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Produção de cerveja sem álcool dispara no Brasil e cresce 537% em 2024

O mercado brasileiro de cerveja sem álcool vive um momento histórico. De acordo com o Anuário da Cerveja 2025, publicação do Ministério da Agricultura e Pecuária que traz dados anuais do setor, divulgado na última terça-feira (5), o volume de produção aumentou 536,9% em 2024 — um grande salto que confirma a consolidação da busca por um consumo responsável da bebida. 

Segundo dados do levantamento, o volume de produção declarado para a cerveja sem álcool ou cerveja desalcoolizada saltou de 118,9 milhões de litros em 2023 (apenas 0,8% do volume de cerveja produzida no ano) para 757,4 milhões de litros em 2024 (4,9% do total).

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Embora o volume declarado de produção de cerveja no geral tenha sofrido uma ligeira queda de 0,11%, o nicho de cerveja sem álcool e de baixo teor alcoólico demonstrou grande crescimento, o que sugere uma mudança no perfil de consumo, de acordo com o relatório. Para Marco Maciel, presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), a expansão mostra como o setor está atento a essas mudanças. 

“O crescimento da cerveja sem álcool mostra que o setor não está só crescendo, mas conectado com novas tendências e com o que o consumidor quer: novos estilos, novos tipos de situação para brindar. Isso já não é mais tendência, é realidade. E a cerveja zero veio para ficar”, afirma.

Segundo ele, a qualidade do produto e a versatilidade no consumo têm atraído novos públicos. “Hoje, a pessoa que antes não podia beber porque estava dirigindo ou tomando remédios pode sair com os amigos e brindar. Como a qualidade está perfeita, a cerveja zero está ganhando mercado de maneira cavalar e vai continuar crescendo”, diz.

Categoria no Brasil

Grandes marcas, como Budweiser Zero, puxaram o crescimento da categoria sem álcool no Brasil em 2024 (Crédito: Ambev/Divulgação)
Grandes marcas, como Budweiser Zero, puxaram o crescimento da categoria sem álcool no Brasil em 2024 (Crédito: Ambev/Divulgação)

O enorme crescimento no volume de produção da cerveja sem álcool foi puxado principalmente pelas grandes marcas. Em 2024, portfólio zero da Ambev cresceu 20%, impulsionado principalmente pelas vendas de Bud Zero e Corona Cero, segundo dados da marca enviados para a reportagem do Guia da Cerveja. A alta se mantém em 2025, com 40% no primeiro trimestre e 15% no segundo.

O Grupo HEINEKEN também confirmou que as cervejas zero da marca têm registrado crescimento proporcionalmente superior ao das cervejas alcoólicas, e que hoje a cerveja sem álcool é uma das grandes apostas da empresa, que ampliou seu portifólio com o lançamento da Sol Zero. “Hoje, a categoria representa cerca de 1,5% do mercado total de cervejas no país, e nossa ambição global é chegar a pelo menos 10% de participação. Para isso, temos ampliado a presença das nossas marcas em diversos canais, de supermercados e lojas de conveniência a bares, restaurantes e grandes eventos esportivos e musicais, conectando o produto a momentos de celebração e lazer”, disse Elbert Beekman, Gerente de Marketing Heineken 0.0.

Apesar disso, o movimento na direção desse tipo de produto não se limita à grande indústria. As artesanais também estão atentas. É o caso da cervejaria Sim! Cerveja, de Campinas (SP), que produz exclusivamente rótulos sem álcool. Eles iniciaram as vendas em 2024, após três anos de muita pesquisa e testes. Atualmente, oferecem rótulos como IPA, Summer Ale, Ginger Ale e outras em seu portfólio fixo, além de algumas especiais, como uma Stout com café, Gose com melancia e Sour com maracujá em séries sazonais. A marca vem registrando um crescimento de 20% no faturamento por trimestre, além de ganhar muito reconhecimento no mercado. A cerveja Melancia Sour n’ Salt, por exemplo,  conquistou medalha de ouro na World Beer Cup 2025, considerada a maior competição cervejeira do mundo.

Para David Figueira, cofundador da marca, o investimento em cervejas sem álcool se encaixa perfeitamente na crescente demanda por um consumo mais responsável da bebida. “Pesquisas no Brasil, Europa e Estados Unidos mostram uma redução do consumo de álcool. Há três perfis que estão puxando essa demanda: quem não consome álcool, o público wellness, que busca mais saúde, e quem quer apenas reduzir o consumo. Essa mudança de hábito é visível e vai seguir impulsionando o crescimento do segmento”, avalia.

Aumento do consumo de cerveja sem álcool no Brasil pode indicar mudança no comportamento do consumidor (Crédito: Heineken/Divulgação)
Aumento do consumo de cerveja sem álcool no Brasil pode indicar mudança no comportamento do consumidor (Crédito: Heineken/Divulgação)

Além da mudança de comportamento, a alta qualidade das cervejas sem álcool, vem conquistando o paladar dos consumidores no geral. Um bom exemplo é americana Athletic Brewing, que em 2023 conquistou 19% do market share nos EUA, tornando-se a líder do segmento sem álcool no país. “O mais impressionante é que 60% dos clientes da Athletic consomem álcool. Eles provaram que é possível fazer um produto tão bom que o público bebe tanto a versão com quanto sem álcool”, diz David.

Mesmo entre as grandes cervejarias, é notório que a qualidade das versões não alcoólicas cresceu muito nos últimos anos, conquistando maior aceitação do público. “A zero que chega hoje nos copos dos consumidores se aproxima muito mais da versão regular do que há 10 anos em termos de sabor, e isso é fruto de investimento em inovação e tecnologia. Isso cria novas ocasiões de consumo, atrai novos perfis de consumidores, constrói momentos que antes esse consumidor nem imaginava que poderia tomar uma cerveja e agora pode”, disse a Ambev. O grupo Heineken também destacou como a evolução das cervejas sem álcool ao longo dos anos abriu portas para novos públicos. “A categoria existe há décadas, mas enfrentava barreiras de aceitação social nos momentos tradicionais de consumo de cerveja. Nosso diferencial é entregar um produto premium, desenvolvido com tecnologia que preserva a qualidade e o sabor mesmo após a extração do álcool, eliminando a percepção de que cervejas zero são inferiores”, diz Elbert Beekman.

Apesar do otimismo dos produtores, Figueira faz uma ponderação importante sobre a leitura dos números do Anuário, pois acredita que parte deste crescimento representa também a busca de uma alternativa do mercado cervejeiro para conter a queda de faturamento com a venda da cerveja tradicional. “As cervejarias ficam antenadas em grandes movimentos, principalmente do mercado americano, para ver o que pode ser feito para reverter um pouco a queda de faturamento. Isso contribuiu para essa onda da cerveja sem álcool”. 

Cerveja sem álcool ou zero? Entenda a diferença

Sim! Cerveja Melancia Sour n’ Salt: cerveja brasileira premiada na categoria sem álcool no World Beer Cup, considerada a maior competição mundial (Crédito: Sim! Cerveja / Divulgação)
Sim! Cerveja Melancia Sour n’ Salt: cerveja brasileira premiada na categoria sem álcool no World Beer Cup, considerada a maior competição mundial (Crédito: Sim! Cerveja / Divulgação)

A categoria de cervejas sem álcool no Brasil envolve dois tipos de produtos, devidamente regulamentados na legislação do setor: as sem álcool e as zero. A diferença conceitual entre elas está no volume residual de álcool no produto final. Nas sem álcool, este percentual é igual ou abaixo de 0,5%; enquanto nas zero, este valor é igual ou abaixo de 0,05%.

O processo de fabricação das duas cervejas também são diferentes. Para se obter uma cerveja zero, a bebida passa por um equipamento chamado desalcoolizador, que faz um processo de destilação a vácuo para retirada do álcool. Este processo é o mais usado nas grandes cervejarias, que produzem muito volume e que fabricam uma cerveja sem álcool a partir de um produto tradicional finalizado. E também pelo alto custo da máquina.

Já a fabricação das cervejas sem álcool seguem as mesmas etapas iniciais da produção tradicional, porém, sofrem um processo de fermentação controlada ou interrompida, o que permite que as cervejas tenham essa quantidade praticamente nula de álcool. David Figueira explica que esse processo amplia muito as possibilidades de criação de diferentes produtos. “Desde a brassagem até a finalização, você consegue brincar com vários parâmetros, o que aumenta a gama de aromas, sabores e estilos. Então, este processo de fermentação é uma escolha para trazer mais qualidade e variedade ao produto final. Mas para as grandes cervejarias que fabricam a zero a partir de um produto pronto, é muito mais fácil e mais rápido desalcoolizar, porém, vai alterar o sabor”.

Debora Pivotto
Debora Pivotto
Formada na Cásper Líbero, foi repórter do Guia do Estadão, produtora na TV Globo SP, além de ter colaborado com veículos como Veja São Paulo, Superinteressante, Capricho, entre outras revistas. Apaixonada por autoconhecimento e comunicação, também atua como psicoterapeuta.
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