Nesta sexta-feira, 5 de junho, é celebrado o Dia da Cerveja Brasileira. A data, criada em 2012 por um grupo de blogueiros — os influenciadores da época — para exaltar a produção nacional, convida à reflexão sobre a profunda conexão entre a bebida e a identidade nacional. Para o professor, historiador e escritor carioca Luiz Antônio Simas, a cerveja atua como uma catalisadora de sociabilidade e cidadania no país, sendo o elemento central da cultura do encontro.
Essa é a constatação de Simas apresentada em uma palestra no último dia 20 de maio, em Brasília. O evento ocorreu a convite do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), logo após o lançamento do Anuário da Cerveja 2026 pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Influenciadores e convidados reuniram-se no camarote da Heineken, na Arena BRB Mané Garrincha, para ouvir o pesquisador, dono de uma obra com 33 livros publicados e uma trajetória dedicada ao estudo da cultura urbana.
O que a República excluiu, o boteco incluiu
Para entender o valor social da cerveja, é preciso olhar para a história do país. Simas lembrou que a República Brasileira foi construída sem um projeto de inclusão da maior parte de sua população. Como consequência dessa exclusão dos espaços formais de poder, o brasileiro transformou a rua no seu principal e mais contundente local de exercício de cidadania.
Dentro dessa dinâmica urbana, os botequins e a cultura da cerveja assumiram um papel de protagonismo. Para o historiador, o boteco funciona para os brasileiros como a praça pública onde se debatem os rumos da cidade, como a Ágora funcionava na Grécia Antiga. “O botequim é um espaço de conversa sobre a vida. É no botequim que você vai xingar eventualmente o prefeito, é no botequim que você vai saber quem nasceu, quem morreu, e é ali que você vai abrir sua cerveja gelada”, resumiu.
A cerveja, portanto, não é apenas um produto numa gôndola ou um barril engatado. Ela é, segundo Simas, o elemento agregador na construção da sociabilidade da classe trabalhadora e permite a fruição do tempo, atuando como um poderoso instrumento de identidade comunitária.
A cerveja, o rito e a resistência
A relação do brasileiro com a cerveja também bebe em fontes ancestrais e espirituais. Simas, que pesquisa profundamente as culturas de matriz africana, pontuou que qualquer processo de diáspora tende a fragmentar o sentido comunitário de um povo, sendo a celebração coletiva e a festa as principais ferramentas de reconstrução de laços.
No Brasil, a festa não acontece porque a vida é fácil, mas justamente como uma ferramenta de sobrevivência diante das dificuldades. O ato de sentar no boteco e beber cerveja integra essa rede de reconstrução de identidades, onde o copo compartilhado cria um rito de comunidade. Essa ligação é tão profunda que se estende às próprias religiosidades afro-brasileiras urbanas, que usam, como Simas aponta, a cerveja preta como elemento ritualístico de oferenda.
Uma questão de sanidade contra a “cultura da urgência”
O recado do historiador também tocou em um ponto nevrálgico contemporâneo: a saúde mental. Simas alertou que vivemos uma época de “corpos saudáveis com mentes ferradas”, fruto de uma sociedade do desempenho que nos domestica para a hiperprodutividade e gera extrema ansiedade.
“As grandes cidades são cada vez mais hostis à cultura do encontro”, diagnostou. O uso excessivo do celular, as milhares de abas abertas e o esfacelamento das conexões reais criaram uma “cultura da urgência” que aniquila o sentido comunitário de viver. Nesse cenário caótico, o simples ritual de apoiar o cotovelo no balcão de um barzinho para beber uma cerveja se torna um ato subversivo e essencial para a preservação da mente.
“O ato de se encontrar para tomar cerveja no botequim, enquanto há um imaginário que mostra que é um ato que pode ser destruidor da sua saúde, a meu ver, é um ato de construção de sanidade”, cravou o professor. Simas defende que os ritos de sociabilidade ancorados na cerveja deveriam ser encarados quase como uma questão de saúde pública, combatendo o individualismo bruto que tem adoecido a sociedade.
A cerveja e o futebol
Por fim, ao falar de dentro de um estádio de futebol, Simas classificou como “uma insanidade absoluta” a proibição da venda de cervejas nas arquibancadas como medida de segurança pública em algumas regiões.
Ele argumenta que é um erro histórico associar a cerveja à violência e a brigas de torcidas. E ressalta que a bebida sempre pertenceu, na verdade, ao imaginário pacífico da sociabilidade urbana. “É mais fácil colocar a culpa na cerveja”, lamentou.


