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Mosteiros mantêm viva a tradição secular das cervejas de abadia no Brasil

O período da Quaresma geralmente remete à ideia de jejum e reflexão. Mas na história cervejeira, essa época do ano também tem uma ligação profunda com a produção de cervejas nos mosteiros. Foi para atravessar longos períodos de restrição alimentar que os monges criaram versões mais encorpadas e nutritivas da bebida para sustentar o corpo, muitas vezes conhecidas como “pão líquido”. Hoje, essa tradição milenar das cervejas de abadia ultrapassa as fronteiras europeias e ganha cada vez mais força no Brasil, aliando fé, trabalho e ingredientes locais.

Mas, afinal, o que são cervejas de abadia? 

Diferente do rigoroso selo “Trapista” — uma denominação de origem protegida, exclusiva de monastérios da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, na qual a produção deve ser feita obrigatoriamente pelos próprios monges, ou sob supervisão deles, dentro dos muros dos mosteiros —, o termo “cerveja de abadia” é mais abrangente. Ele engloba tanto as bebidas produzidas por monges de outras ordens religiosas (como beneditinos e cistercienses comuns) quanto rótulos feitos por cervejarias comerciais que mantêm acordos oficiais de licenciamento com mosteiros, revertendo parte dos lucros para a manutenção da instituição e suas obras de caridade. 

Não é uma obrigação, mas no copo essas cervejas costumam seguir a clássica escola belga. Sendo assim, são em geral ervejas de alta fermentação (Ales), complexas, encorpadas, muitas vezes frutadas ou condimentadas, que carregam séculos de tradição a cada gole.

A alquimia mineira do Mosteiro de Claraval

Essa tradição pode ser degustada no interior de Minas, no Mosteiro de Claraval, da Ordem Cisterciense. Lá, os visitantes encontram quatro tipos de cerveja que podem ser comprados dentro da loja do mosteiro, sob a marca monástica “Vale dos Monges”.

E a receita traz uma peculiaridade, ou um toque de brasilidade: enquanto as cervejas tradicionais belgas utilizam o candy sugar (um tipo de açúcar invertido utilizado para elevar o teor alcoólico das bebidas), a cerveja do Mosteiro de Claraval ganhou um sotaque brasileiro ao substituir o ingrediente europeu por rapadura fornecida diretamente por um produtor da própria região.

A ideia da substituição do ingrediente partiu de uma colaboração entre os religiosos e a cervejaria paulista SacraMalte, responsável por terceirizar a produção. O mosteiro já contava com uma tradição de mais de 50 anos na fabricação de licores, mas faltava estrutura física para abrigar uma cervejaria própria. 

A parceria da SacraMalte com o Mosteiro de Claraval

O cervejeiro Ivan Tozzi, responsável pelo desenvolvimento das cervejas, conta que fez várias reuniões com o mosteiro, levando exemplares de cerveja para eles experimentarem, até chegarem aos ingredientes dos produtos finais.

O objetivo era criar receitas que seguissem a tradição das cervejas de abadia, mas que pudessem criar uma identidade própria. Durante as sessões de degustação guiadas pela cervejaria, os monges aprovaram, inicialmente, o estilo Belgian Blond Ale. Foi então que surgiu a ideia de dar um toque de brasilidade à bebida com a rapadura. 

O ingrediente passou a ser comprado de um produtor da própria cidade de Claraval, trazendo regionalidade à receita. Para o Padre Mateus Luis Silva Resende, a escolha fez todo o sentido, por ligar a tradição monástica à cultura local.

Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Associação do Comércio e Indústria de Franca)
Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Associação do Comércio e Indústria de Franca)

Venda exclusiva e turismo religioso nos mosteiros

Atualmente, as cervejas da linha “Vale dos Monges” contam com uma produção artesanal de 600 litros por mês. A comercialização ocorre exclusivamente em garrafas e dentro das dependências do Mosteiro de Claraval. A estratégia não é por acaso; o objetivo principal é atrair o público para vivenciar a rotina do local. “Nossa preocupação principal era atrair as pessoas para que pudessem também conhecer o Mosteiro”, destaca o Padre Mateus. O cervejeiro Ivan Tozzi reforça o propósito do projeto. “A ideia é justamente fazer com que as pessoas vão lá para visitar o Mosteiro, conhecer, rezar e tragam de volta o souvenir, que seria a cerveja”.

O sucesso da primeira receita abriu caminho para o desenvolvimento de novos estilos, completando hoje uma carta de quatro cervejas de tradição monástica, descritas por Tozzi:

Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Reprodução / @mosteirodeclarava)
Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Reprodução / @mosteirodeclarava)
  • Belgian Blond Ale (600 ml / 6,2% Vol / 20 IBU): Apresenta uma coloração dourada e clara. A espuma é sutilmente cremosa e de boa retenção. O aroma frutado remete a pêssego, frutas amarelas e damasco seco. No paladar, o sabor suave traz um leve dulçor conferido pela rapadura regional, com final levemente alcoólico e mais seco.
  • Belgian Dubbel (600 ml / 7,1% Vol / 26 IBU): De cor cobre, traz no paladar notas maltadas complexas, que lembram caramelo e toffee, além de ricos sabores de ésteres de frutas escuras. Logo em sua estreia na 2ª Copa Paulista de Cerveja, a excelência da receita conquistou a medalha de bronze.
  • Patersbier (600 ml / 5% Vol / 26 IBU): Historicamente consumida nos monastérios durante o jejum. É uma ale clara, de médio amargor, muito atenuada e com um caráter de levedura belga frutada e condimentada. Suave e fácil de beber, é considerada a mais leve entre as cervejas de tradição de cervejas de abadia.
  • Quadrupel (600 ml / 8% Vol / 29 IBU): O estilo, conhecido também como Dark Strong Ale, revela um tom vermelho-rubi quando o líquido é visto contra a luz. De sabor complexo e forte, surgiu como uma edição comemorativa limitada para celebrar os 75 anos do monastério. O sucesso de vendas foi tão grande que a bebida entrou para a linha fixa de produção.

Padre Marcelo explica que a cerveja, nestes casos, deve ser apreciada como uma degustação, sem o desequilíbrio que o consumo excessivo do álcool pode trazer. “A cerveja é algo que você pode degustar, ela não pode te dominar”, explica, citando a tradição do consumo de vinho, na Itália, como exemplo de uma bebida alcoólica já incorporada na tradição religiosa católica sem que haja excessos.

Outras tradições de mosteiros e clausura pelo Brasil

A vocação cervejeira dos religiosos não se restringe a Minas Gerais. Há vários outros mosteiros pelo Brasil que trabalham com a mesma ideia. Na cidade de São Paulo, a padaria do tradicional Mosteiro de São Bento também oferece receitas de cervejas desenvolvidas com a participação ativa dos monges na clausura.

No Rio de Janeiro, a tradição monástica ganhou vida recentemente com a “Santo Gole”, uma cerveja artesanal lançada pelos monges beneditinos do Mosteiro de São Bento de Mussurepe, na zona rural de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. E que já nasce com a bênção dentro das paredes do histórico mosteiro.

Já na região Sul do país, o destaque fica por conta das religiosas do Mosteiro Nossa Senhora da Boa Vista, em Santa Catarina. Elas fizeram história na indústria nacional ao se tornarem as primeiras monjas trapistas do Brasil a criar e produzir suas próprias cervejas, seguindo à risca as rígidas tradições de sua Ordem.

Em meio a orações, cânticos e muito trabalho manual, essas abadias mostram que a milenar cultura do “pão líquido” encontrou um solo fértil no Brasil. Mais do que oferecer uma experiência sensorial única, essas cervejas proporcionam aos visitantes dos mosteiros e fiéis um verdadeiro brinde à história e à espiritualidade.

Élida Oliveira
Élida Oliveira
Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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