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Indústria

Além do rótulo: como leveduras e enzimas levam sabor às cervejas sem glúten e de baixa caloria

Élida Oliveira
Por Élida Oliveira
9 de fevereiro de 2026
Atualizado em: 9 de fevereiro de 2026
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    Leveduras e enzimas podem ser grandes aliadas na hora de manter o sabor de cervejas sem álcool, sem glúten e low carb (Crédito: Canva.com)
    Leveduras e enzimas podem ser grandes aliadas na hora de manter o sabor de cervejas sem álcool, sem glúten e low carb (Crédito: Canva.com)

    Por muito tempo, o consumidor que buscava uma cerveja sem glúten ou sem álcool precisava se conformar com um produto de perfil sensorial inferior, muitas vezes descrito como tendo gosto de “cereal cru” ou com doçura excessiva. Mas o avanço das enzimas e leveduras transformou essa realidade.

    Essa evolução da biotecnologia permite hoje que as cervejarias artesanais entreguem bebidas “honestas”, termo utilizado por Mario Bitencourt, supervisor técnico comercial da AEB Group, para descrever produtos que mantêm a integridade do sabor original. Segundo ele, o segredo para essa evolução não está em retirar componentes de uma cerveja pronta através de processos físicos, mas em utilizar a ciência para que ela já nasça com as características desejadas.

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    Essa visão de que a tecnologia é a maior aliada da qualidade sensorial é reforçada pelo mestre cervejeiro Rubens Mattos, diretor técnico da Prodooze. Para ele, o uso de ferramentas biotecnológicas modernas traz benefícios que o consumidor sente diretamente no paladar. “O uso de enzimas só ajuda, na verdade. São produtos de alta tecnologia, muito específicos no que fazem e, ao final, ajudam o consumidor na qualidade do produto para que ele tenha um frescor maior”, afirma Mattos. Dessa forma, a aplicação técnica garante a preservação de aromas e texturas que o público valoriza, sem os efeitos negativos de processos industriais agressivos.

    A precisão das enzimas 

    Biotecnologia cresce e impulsiona entrada de pequenas cervejarias no mercado de bebidas funcionais

    Um dos pilares dessa revolução é o uso de enzimas específicas que funcionam como chaves exclusivas para fechaduras moleculares. No processo químico de produção da cerveja, essas enzimas abrem as moléculas e desativam apenas os componentes indesejados, como a proteína do glúten, sem afetar outras “portas” sensoriais da bebida, como o aroma e o corpo.

    Mattos explica que essas ferramentas biotecnológicas são extremamente específicas: uma enzima que degrada o glúten foca apenas nas ligações de prolina da proteína — que podem ser explicadas como os pontos que tornam o glúten perigoso para algumas pessoas. Durante este processo, a ação da enzima é tão precisa que não interfere na estabilidade da espuma ou no corpo da bebida. 

    Essa precisão permite que as microcervejarias utilizem o malte de cevada tradicional, em vez de recorrer a grãos alternativos que poderiam comprometer o sabor. Isso garante que o celíaco ou o consumidor que evita o glúten tenha uma experiência idêntica à de uma cerveja convencional.

    Além da questão do glúten, o uso de enzimas como a beta-glucanase traz benefícios diretos ao frescor do produto final. Conforme Mattos, ao acelerar a clarificação do mosto (líquido do malte) e facilitar a extração do extrato do malte, o cervejeiro reduz o tempo em que o líquido fica exposto ao calor. 

    Isso resulta em um mosto menos oxidado e com menor extração de polifenóis adstringentes, já que não é necessário “afofar” tanto a cama de bagaço durante a filtragem. 

    Para o consumidor, o resultado prático é uma cerveja com maior frescor e um perfil de sabor mais limpo e equilibrado.

    Leveduras que reinventam a fermentação

    No campo das cervejas sem álcool, a grande inovação reside no uso de leveduras maltose-negativas. Diferente das leveduras tradicionais, essas variedades não conseguem consumir os açúcares mais complexos do malte, gerando quase nada de álcool durante a fermentação, mas produzindo os ésteres e álcoois superiores que dão o aroma característico de uma boa cerveja. 

    Mario Bitencourt destaca que esse processo é um “divisor de águas”, pois evita processos físicos agressivos de desalcoolização que poderiam “machucar” a cerveja e degradar seus compostos aromáticos.

    Essa tecnologia tem permitido que estilos complexos, como Hazy IPAs e Catharina Sours, entrem no portfólio de produtos funcionais, atendendo a uma demanda crescente de atletas e da Geração Z, que buscam saúde e bem-estar sem abrir mão do prazer sensorial. 

    O impacto dessa mudança é visível em casos de sucesso como o da Cervejaria Bierbaum, que, ao utilizar um pacote tecnológico da AEB — incluindo leveduras específicas e nutrientes —, viu suas vendas de cervejas Low Carb crescerem 300% desde o primeiro lote.

    Cervejaria Bierbaum lançou linha Low Carb em parceria com a AEB Group. Foto: Divulgação.
    Cervejaria Bierbaum lançou linha Low Carb em parceria com a AEB Group. Foto: Divulgação.

    O fim da “loteria” e a era da padronização

    O amadurecimento do mercado de biotecnologia trouxe o que Bitencourt chama de “profissionalização obrigatória” para o setor artesanal. Se há 15 anos beber uma cerveja artesanal era uma “loteria” devido à instabilidade entre os lotes, hoje a régua subiu. 

    O uso de estabilizantes, coadjuvantes de filtração e leveduras selecionadas garante não apenas a explosão de sabores e aromas, mas também a segurança alimentar e uma validade estendida do produto nas prateleiras. 

    Para o consumidor final, o crescimento desse mercado de fornecedores biotecnológicos significa que a cerveja inclusiva deixou de ser uma alternativa de “consolação” para se tornar uma escolha de qualidade, tão robusta e prazerosa quanto qualquer outro rótulo premium do mercado.

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      Élida Oliveira
      Élida Oliveira
      Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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