Fundadora da Cervejaria Dádiva, Luiza Tolosa entrou no universo da cerveja artesanal em 2014. Não por uma paixão antiga pelo produto, mas como empresária, pela visão de que havia ali um mercado em formação com grande potencial de crescimento. Em pouco mais de uma década, viu de perto a transformação do setor: de cerca de 200 para mais de 1,8 mil cervejarias registradas no país atualmente, acompanhando o movimento de curiosidade dos consumidores e o amadurecimento da produção e mão-de-obra.
Mas percurso de Luiza vai além do papel de fundadora da Dádiva, uma marca muito respeitada e premiada. Ela também assumiu o papel de dar voz e visibilidade às mulheres do setor. Em 2023, liderou a criação do movimento “Criado Por Elas, Liderado Por Elas”, que reúne cervejarias fundadas e conduzidas por mulheres em diferentes regiões do Brasil. A iniciativa rapidamente se transformou em um coletivo forte, capaz de promover encontros, ocupar espaços em grandes eventos e abrir discussões fundamentais sobre igualdade, reconhecimento e respeito no ambiente cervejeiro.
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Em entrevista exclusiva ao Guia, ela conta mais detalhes sobre essa trajetória. Confira.
Você comentou que iniciou no ramo da cerveja não pela paixão, mas pelo potencial do mercado, certo? Como era o mercado quando você entrou e como o avalia atualmente?
Quando entrei em 2014, o mercado de artesanais ainda era bastante incipiente. Mas a gente já começava a perceber que havia um interesse por cervejas diferentes. Era um momento de curiosidade e de um mercado que estava se formando, com consumidores e entusiastas.
Acho que 2014, 2015 e 2016 foram anos bem importantes. Quando a gente olha para a formação de cervejeiros caseiros, esse é um momento que ajudou muito o mercado a crescer. E a gente foi crescendo junto. Acho que foi um bom timing nesse sentido, ainda tinha poucas cervejarias, estava começando.
Em termos de números, acho que tinha ali 200 cervejarias registradas no Mapa [Ministério da Agricultura e Pecuária]. Hoje já são mais de 1,8 mil registradas. Então, realmente o mercado cresceu bastante, muitos ciganos também contribuíram para o crescimento, não só fábricas. Hoje a cerveja artesanal é algo que acontece, não é só um desejo, uma ideia como era antes.
Quais os maiores desafios que você enfrentou para estruturar a Cervejaria Dádiva?
Acho que começar uma empresa do zero traz vários desafios. A gente montou a empresa e aí foi entendendo que tinha um mercado de ciganos, daí começamos a investir olhando esse potencial de clientes. O acesso a crédito é algo difícil quando você não tem histórico. Acho que na época a gente tinha mais dificuldade de encontrar mão-de-obra qualificada para trabalhar na cervejaria. Era ainda mais difícil no começo encontrar pessoas que já sabiam produzir cerveja. Hoje em dia existem muitos cursos, mas na época eram pouquíssimos. Acho que hoje em dia a gente já tem um mercado mais formado nesse sentido.
Por que escolheu a libélula como símbolo da Cervejaria Dádiva?

A gente queria uma coisa que fosse positiva. Então o nome Dádiva já vem um pouco por esse objetivo. E queríamos algo que falasse da cerveja de uma forma leve, alegre, fácil, sem ter ali alguns símbolos mais esperados, mais masculinizados. E Dádiva é algo que a gente dá sem querer nada em troca, assim como a libélula é um símbolo de alegria e de prosperidade em várias lendas e histórias do Oriente principalmente. Então, acabou que uniu Dádiva e a libélula.
Você liderou a criação de um movimento de mulheres no mercado cervejeiro no ano passado, o “Criado Por elas, Liderado por Elas”. Como foi a experiência e como está o projeto atualmente?
Na Dádiva, a gente sempre teve uma preocupação de ter uma equipe que também tivesse mulheres em todas as áreas, salários iguais, etc.. E quando a gente começou a entender que ‘ok, dentro de casa a gente já fez a nossa lição’, começamos a contar essa ideia para que outras cervejarias também pudessem pensar nisso. E foi aí que veio esse movimento.
A gente começou a falar e muitas mulheres do mercado acabaram se reconhecendo, entendendo que a história que eu passo aqui em São Paulo é muito parecida com a história que a minha amiga de Florianópolis, a outra do Rio de Janeiro e a outra em Goiás. E isso foi criando uma união das mulheres que trabalham com cerveja como um todo, um coletivo de mulheres cervejeiras.
E em 2023, a gente acabou fazendo um post no perfil da Dádiva sobre o dia do empreendedorismo feminino, que é dia 19 de novembro. Fizemos um carrossel marcando cervejarias lideradas por mulheres. E deu uma super viralizada, muita gente comentou, marcou e indicou cervejarias que a gente nem conhecia. Foi quando a gente falou, ‘putz, tá aí uma coisa que a gente precisa fazer pra se ajudar’. E foi assim nasceu o ‘Criado por Elas, Liderado por Elas’, que é um projeto que apoia, divulga e dá visibilidade aos negócios fundados por mulheres no mercado cervejeiro.
Que tipo de ações o grupo já realizou?
Fizemos um evento no ano passado, uma festa que reuniu 26 cervejarias do Brasil todo, lideradas por mulheres, para a gente se conhecer e trocar experiências. Foi uma festa super legal, com 30 torneiras de chope. E foi um evento onde muitas mulheres saíram com uma sensação de que ‘nossa, que evento tranquilo, seguro’. Claro que tinha homens também na festa, mas era um ambiente acolhedor. Às vezes, em algumas festas de cerveja, o ambiente é tipo mega masculinizado. E ali foi diferente. Estamos tentando viabilizar um novo encontro. E a gente vem fazendo também inserções em outros eventos para divulgar essas cervejarias. Levamos cervejarias de mulheres para o IPA Day, em São Paulo, em agosto. E recentemente voltei do Rio, onde estávamos no Mundial de La Bière com um estande do movimento ‘Criado por Elas, Liderado por Elas’ com oito cervejarias de mulheres. E foi muito legal.
Você falou que as mulheres do mercado vivem histórias muito parecidas. Que tipo de situação é comum entre vocês?

Uma história que é muito comum é ter que falar que já participei de 40 cursos, tenho a cervejaria Dádiva que tem tantos anos, ganhei 40 prêmios para depois dizer: quero te vender uma cerveja. Se você não fala seu currículo todo, você não está apta a falar sobre aquilo. E a gente sabe que muitos homens não precisam se apresentar dessa forma antes de começar a falar de cerveja, né? Isso é muito comum.
Tem um assédio que também é muito frequente. O homem acaba confundindo o fato de você estar ali apresentando e vendendo um produto para ele, com um sorriso no rosto, ele acha que você está dando alguma liberdade a mais do que a relação profissional. Infelizmente, isso é muito comum. Eu estava no Mondial de La Bière esse final de semana falando sobre o projeto. E chegou um cara, perguntou um monte de coisa, expliquei para ele, que parecia super interessado, gostou do que eu tava contando. E no final ele virou e falou ‘juntou as duas melhores coisas do mundo, mulher e cerveja’. Aí você fala, ‘gente, será que ele realmente ouviu tudo que eu te falei até agora, ou não’? É duro. Nessas situações você vê como realmente são importantes esses trabalhos que a gente faz. Porque, sim, o óbvio ainda precisa ser dito.
E você sente que houve uma evolução na conquista por mais espaço e respeito das mulheres nestes últimos anos?
Acho que sim. Se antes a gente tinha que dar o nosso LinkedIn completo antes de falar de cerveja, hoje precisa dar um pouco menos, sabe? Hoje tem muitas mulheres que trabalham com cerveja, existe uma abertura maior. No entanto, às vezes, o preconceito está enraizado e é difícil de ser assumido. Mas, sim, eu acho que tem uma evolução. Existe um espaço cada vez maior, ainda que ele precise continuar sendo conquistado.


