apreensão de aproximadamente 15 mil garrafas de cerveja na região de Campinas (SP), realizada pela Polícia Civil e Guarda Municipal na última sexta-feira (3). No local, falsificadores trocavam o rótulo e tampa de cervejas mais baratas pelo material de identificação de cervejas mais caras, segundo matéria da Folha de São Paulo.
2 – Cerveja é mais difícil de adulterar
O risco de adulteração de cerveja por metanol, ou seja, de uma garrafa ser aberta e parte do líquido ser trocado por esse tipo de álcool mais tóxico, é baixo. Um dos motivos é que esse tipo de alteração seria fácil de perceber, já que parte do gás carbônico da bebida seria perdido e o aroma e sabor de álcool seria muito perceptível, como explica o mestre cervejeiro Marcus Dapper. Já nos destilados, as notas alcoólicas podem passar desapercebidas.
Além disso, a adulteração faz pouco sentido financeiramente. Órgãos reguladores controlam o metanol no Brasil e o produto é mais caro do que o próprio etanol. Usá-lo numa bebida de valor agregado mais baixo, como a cerveja, inviabilizaria o ganho financeiro almejado pelos falsificadores. Já uma garrafa de destilado tem um valor de venda maior.
Em entrevista coletiva na quinta-feira (2), o próprio ministro da Saúde, Alexandre Padrilha, reforçou a maior dificuldade na adulteração da cerveja. “Estamos diante de um crime envolvendo produtos destilados, incolores, onde se têm técnicas de adulteração desse produto que você não tem no caso de cerveja, que é uma bebida que tem a tampa, tem gás, e é muito mais difícil de adulterar”, disse.
3 – Fabricação de cerveja não produz metanol
Outra hipótese trabalhada pelos investigadores seria de um erro na fabricação. Um destilado mal-feito, por exemplo, pode, sim, ter uma concentração elevada de metanol. No caso da cerveja, essa possibilidade é inexistente.
“Estamos diante de um crime envolvendo produtos destilados, incolores, onde se têm técnicas de adulteração desse produto que você não tem no caso de cerveja, que é uma bebida que tem a tampa, tem gás, e é muito mais difícil de adulterar.”
Alexandre Padrilha, ministro da Saúde
Um dos motivos é a formação do metanol na fermentação precisa de pectina, um polissacarídeo presente principalmente em frutas e massas vegetais, como na cana-de-açúcar. E os cereais, que dão origem à cerveja, não possuem pectina.
Além disso, a pectina só libera metanol quando processada por uma enzima chamada pectinametilesterase. E essa enzima não participa da fermentação da cerveja. Ou seja, o fermento da cerveja não metaboliza a pectina, explica Marcus Dapper.
4 – Sicobe não fiscalizava destilados ou qualidade
Outra informação falsa que está circulando nas redes é que a descontinuação do sistema Sicobe (Sistema de Controle de Produção de Bebidas), antigo método de fiscalização da Receita Federal desativado em 2016, teria correlação com a adulteração de bebidas.
Em nota, a própria Receita Federal desmentiu o fato e esclareceu que o sistema nunca foi utilizado para destilados, fiscalizando apenas cervejas e refrigerantes. Em entrevista coletiva na terça-feira (30), Marta Machado, Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos do Ministério da Justiça, reforçou que a relação é falsa. “[O Sicobe] faz um controle de vazão para fazer um controle do ponto de vista fiscal. Para entender se tudo que foi produzido está representado do ponto de vista fiscal, da arrecadação dos impostos. Ele nunca teve qualquer relação nem com destilados, nem com a qualidade”.
5 – Polícia não confirmou metanol em cerveja Heineken
Talvez o caso mais claro de fake news até agora envolvendo cerveja seja o vídeo em que o apresentador Reinaldo Gottino, da TV Record, teria dado a notícia que a polícia havia confirmado metanol em cervejas da marca Heineken.
O vídeo foi considerado falso pela Reuters e outras agências de checagem de fake news.
Trata-se de uma montagem que aproveitou material originalmente publicador no perfil do programa Cidade Alerta. Na gravação verdadeira, o jornalista diz que as notificações de intoxicação por metanol estão associadas principalmente ao consumo de vodca, gin e uísque. Ele não cita nenhuma investigação da polícia sobre cervejas da Heineken.
Até o momento, todos os casos confirmados e suspeitos de intoxicação por metanol tem relação com o consumo de bebidas destiladas.


