O mercado mudou. Hoje cervejarias não são mais apenas fábricas. Para melhorar o faturamento, elas são cada vez mais sendo também pontos de venda, e-commerce e produtoras de eventos. E os eventos de cerveja são ótimas oportunidades de apresentar os produtos e fidelizar consumidores por meio de um ambiente que promove a interação social e o prazer da degustação da bebida. Ou seja, uma verdadeira experiência. Por isso, eles se consolidam como ferramentas cruciais para o desenvolvimento do mercado, a educação do consumidor e a construção de comunidades, segundo especialistas.
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Importância
“A principal dica é entender que um evento cervejeiro vai muito além da bebida: ele precisa oferecer uma experiência completa. Isso inclui pensar no ambiente, na gastronomia, na música, nas ativações e até na identidade visual”, afirma Guilherme Guenther, diretor-geral do Parque Vila Germânica, onde é feita a Oktoberfest Blumenau (SC), que completa 40 anos em 2025.
Gulherme é um dos 30 especialistas que estiveram presentes na primeira edição do Oktoberfest Summit, encontro sobre a arte de organizar grandes eventos e novo braço da maior Oktoberfest da América Latina. Ele ocorreu de 13 a 15 de outubro e além de muito conhecimento, a iniciativa revelou parte dos segredos do megaevento.
E, para que tudo ocorra no planejado, é preciso montar uma logística bem planejada, segundo Guenther. Desde a seleção dos fornecedores até a estrutura de atendimento ao público. “Também destacamos a importância de parcerias estratégicas — tanto com marcas de cerveja quanto com setores complementares, como gastronomia, turismo e cultura, fortalecendo o evento e amplia o alcance”, diz.
O mesmo vale para eventos de cerveja artesanal. Segundo Rafa Moschetta, que organiza desde 2012 o IPA Day Brasil e desde 2019 o IPA Day São Paulo, é preciso pensar no evento cervejeiro como uma ferramenta de transformação do mercado, criação de demanda e educação do consumidor.

“É uma ferramenta que consegue usar o entretenimento para apresentar, no caso do Festival IPA Day, por exemplo, os estilos e subestilos, formar consumidores de IPAs e educá-los sobre o valor do produto. Construímos uma comunidade. E continuamos trabalhando para também apresentar cerveja artesanal para um consumidor que não tem o hábito de consumir cerveja artesanal para fomentar a cultura do artesanal como um produto do dia a dia e não de indulgência”, afirma.
5 dicas para um bons eventos de cerveja
Foco na experiência completa
Segundo Guilherme Guenther, bons eventos de cerveja devem proporcionar uma experiência completa. O que inclui pensar no ambiente, na gastronomia, na música, nas ativações e na identidade visual.
Para Moschetta, o evento é uma oportunidade para a marca contar uma história por meio da música, da gastronomia, da estética e do conceito do projeto, amplificando seu ponto de contato com o consumidor. “Um evento bem elaborado é um instrumento potente de branding e construção de comunidade”, diz.
Trabalhe com profissionais qualificados
Rafa Moschetta destaca a importância de fechar parcerias e contratar profissionais qualificados para que o amadorismo não estrague toda a experiência dos eventos de cerveja. Ele afirma que se a organização do evento em si não é uma expertise da cervejaria que deseja promovê-lo, o ideal é contratar profissionais qualificados para organizar a estrutura e dar apoio. “Contratar agências ou especialistas torna a entrega muito mais confortável. E de nível mais alto, visto que o desafio de tocar uma cervejaria já é grande”, diz.
Para a operação de chope deste ano, a Oktoberfest de Blumenau conta com o serviço da Netbar Operações de Bar e Eventos, dos sócios Rafael Almeida e Jonathan Benkendorff. De acordo com Jonathan, a operação é complexa, envolvendo quase 1 mil pessoas para garantir que a cerveja seja servida gelada para todos. “Diferentemente de festivais com bebidas em lata ou garrafa, o chope exige uma operação robusta e mecanizada, com equipamentos especializados, como torneiras, bandejas coletoras, barris, cilindos de dióxido de carbono, etc.”, explica em entrevista ao Guia da Cerveja durante a Oktoberfest. A Netbar é responsável por 90% da entrega de chope do festival.
Planeje a logística rigorosamente
O planejamento da logística do evento deve incluir desde a seleção dos fornecedores até a estrutura de atendimento ao público. Guenther afirma que é preciso pensar em todos os passos para que detalhes não virem transtorno. Além disso, é importante firmar parcerias estratégicas com marcas de cerveja e setores complementares, como gastronomia, turismo e cultura, fortalecendo o evento. Para Moschetta, a organização exige detalhes como tempos e movimentos do fluxo com fornecedores, como entregas e estoques, além da experiência da venda e pós-venda, ressaltando a complexidade da organização em si.
Jonathan Benkendorff conta que em termos de operações e logísticas, a Oktoberfest de Blumenau é muito complexa. A Netbar opera 14 bares de chope e atende mais de 22 estabelecimentos, incluindo outras cervejarias, restaurantes, camarotes e eventos promocionais.
Para abastecer muitos dos bares, a empresa opera com tanques estacionários com capacidade de três a oito mil litros (um total de 52 mil litros de capacidade), o que facilita a logística por evitar trocas de barris de chope durante o evento. Esses tanques são abastecidos por caminhões-tanque que vem diretamente da fábrica da Ambev de Lages (RS) semanalmente, durante a noite, no contraturno do evento.
Barris também são utilizados em bares sem tanques fixos e para cervejas artesanais. Segundo Jonathan, o maior desafio é prever a presença e o consumo do público. “Diferente de uma lata de cerveja ou de uma garrafa, a gente não a gente precisa ter uma previsibilidade. Eu não consigo sair daqui ir no mercado e comprar mais cerveja. Então a gente tem essa expectativa de público, expectativa de consumo, imaginar o que vai acontecer dentro do evento”, explica.
Fique de olho na hospitalidade e segurança
Organizar um evento é uma grande responsabilidade, afirma Moschetta, porque “você está convidando o consumidor para dentro da sua casa”, diz. “A maneira como se organiza a casa, principalmente na questão da hospitalidade, constrói a percepção da marca, que pode ser boa ou ruim”, destaca. Por isso, evitar imprevistos é uma saída para a experiência ser positiva.
Guilherme Guenther reforça que o evento cervejeiro precisa garantir que o público se sinta “bem acolhido e em um ambiente confiável”. Para ele, investir em hospitalidade e atendimento de qualidade faz toda a diferença para as pessoas quererem voltar.
Use eventos de cerveja para construir marca e comunidade
O evento é uma ferramenta poderosa de relacionamento e desenvolvimento de mercado. Para Rafa Moschetta, eles auxiliam a marca a construir conceito e branding através de pilares e experiências. “Um evento é a maneira mais fácil e natural de se conectar com o consumidor, construir comunidade e fazer com que as pessoas se identifiquem genuinamente com a marca”, diz.
Guilherme Guenther afirma que investir na experiência pode ser um motor de desenvolvimento econômico e turístico. E fortalecer o setor cervejeiro como um todo, além de preservar a autenticidade e a essência da cervejaria.
O risco de fugir do controle
As principais lições da vida nem sempre vem de acertos, mas também de erros. Rafa Moschetta, que foi gerente de marketing da cervejaria Colorado, relembra a experiência de organizar um evento cervejeiro que atraiu um público maior do que o esperado.
“Fizemos um Saint Patrick’s Day que saiu do nosso controle. Em 2012 ou 2013, o Saint Patrick’s ainda não tinha o apelo atual e recebemos um público muito maior que o previsto. Era um evento gratuito e a gente não estava preparado para atender aquele público, deu muita fila e a experiência foi ruim”, conta.
Nesse caso, explica Rafa, ele exercia simultaneamente o papel de organizador do evento e gerente de marketing de uma cervejaria que era patrocina master do evento. “Como head de marketing entendi que, de alguma maneira, o evento poderia refletir negativamente na cervejaria. Então, a partir daquele momento, tive uma preocupação muito maior sempre que ofereço uma cota de patrocínio. É preciso que a experiência seja a melhor porque do mesmo jeito que a marca empresta sua credibilidade para o evento, o evento reforça e valoriza atributos ou prejudica a marca se a experiência for ruim”, explica.
“Quando você organiza o seu próprio evento, vai ser surpreendido com a quantidade, a complexidade. São detalhes de tempos e movimentos, de fornecedores, de controle de fluxo, a experiência da venda, da troca dos ingressos, ou um saque pós-venda, o atendimento pós-venda do ingresso. Então, se o pré e o pós já exigem esforços, a organização do evento em si pode ser ainda mais trabalhosa”, afirma.


