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KU Leuven, a “meca” da ciência cervejeira na Bélgica, está de portas abertas para brasileiros

Quem busca se aprimorar na teoria e prática cervejeira pode encontrar a excelência na Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), considerada a universidade mais inovadora da Europa, que fica no país em que a cultura cervejeira ostenta o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco: a Bélgica.

Em meio à tradição secular, a inovação de ponta se destaca. Para os cervejeiros de plantão, a KU Leuven oferece uma formação especializada em teoria e prática por meio do Programa de Pós-Graduação em Ciências de Malteação e Cervejaria (Postgraduate Program in Malting and Brewing Sciences), que é presencial, e o curso aberto e online “Cerveja: A Ciência da Produção” (Beer: The Science of Brewing), de 40 horas.

A pós-graduação é focada na ciência e tecnologia da produção, formando especialistas em cada etapa do processo, passando também pelo módulo de novos negócios, que culmina na apresentação de um plano comercial real avaliado por líderes da indústria. O curso online dá uma visão do campo da ciência e uma introdução básica aos tópicos do programa presencial – uma boa forma de entrar em contato com o idioma e a estrutura do ensino belga.

Em entrevista exclusiva ao Guia da Cerveja, Steven Simmonds, coordenador do programa e pesquisador de pós-doutorado, fala sobre os diferenciais da instituição e afirma que a universidade está de portas abertas aos brasileiros.

Pós-graduação em ciência cervejeira na KU Leuven

O objetivo do curso presencial, segundo Simmonds, é treinar os alunos para serem especialistas em todo o processo de malteação e produção de cerveja, com um conhecimento sólido e aprofundado da ciência por trás de cada etapa. ”Os alunos recebem palestras e cursos de pesquisadores líderes mundiais em todos os tópicos relacionados à malteação e produção de cerveja, desde a compreensão das mudanças bioquímicas que ocorrem em um grão de cevada durante a malteação, até a descoberta dos métodos ideais de embalagem e transporte para garantir que a sua cerveja seja entregue de forma eficiente, sustentável e fresca”, diz o coordenador.

O curso também aproveita todas as oportunidades para destacar a indústria e a cultura cervejeira da Bélgica. Os alunos visitam cervejarias e locais voltados à área, desde abadias até fabricantes de equipamento, para vivenciar em primeira mão tanto a produção inovadora de cerveja pela qual a Bélgica é famosa quanto a herança cultural, explica o Simmonds.

A instalação de micromalteação na universidade permite que os alunos malteem diferentes variedades de cevada e outros cereais em pequena escala, tornando a comparação e a experimentação possíveis. Simmonds explica que as duas cervejarias piloto da KU Leuven têm capacidade de 500 litros e servem como um laboratório prático para experimentar todas as etapas do processo de produção, desde a fermentação até a filtração, usando equipamentos e técnicas de última geração. “Isso permite aos alunos elaborar suas próprias perguntas de pesquisa de ponta para colocar toda a teoria da sala de aula em prática no chão de fábrica da cervejaria”, diz. Fora do laboratório, os alunos produzem cerveja com parceiros industriais para garantir que recebam a visão necessária para ingressar no cenário moderno de carreiras em malteação e cervejaria, segundo o coordenador.

Apoio da AB Inbev

Toda essa estrutura de ensino da pós-graduação é apoiada financeiramente pela Cátedra AB InBev em Malteação e Produção de Cerveja. “Isso significa que a AB InBev investiu em uma ‘cátedra educacional’ de cinco anos na KU Leuven para fortalecer o ensino nas ciências cervejeiras e ressaltar os laços locais com a KU Leuven e a região de Leuven. Na prática, isso fornece o suporte financeiro para administrar o programa, e nós colaboramos regularmente com parceiros industriais, incluindo a AB InBev, para criar conteúdo educacional, como séries de palestras de convidados sobre questões urgentes na indústria ou visitas técnicas inovadoras”, explica Simmonds.

Brasileiros na KU Leuven

O coordenador afirma que os candidatos do Brasil são, no geral, bem qualificados e adequados ao programa. “O nível de especialização técnica dos candidatos brasileiros e latino-americanos é geralmente excelente, o que os torna adequados e os ajuda a se destacar nos elementos mais práticos”, diz. Entre os brasileiros, Simmonds afirma que percebe uma liderança nata, organizando grupos e atividades extracurriculares entre os estudantes internacionais.

Para ele, a lacuna acadêmica mais comum é a bioquímica discutida nas aulas científicas técnicas como, por exemplo, a cinética enzimática ou a mecânica da gelatinização do amido, onde alguns alunos acham a profundidade desses assuntos mais complicada de entender. “O formato de ensino em pequenos grupos, neste caso, é de enorme benefício para os alunos, pois eles podem abordar diretamente o professor para obter ajuda personalizada ao estudar um assunto não familiar ou conceitos que acham difíceis de entender no início”, explica Simmonds.

Ele sugere que os interessados na pós-graduação presencial comecem fazendo o curso online gratuito para observarem se o perfil da formação atenderia aos objetivos do aluno.

Admissão, logística e cursos

A KU Leuven possui diversas iniciativas de bolsas de estudo, como a Science@Leuven Scholarship. No entanto, segundo Simmonds, a que desperta um maior interesse nos alunos é a isenção de taxas do Fonds Verhelst (Fonds Verhelst fee waiver).

Esse apoio financeiro é específico para o Programa de Pós-Graduação em Ciências de Malteação e Produção de Cerveja e cobre a taxa integral do curso (exceto o custo de matrícula, que é de aproximadamente 140 euros) para um aluno a cada ano. 

Simmonds explica que qualquer pessoa elegível para se candidatar ao programa também pode solicitar a isenção de taxa, o que é feito no mesmo momento da inscrição mediante o envio de uma carta de motivação demonstrando excelente posição acadêmica ou profissional e delineando uma motivação clara para seguir carreira na indústria de malteação e cervejaria. “Entendemos que nossos candidatos não pertencem a uma categoria única para todos, portanto, os requisitos para solicitar a isenção de taxa são projetados para serem aplicáveis ao maior número possível de nossos candidatos”, afirma.

Para o ano letivo de 2026/2027 foram fixadas taxas de 6.950 euros, que incluem o transporte entre as diferentes unidades da KU Leuven, todas as visitas externas e todos os materiais necessários para as aulas práticas e os momentos de produção de cerveja. Convertendo para o real (considerando uma cotação de R$ 6), o valor daria quase R$ 42 mil. Além deste custo para a formação educacional, o aluno teria que arcar com moradia, alimentação e demais despesas pessoais.

Inovação na KU Leuven

KU Leuven, na Bélgica. (Foto: Reprodução/www.kuleuven.be)

Ter um diploma da Ku Leuven significa carregar uma marca que vai além dos barris e dornas de fermentação. Simmonds destaca que a instituição é responsável por descobertas como o tenofovir, medicamento utilizado por mais de 75% dos pacientes com HIV no mundo, e o algoritmo de criptografia Rijndael, que hoje protege toda a infraestrutura global da internet e computadores desenvolvidos após 2011. Em 2025, a universidade alcançou o terceiro lugar mundial em número de pedidos de patentes no Escritório Europeu de Patentes (EPO).

Quando essa vocação científica se volta para a cerveja, os resultados ajudam a impulsionar o futuro do mercado. Simmonds destaca, por exemplo, o desenvolvimento do perfil genético das leveduras de fazendas escandinavas (farmhouse yeasts), que permitirá aos cervejeiros buscar novos sabores enquanto melhoram a resiliência e a sustentabilidade dos processos de fermentação. “Outro destaque é o desenvolvimento de modelos de IA que podem prever como uma determinada cerveja será avaliada pelos consumidores e quais compostos de aroma os cervejeiros podem adicionar para melhorá-la”, afirma. 

A KU Leuven também está trabalhando no aprimoramento da cerveja sem álcool, setor que mais cresce na indústria cervejeira, destaca Simmonds, com estudos que vão desde como melhorar seu corpo e sensação na boca (mouthfeel), até a compreensão de como seu perfil de carbonatação afeta a percepção sensorial dos consumidores.

Élida Oliveira
Élida Oliveira
Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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