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Coluna Bia Amorim

A cerveja como matéria-prima da escrita

Do mito oral ao post no Untappd, a cerveja está lá, paralela à história da linguagem

Redação Guia da Cerveja
Por Redação Guia da Cerveja
28 de setembro de 2025
Atualizado em: 1 de outubro de 2025
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    Coluna bia amorim

    “die Sprache ist das Haus des Seins”*
    (A língua é a casa do Ser)

    Martin Heidegger

    Você também se pergunta o que a cerveja tem de tão especial? Às vezes eu simplesmente abro uma cerveja, coloco no copo e fico olhando para ela. Dou um gole, a carbonatação me diverte, a lupulagem me instiga, o malteado me coloca no céu, sinto o gole gelado descendo garganta abaixo e já começo a pensar. Mas não é sobre seus gostos deliciosos e tão variados que eu quero falar aqui. Especial mesmo, assim, para a gente, humanos. Encasquei com isso. Mas acabei fazendo uma lista longa, desses porquês especiais. Como queria escrever sobre isso, pensei que escrever poderia ser um bom começo. Escrita.

    A cerveja esteve a todo momento junto aos homens em sua jornada pela sociedade, nas nossas constituições mais antigas e que ainda seguimos transformando. Muitas vezes olho para a cerveja como esse objeto de estudo tão rico, uma pedra rara, mas ao mesmo tempo tão democrática sensorialmente, tão complexa estruturalmente. E que ainda há tanta coisa a ser vista e transformada, descoberta, e muito mais imaginada. Escrita.

    Estava lendo um texto sobre a história da língua e da escrita, e tudo o que eu pensava era: “Olha lá, a cerveja fazendo parte da palavra escrita, do registro, caraca! A cerveja é tão importante que ela já existe desde tanto tempo que a gente até esquece.”

    Não à toa, como mostram aquelas tabuletas sumérias, a cevada e a cerveja figuram entre os primeiros signos da escrita! Pode parecer banal, mas fico toda feliz. A cerveja é especial e o que eu faço é interessante. Por isso eu amo trabalhar com cerveja. E, portanto, também escrever sobre ela.

    No livro The Domestication of the Savage Mind, Jack Goody (1977; em português, A domesticação do pensamento selvagem), argumenta que a escrita não apenas registra ideias, mas transforma radicalmente a forma de pensar e organizar o mundo, permitindo listas, genealogias extensas, leis codificadas, registros de contabilidade.

    LEIA TAMBÉM:

    O Brasil no seu eterno ponto de inflexão cervejeiro

    É justamente nesse ponto que a cerveja aparece, lá atrás: entre os primeiros registros cuneiformes da Mesopotâmia estão tábuas de argila listando medidas de cevada, jarros de cerveja e pagamentos em grão. Imagina o trabalhão que dava, antes dessa época, fazer tudo de forma oral: falado, rimado, decorado, cantado. A escrita foi também um salto na evolução humana. E a cerveja já estava lá. Hoje em dia o Excel já resolve um montão, né?

    Alfabetos, poesia e a musicalidade do copo

    Finalmente, quando os gregos inventam as vogais e registram a musicalidade da língua, o texto vira poesia, filosofia.  A cerveja também ganha o seu estatuto, vira tema literário, receita, ciência, pesquisa e cultura: do hino à deusa Ninkasi, na Mesopotâmia, até os poemas medievais de taberna, chegando a bebidas fermentadas de forma tão tecnológica e até sem o próprio álcool. A bebida não é apenas consumo, mas linguagem estética, suporte para metáforas, narrativas, símbolos. E acompanhou as boas histórias que foram narradas, escritas e eternizadas. 

    Da Antiguidade até os dias de hoje, nosso pensamento crítico nos faz comunicar o que achamos daquela cerveja, daquela marca, daquele gosto, daquele sabor, daquela mistura, aquela técnica, aquilo outro. E escrevemos, compartilhamos, comunicamos e aprendemos. 

    Aliás, em boa parte das boas histórias de quase ficção, a galera devia estar com uma cervejinha em mãos, tanto vivendo quanto contando sobre aquilo. Todo mundo tem boas memórias de quando a cerveja estava ali, desde os milênios até hoje.

    A história da escrita pode ser lida nos seus suportes: argila, pergaminho, papel, tela. A da cerveja também: do jarro de barro às barricas de madeira, da garrafa ao copo de cristal, da lata à chopeira, da tábula ao Instagram. Cada suporte altera a circulação, o acesso, o prestígio. 

    O status da garrafa grande, feita em um mosteiro, com rótulo em linhas douradas delicadas; a história ali contada timidamente em linhas corridas; e uma taça de cristal impecavelmente limpa aguardando essa cerveja. A garrafa long neck e o simples post, alegre, no Instagram. Tudo é parte: elementos tão decisivos para a cerveja quanto o códice e o PDF para a escrita.

    Mundo digital e mundo líquido

    No presente, a escrita se torna hipertextual. A cerveja, por sua vez, se torna global. Cada post de cerveja é também uma escrita digital, um fragmento da memória coletiva que continua atuando sobre as transformações, mas agora com o nome de consumo, publicação, #publi, experiência, etc. Se a língua digital é atravessada por algoritmos, a cerveja hoje é atravessada por métricas, rankings, aplicativos de check-in. Ambas vivem essa tensão entre liberdade criativa e captura pelos sistemas de poder.

    Do mito oral ao post no Untappd, a cerveja está lá, paralela à história da linguagem. Se a linguagem é a casa do ser, talvez a cerveja seja a varanda desta casa: um momento nesse espaço de encontro, a contemplação e a partilha, o rito onde a humanidade, desde sempre, tem inventado maneiras de existir junto. Cá estou eu, usufruindo da cerveja e da escrita, para manter viva esta paixão: olhar para uma cerveja e saber, e sentir, que ela é especial. Uma sommelier que escreve para também criar mudanças.

    Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.

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