
A cada nova pesquisa, o mesmo refrão: “as novas gerações não bebem”. De uns tempos para cá tudo é sobre a tendência que parece que vai destruir o mercado de bebidas e nunca ninguém irá mais beber uma cervejinha gelada sequer, pois a geração xyz não consome álcool em nenhuma medida.
Eu sei, tô acompanhando e nem acho que seja mentira, mas talvez haja aí um canto de sereia que é bastante sedutor, certamente é insistente, repetido à exaustão, mas nem sempre verdadeiro completamente. Tem quem queira que a gente acredite que não há futuro.
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É curioso ver como as prateleiras mudaram: rótulos com palavras como leve, zero, clean, e ao lado delas, as cervejas que ainda acreditam no excesso. Parece que bebemos com culpa, ou com justificativa. O que antes era apenas um brinde descompromissado, virou cálculo em uma planilha contemporânea de saudabilidade.
Ainda há muito a celebrar
Bebemos porque é ritual. Está na raiz das sociabilidades humanas, das frutas maduras fermentadas, dos meles encharcados de chuva, dos primeiros grãos fermentados pelos humanos, dos banquetes gregos às rodas de samba atuais.
“Beber é uma forma de comunhão”, lembra o antropólogo Edward Slingerland
(SLINGERLAND, Edward. Embriagados: como bebemos, dançamos e tropeçamos em nosso caminho para a civilização. Porto Alegre, Editora Krater, 2023.)
Por mais que o jovem de hoje não procure saber disso, ou não entenda vividamente, cedo ou tarde essa herança o alcança: bebemos não para esquecer, mas para celebrar. E celebrar é lembrar que pertencemos a algo maior.
Ainda há muito a chorar
Claro que nem só de brindes alegres vive um gole, às vezes o copo é parte de um abrigo. Um dia cansado, uma perda, uma frustração e o gesto de erguer a taça não é símbolo de fuga, é mais um consolo. Proibir, incriminar ou super taxar seu uso é desconhecer o papel ambivalente que ele ocupa na história humana.
Ainda há muito a descobrir
A cerveja nos acompanha há milênios nos envolvendo como sociedade e ciência. Fazemos tecnologia para que seja cada vez mais proveitoso e delicioso o ato de beber, de degustar, de termos prazer com uma simples bebida. Somos curiosos líquidos.
Evoluímos enquanto fermentamos
Hoje, a descoberta continua: há espaço para bebidas sem álcool, com menos teor alcoólico, com novos sentidos, de novas formas e sabores. Isso não é ameaça, é parte do mesmo movimento curioso que sempre nos guiou. E enquanto fomos desenvolvendo a agricultura, as máquinas, os movimentos e tudo que gira em torno de fabricar uma cerveja, novas tecnologias da bebida se misturaram às novas tecnologias da própria saúde, dos maquinários mais complexos a instrumentos que hoje são simples em nosso dia a dia.
Ainda há muito a moderar.
Existem muitas pessoas que têm graves problemas com o consumo de álcool. Não há negação com relação a isso, mas também há um esforço para que seja constantemente discutido.
Sim, há quem sofra com o abuso. E falar sobre isso é sempre urgente. Mas confundir moderação com abstinência forçada é perigoso. O debate público precisa sair do tom moralista e entrar no terreno da educação: entender o prazer, o limite e o risco. Não é sobre proibir, é sobre escolher melhor a forma como as pessoas se relacionam com seu consumo. Individual e coletivo.
O pesquisador Glauco Caon em seu recente artigo publicado aqui no Guia da Cerveja, nos mostra que ao ler os relatórios mais recentes sobre consumo, entende que não é tão alarmante assim a questão de se beber com moderação. E ele mesmo tem pesquisas que mostram o contrário, existe uma boa correlação no bom consumo.
Liberdade sobre nossos corpos e decisões
Ao mesmo tempo que queremos tanto debater sobre liberdade, há outras forças que querem forçar o estado a aumentar os impostos sobre a cerveja. Eu acredito que o mais importante é falarmos sobre o consumo e as consequências de consumir em excesso de forma esvaziada dos sentidos, sem cultura, sem gastronomia. Proibir ou piorar o consumo com altas taxas de impostos piora para quem o faz de maneira correta, justa, alegre e ritualística. É apenas moralismo.
Sexta, sábado, domingo ou quaisquer outro dia da semana que uma pessoa queira beber sua cerveja, gelada ou quente, clara ou escura, amarga ou azeda, com ou sem fruta. Com ou sem álcool. É preciso liberdade e existe um controle dos corpos que também aproveita esses movimentos, aproveita para pesar a favor de outras indústrias e motivações.
O eco do canto
O mercado tem que seguir firme em melhorar cada dia mais o produto e seus processos. Conversar com o consumidor para que aproveite da forma mais prazerosa e saudável. Seguir evoluindo, como faz a tantos milênios e firme em passar por mais uma provação da temperança e daqueles que seguem querendo controle, rédeas curtas e poder sobre as decisões alheias.
Entre o excesso e a proibição, há um mar inteiro de possibilidades, fermentado pela curiosidade, pela medida e pela alegria. É nesse meio líquido que seguimos, tentando não confundir o medo do afogamento com o prazer de nadar.
Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.
* Este é um texto opinativo. As opiniões contidas nele não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.


