Da última quinta-feira (11) até domingo (14), o Pier Mauá, no Rio de Janeiro, recebeu o Mondial de la Bière 2025. E essa edição veio de repaginada e sob nova direção: sai a organização da GL Events, entra Gabriel Pulcino como CEO. A proposta é ousada, com experiências diferentes, programação cheia de ativações e com opções variadas de acesso — como uma alternativa “open bar” para degustar sete rótulos rotativos à vontade.
O Mondial sempre foi conhecido como o ponto de encontro cervejeiro. Mas a verdade é que esse espaço vai muito além. É um ambiente onde tanto o beer geek quanto quem só veio pela curiosidade podem se perder entre estilos e cervejas nunca vistas na gôndola de um supermercado. Eles podem descobrir novidades e até repensar o que imaginavam ser “cerveja”.
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Entre os mais de 1,5 mil rótulos no cardápio, escolher o que beber pode parecer até uma missão quase impossível. Mas a equipe do Guia da Cerveja fez esse esforço e descobriu cervejas que fogem completamente do padrão. São bebidas com ingredientes improváveis, aromas inusitados e combinações que vão muito além do lúpulo.
Confira!
Hocus Pocus Frutilly de Maracujá

A Hocus Pocus (RJ) é uma cervejaria que virou parte do cotidiano carioca: traz sucessos como Orange Sunshine e Magic Trap. Isso para não falar de uma presença de marca forte e estande quase épico, montado em formato de um gigante de arcade — com cervejas no display no lugar dos jogos. Eles têm linhas regulares sólidas, mas não se contentam e sempre trazem o golpe de efeito (e funciona).
A Frutilly de Maracujá é a versão tropical da Frutilí, que muita gente conhece e associa à nostalgia. Aqui, ao invés de morango, vem o maracujá. Trata-se de uma Sour de fruta, acessível e refrescante, fácil de tomar em dias quentes. Funciona muito bem como bebida descomplicada, mas perde aquele apelo sensorial nostálgico da Frutilly original. O maracujá entrega frescor, mas rouba um pouco a ideia daquele picolé da infância.
Zuid, Indigo e Pakas Bubble Sour
A Zuid (RJ) nasceu da viagem de três amigos à Bélgica: experiência europeia, vínculos formados lá e a vontade de trazer essa cultura para terras cariocas. O nome vem da estação de trem perto de onde se hospedaram — a única palavra que conheciam na língua local. Com inspiração nessa cultura cervejeira, eles ganham licença poética para “brincar” com estilos e técnicas.
A Bubble Sour é uma collab entre as cervejarias Zuid, Indigo Brewing e Pakas Cerveja Artesanal. Com uma base de Berliner Weisse neutra, a cerveja recebe bolinhas explosivas saborizadas, quase como em um “bubble tea”, só que de cerveja. Na hora de servir no copo, você podia escolher entre sabores como frutas amarelas, blueberry, maçã verde.
Além da base ser muito bem feita, com acidez moderada e agradável, as bolinhas elevam a experiência para o lúdico sem destruir a cerveja, aumentando os pontos sensoriais e tornando o resultado surpreendente e divertido.
Three Monkeys Popcorn

Uma referência carioca, a Three Monkeys hoje tem seu próprio brewpub, a Three Monkeys House, em Botafogo. Fica em um casarão histórico com autoatendimento em taps e onde a experimentação é parte do dia a dia. Eles sempre aparecem com rótulos que geram interesse no Mondial, tanto de criações autorais quanto versões que viram “hit” no mercado local.
A Popcorn é uma Imperial Stout com pipoca de caramelo e flor de sal da Mais Pura, cacau, avelã e nozes. É quase uma sobremesa. Os maltes torrados puxam aroma e sabor de chocolate, com notas tostadas e com o sal ajudando a equilibrar a doçura. A combinação transforma sabores populares em algo cervejeiro. E o mais estranho é que tudo isso junto funciona mesmo!
Também é digna de nota a Classic IPA alcohol free, uma versão surpreendentemente lupulada, leve e sem álcool da Classic IPA tradicional.
Criatura Sour de Caju com Wasabi
A Criatura (RJ) é aquela cervejaria cigana que faz questão de irritar o conservador e provocar o curioso. Todo ano traz “loucuras” que geram sorriso, questionamento e, às vezes, polêmica. A proposta é personificar a cerveja: cada rótulo é uma criatura diferente.
Sour de caju com wasabi não é para principiantes. Trata-se de um desafio sensorial para quem gosta e entende esse tempero e não foge de picância. A acidez estava mediana, dando suporte à ardência e o sabor do wasabi, que aparece de forma bastante perceptível e permanece na boca.
Yarun Manipuera
Yarun Fermentados, de Cássia dos Coqueiros, em São Paulo, é uma pequena produtora independente de fermentados naturais focada em cervejas ácidas complexas e kombuchas não alcoólicas. Com um trabalho artesanal, traz seu foco em técnicas de fermentação natural e atenção a ingredientes locais.
Manipueira é nome dado ao caldo da prensagem da mandioca. E esse nome também batiza uma série de cervejas que utilizam os microrganismos presentes nesse líquido como base para a fermentação. É uma proposta 100% brasileira, que explora o terroir de matérias-primas nacionais, sendo um dos caminhos mais interessantes para uma identidade genuinamente nossa. Trata-se de um estilo de cerveja ácida, selvagem e, ao mesmo tempo, convidativo para quem busca algo novo.
Doutor Duranz Milkshake Pistache

Com quase nove anos de estrada e o slogan “A alquimia da cerveja”, o Dr. Duranz (Petrópolis – RJ) é conhecido por pesquisa e experimentação cuidadosa. Eles trabalham com receitas que podem forçar os limites sensoriais do que se conhece como cerveja.
A Milkshake Pistache é uma Imperial Stout enriquecida com espuma de pistache de verdade, não aromatizante sintético. A espuma era densa, aromática e muito saborosa, mas a textura grossa dificultava juntar tudo em um único gole que com fluidez. Resultado: uma experiência diferente, aromática e um tanto “engessada” pela consistência da espuma. Os sabores funcionam muito bem, mas o formato de serviço talvez peça ajustes para beber com mais facilidade.
Alpendorf Brigadeiro de Bacon

Alpendorf é uma cervejaria familiar nascida em 2017 na Casa Suíça, em Nova Friburgo. Hoje tem Biergarten com 23 torneiras e um Gastro BrewPub chamado Smokehouse, que une carnes defumadas e cervejas premiadas. É uma das marcas mais premiadas da região serrana do Rio de Janeiro e começou caseira.
A Brigadeiro de Bacon parte de uma base Adambier, um estilo histórico alemão, escuro e com caráter defumado, na qual foi adicionada maltes torrados e defumados, que lembram calda de chocolate e bacon. Além disso, passa por um curto processo de acidificação para contrastar o dulçor. O resultado é um choque sensorial de todas essas partes. É estranho e satisfatório ao mesmo tempo.
Rabugentos Brewing Co. Sorvete Napolitano
Cervejaria cigana desde 2017, a Rabugentos (Teresópolis – RJ) conta hoje com um brewpub inaugurado em abril de 2024, onde produzem suas próprias receitas. Mantêm espírito independente, atitude direta e vontade de experimentar com perfis ousados.
A Sorvete Napolitano é uma Russian Imperial Stout com adição de morango e baunilha, pensada para remeter ao clássico sorvete que lhe dá nome. É surpreendentemente bem balanceada, sem ser enjoativa. A base torrada sustenta e corta o excesso de doce.
Marek Manipueira 2022 Blackberry
A Marek (RS) nasceu com a ideia de criar cervejas únicas e, ao mesmo tempo, acessíveis, produzindo clássicos com visão própria. É a primeira cervejaria artesanal da região carbonífera e vem investindo firme em envelhecimento e fermentações mistas. Recentemente ganhou medalha na etapa Sul da Copa Cerveja Brasil.
A Manipueira Blackberry é um corte da manipueira de 2022 que passou 12 meses em barril de madeira e foi finalizada com 120g por litro de amoras frescas. Nela, a Marek mostra que é possível transformar processos locais e materiais brasileiros em produtos técnicos. E, ao mesmo tempo, com potentes em narrativas, já que esse estilo tem o mesmo potencial da Catharina Sour para se espalhar e virar um movimento de fato.
Aline Ferreira é comunicadora, beer sommelier, mestre em estilos e juiza de concursos de cerveja.


