No longa-metragem “O Agente Secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, o copo sobre a mesa fala tanto quanto os próprios personagens. Com direção de arte de Thales Junqueira, a ambientação vai além da estética: a cerveja ajuda a contar a história de forma silenciosa e potente, segundo os especialistas em cinema ouvidos pelo Guia da Cerveja.
O filme, que teve quatro indicações ao Oscar, mas acabou sem premiações na noite de domingo (15), acompanha Marcelo, um especialista em tecnologia com um passado misterioso que volta ao Recife buscando refúgio, mas esbarra em uma realidade diferente da que procurava.
A “bebida nacional” como refúgio
Marcio Rodrigo, professor do curso de Cinema e Audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), explica que, na década de 1970, a publicidade consolidou a cerveja como a bebida alcoólica mais consumida no Brasil, alcançando diversas classes sociais. Essa popularização orgânica justifica a escolha de associar a bebida aos protagonistas da trama.
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Para Rodolfo Stancki, professor do curso de Cinema da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o consumo em tela traduz uma sensação imediata de alívio. Isso fica evidente logo no primeiro momento em que o personagem de Moura chega ao alojamento da dona Sebastiana. Após uma jornada exaustiva, ele se depara com uma barulhenta festa de Carnaval. Ali, o primeiro gole de cerveja funciona como um convite para um ambiente seguro.
Stancki aponta que o filme constrói um tripé da identidade brasileira baseado no futebol, no Carnaval e na cerveja. Essa base ganha força na cena da reunião dos refugiados, onde latas, garrafas e cachaça compartilham a mesa.
Neste ambiente de acolhimento e celebração, a bebida destrava as amarras dos protagonistas e favorece o diálogo franco. É nesse contexto que o personagem de Moura, ao consumir a bebida, afirma estar em casa e se sente seguro para revelar o seu verdadeiro nome. “Dividir uma cerveja naquele momento é dividir uma intimidade e uma identidade”, avalia o professor da PUCPR.

O contraste com o poder em “O Agente Secreto”
Se a cerveja aproxima, o uísque afasta. Marcio Rodrigo ressalta que a bebida destilada aparece tradicionalmente relacionada às classes sociais mais abastadas e poderosas da época, mas alerta que o roteiro não se limita a uma visão maniqueísta: a bebida demarca as barreiras de classe e de poder.
O contraste direto ocorre de forma evidente em uma cena de bar, onde o personagem de Moura consome cerveja enquanto um empresário bebe uísque. Mais do que um marcador financeiro (já que o alto custo inviabilizava o consumo corriqueiro para a maioria da população), o uísque é retratado como um signo de poder masculino e um elemento estrangeiro à identidade nacional dos refugiados.
A rejeição a essa dinâmica de poder é direta. Stancki descreve uma cena simbólica em que o personagem de Gabriel Leone recebe um copo de uísque. Antes do consumo, um assassino intervém e proíbe o rapaz de ingerir o líquido, deixando claro que aquele grupo não pertence à realidade da elite.
“É uma bebida estranha, de um lugar que não é exatamente da identidade brasileira”, afirma o professor. O espectador entende, ali, que não há espaço para conforto ao lado de figuras de poder.

A calmaria no caos
Toda a estrutura de conflito de “O Agente Secreto” se apoia na identidade do brasileiro e do nordestino, e a cerveja atua como o mecanismo tátil que permite aos personagens vivenciarem suas origens.
A bebida opera como um respiro mesmo em situações extremas. Em outra sequência, o tio do personagem de Gabriel Leone come um salgado em um boteco com um copo de cerveja ao lado. A cena demonstra um relaxamento quase irônico para alguém que está jurado de morte.
Segundo Stancki, esse uso da bebida ao longo da obra gera uma identificação tão imediata que desperta no espectador a mesma sensação de familiaridade e a vontade instantânea de tomar uma cerveja gelada.


