A Drinktec 2025, edição deste ano da principal feira mundial para a indústria de bebidas e alimentos líquidos, reuniu cerca de 60 mil pessoas de 160 países entre 15 e 19 de setembro em Munique, na Alemanha. Mais de 1,1 mil expositores de 68 nações trouxeram as principais novidades em equipamentos, matérias-primas, tecnologias e inovações dos fornecedores da indústria de bebidas e da cerveja num espaço de 73 mil metros quadrados do Trade Fair Center Messe München.
E muitas tendências da cerveja aparecem por lá, acompanhando movimentos mundiais ou sendo precursoras do que pode acontecer nos próximos anos. Nesta edição, o Guia da Cerveja contou com a colaboração do presidente-executivo do Sindicerv, Márcio Maciel, que visitou a Drinktec 2025 e apontou quais são essas tendências.
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A equipe do Guia também entrevistou especialistas aqui no Brasil, que mostraram em suas análises que algumas dessas tendências da cerveja já são realidades aqui no país. E muitas delas já são aplicadas na cerveja artesanal. E isso apesar da situação singular do mercado brasileiro. “Hoje, mais do que expansão, o movimento é de reorganização: menos aberturas, mais ajustes internos e racionalização de portfólio”, enfatiza a sommelière e consultora Bia Amorim.
“O que acontece atualmente é que ‘as abóboras estão se encaixando no caminhão’. Então, você vê cervejarias encerrando, cervejarias enxugando operações e investindo principalmente em produtos mais padronizados com menos lançamentos”, lembra Carlo Bressiani é o Diretor Geral da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM).
Cerveja sem álcool

Sem dúvida, um dos grandes focos da Drinktec 2025 foi a saudabilidade e, no setor cervejeiro, a cerveja zero e sem álcool. Uma das novidades desta edição foi o Liquidrome, uma área interativa de networking e debates que teve até um Health Bar. O ponto oferecia degustações de inovações focadas em saúde.
“Uma grande tendência é a cerveja zero, como deixar ela mais eficiente, mais rápida e mais barata de ser produzida”, conta Márcio. E dentro dessa área, foram apresentados equipamentos capazes de produzi-las em menos tempo e até soluções inventivas e simples, como extratos de malte prontos que podem ser misturados com água (e não tem álcool).
A cerveja sem álcool já é uma realidade bastante palpável no Brasil, tendo crescido 537% em 2024, segundo o Anuário da Cerveja do Mapa. “Mais que uma tendência global, no Brasil esse segmento já reflete um comportamento de consumo ligado a bem-estar, moderação e conveniência”, analisa Bia Amorim. “As artesanais têm entendido esse mercado com cerveja sem álcool diferentes. Não adianta trazer uma Lager sem álcool, né?”, conta Carlo Bressiani.
Saborização

Outro movimento que chamou atenção do presidente-executivo do Sindicerv foi que muitas empresas estão oferecendo formas de saborizar as bebidas. “E aí vai desde concentrados para dar sabor até lúpulos e, principalmente, maltes modificados para flavorizarem a cerveja. Então, você vai ter cerveja com gosto de baunilha, manga, coco e muito mais. Vi muito forte o pessoal falando que isso é o próximo caminho para a cerveja”, conta.
No mercado nacional, ainda não há tantos flavorizantes assim, até porque o Brasil é muito rico em frutas e outros ingredientes que trazem sabor e são largamente utilizados. Aqui Bia Amorim vê um bom avanço do lúpulo brasileiro.”O desenvolvimento da cadeia produtiva nacional começa a gerar impacto real na formulação de futuro e no discurso de marcas, com mais cervejarias explorando terroir e frescor como diferenciais. A presença de lúpulo local tende a crescer, não só como narrativa de brasilidade, mas como estratégia para mitigar custos e volatilidade cambial”, diz.
Clean Label

Ainda dentro do grande grupo da saudabilidade, a tendência do Clean Label também esteve presente na Drinktec 2025. Uma bebida leva esse título quando não tem aditivos químicos, mesmo os permitidos pela legislação. São antioxidantes, estabilizantes de espuma, acidulantes e outros que facilitam processos e estendem a vida útil das bebidas, mas que, em geral, não são bem-vistos pelo consumidor.
Até pode parecer algo contraditório, diz Márcio, ter a tendência de flavorizantes junto com Clean Label, mas não é. “O pessoal quer ingredientes mais naturais. E esses saborizantes, quando possível, sempre feitos de coisas naturais também”, conta.
O conceito de Clean Label já é aplicado no Brasil há algum tempo em muitos produtos das grandes cervejarias. E é algo comum no universo da cerveja artesanal. No entanto, pouca gente utiliza o conceito como diferencial competitivo no mercado.
Isso vai de encontro com a análise de Carlo Bressiani sobre o maior cuidado com o produto, já que no cenário brasileiro há uma clara diminuição do portfólio e lançamentos das cervejarias, que tem focado mais nos produtos com maior venda e receita. “Nesses produtos, as cervejarias trabalhem muito bem a questão do da melhoria da qualidade, do controle de custo e do aumento de produtividade. Ficaram menos produtos e esses produtos estão sendo melhor estudados pelas cervejarias em vários sentidos”, diz.
Packing mais sustentável e digitalização

Esse aumento de eficiência, fazer mais com menos, também está presente no setor de embalagem para cerveja, conta Márcio Maciel, até por conta de ser uma prática mais sustentável — um dos grandes temas da Drinktec este ano. “A gente viu muita coisa sobre packaging também. Embalagens sustentáveis, com eficiência energética. É produzir de maneira a não gastar tantos recursos e maior e com maior eficiência”, aponta Márcio Maciel.
O conceito de sustentabilidade no Brasil já é bastante explorado pelas grandes cervejarias, mas um tanto incipiente para a maior parte das cervejarias artesanais. Mas trata-se de uma tendência que deve crescer nos próximos anos.
Outra tendência que deve crescer nos próximos anos pelo que a Drinktec 2025 mostrou é a digitalização dos processos de produção, muitas vezes com uso de recursos de Inteligência Artificial. Em depoimento no site oficial da Drinktec, Richard Clemens, diretor administrativo da VDMA Food Processing and Packaging Machinery Association, reforçou o sucesso do digital. “Houve um interesse particularmente forte em sistemas circulares inteligentes, bem como em tecnologias digitais e baseadas em IA”.
Para Reimar Gutte, vice-presidente senior da BU EMEA Liquid & Powder Technologies, “a Drinktec 2025 mostrou-se novamente como a plataforma onde a indústria discute suas principais prioridades: ganhos de eficiência, digitalização e soluções sustentáveis”.

Cenário nacional
Após anos de crescimento do setor cervejeiro em velocidade acelerada, o ritmo diminuiu no pós-pandemia. E isso está exigiu adaptação das empresas do setor e gerou fechamentos. Hoje a situação está se acomodando, segundo os especialistas consultados. Nesse atual cenário do Brasil, as cervejarias estão buscando ser mais eficazes, eficientes e efetivas na produção.
Com isso, é fácil de perceber que a quantidade de lançamentos de novos produtos das cervejarias artesanais caiu. E aumentou o foco nos produtos de maior giro. Inclusive nas Lagers. “Com o mercado mais racional, Lagers continuam sendo o ‘core’ de receita. A simplicidade sensorial e a alta aceitação popular fazem desses estilos um porto seguro, inclusive para rótulos especiais que buscam maior penetração. No mercado artesanal também é uma tendência, com alguma sofisticação na escolha dos lúpulos e no olhar dedicado à fermentação”, analisa Bia Amorim.
Carlo Bressiani sintetiza que o momento vivido pelas cervejarias é de menos variedade, mais controle de custo e de qualidade. “O que é positivo. Era um amadurecimento que o mercado cervejeiro artesanal precisava de qualquer forma. Mas, por outro lado, no lado da demanda, a gente tem uma certa depressão de demanda e agora tem todo um trabalho novamente de convencimento das pessoas a voltar a consumir artesanal”, analisa.


