
Saudações! Em minha última coluna desejei estar de melhor humor — e cumprir meus prazos. Falhei miseravelmente em ambas as questões. O ano de 2025 cobrou um preço alto demais do mercado da cerveja, seja em terras Brasilis ou fora daqui.
Tivemos o encerramento de atividades de cervejarias icônicas como a Brouwerij De Molen (2004–2025) na Holanda e Rogue Ales & Spirits (1988–2025) nos EUA. Encerramento de atividades da loja de homebrew mais antiga em operação nos EUA — F.H. Steinbart Co (desde 1918 até 2025 — atravessou a lei seca!) entre outras baixas consideráveis de um mercado que se molda, se ajusta e, dada a inevitável questão climática — “Cerveja é Agricultura” — tem um futuro muito incerto pela frente.
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Cervejarias são negócios e estão sujeitas a uma miríade de variáveis, desde fatores externos quanto internos. Fazem parte da história, fazem parte da nossa história, deixam saudades. Mas o que realmente importa mesmo são as pessoas. E, como comentei no início da coluna, 2025 cobrou um preço alto demais.
As transformações no mercado da cerveja e os legados que ficam
Neste ano que passou perdemos Kátia Jorge. Graduada em Engenharia Química, com mestrado em Bioquímica e doutorado em Ciência dos Alimentos, além de ser mestre cervejeira e sommelier de cervejas. Uma das pioneiras no Brasil. Diretora da FlavorActiv. Um doce de pessoa, acessível, divertida, irreverente e, ao mesmo tempo, uma fonte inesgotável de sabedoria. Tive o prazer de participar de alguns cursos que ela ministrou, assim como bebericar de forma descontraída cervejas em sua companhia após um longo dia de julgamento.
Nesse ano que passou perdemos Martyn Cornell. Inglês, escritor há mais de 40 anos, e um pesquisador de cervejas. Publicou vários livros sobre o assunto, dono de um blog maravilhoso (que parece ter sido tirado do ar). Desconstruiu mitos já bem consolidados no meio cervejeiro. Eu assinava a newsletter do blog e vinham uns textos imensos e maravilhosamente escritos, que eram puro deleite de ler e se surpreender. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente há alguns anos.
Definitivamente não sou religioso. E, por mais que seja clichê, acho interessante e apropriada a citação (que não sei a quem creditar) de que realmente morremos quando morre a última pessoa que sabia nosso nome. Afinal, memória e legado são a forma mais pura de resistência ao esquecimento. Também no mercado da cerveja. Acredito que tocamos a vida das pessoas ao nosso redor de forma permanente e, de certo modo, continuamos a viver através disso.
Um brinde à Katia! Um Brinde à Martyn! Saúde!
Jayro Neto é somelelê, CFO, auxiliar administrativo e sócio da Cozalinda. É sommelier de cervejas desde 2015, campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. Também atua como diretor financeiro da Abracerva desde 2022, juiz BJCP Certified e é co-autor do livro Guia da Sommelieria Brasileira.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.


