A tradicional cerveja Cask Ale acaba de ganhar um importante aliado: o Movimento Slow Food. A organização internacional, conhecida por defender alimentos e bebidas artesanais, reconheceu em setembro oficialmente a importância cultural e gastronômica da cerveja britânica servida direto do barril — um símbolo dos pubs e do Reino Unido.
O reconhecimento veio por meio da Arca do Gosto, projeto do Slow Food que cataloga produtos ameaçados de desaparecer. A inclusão da Cask Ale na lista foi proposta por Jared Ward-Brickett, presidente da tradicional associação de consumidores Campanha pela Verdadeira Ale (Camra, na sigla em inglês) de Mid-Chilterns, que liderou a campanha. A decisão celebra o modo artesanal de fazer e servir essa cerveja, um verdadeiro exemplo de “slow drink”.
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O movimento Slow Food
Criado na Itália em 1986, o Slow Food é o maior movimento gastronômico do mundo, com mais de um milhão de membros em 160 países. Sua missão é preservar tradições culinárias, proteger a biodiversidade e valorizar o trabalho de pequenos produtores. Entrar para a Arca do Gosto significa que um produto passa a ser defendido pelo movimento, com ações de conscientização e educação em torno dele.
Com a novidade, a Cask Ale se junta a outros tesouros britânicos como o queijo Somerset Cheddar e as salsichas Cumberland. Ela também entra para o grupo das grandes cervejas tradicionais reconhecidas pelo movimento, como a Rauchbier alemã e a Umqombothi africana.
Segundo Ward-Brickett, a Cask Ale é “um dos melhores exemplos de slow food britânico”. O processo começa com a cerveja sendo acondicionada com levedura viva no barril. Depois, o líquido segue para os pubs, onde é cuidadosamente maturado e servido manualmente, sem adição de pressão de gás carbônico — como é o caso do chope no Brasil. O resultado é uma bebida viva, complexa e suave.
Na hora certa

O reconhecimento do Slow Food chega em um momento estratégico. A Camra e o Craft Beer Channel lideram uma campanha para que a Cask Ale receba o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO — status que a Bélgica já conquistou em 2016 e que a República Tcheca também busca. O Camra divulgou a notícia durante a Semana Nacional da Cerveja em Barril (Cask Ale Week).
Enquanto isso, o setor cervejeiro britânico vive intensa discussão política. Às vésperas do novo orçamento, a British Beer and Pub Association (BBPA, na sigla em inglês) alerta que o governo tem poucas semanas para evitar o fechamento de 2 mil pubs e a perda de 5 mil empregos. Apesar do apoio quase unânime dos parlamentares, o setor sofre com altos impostos e regulações pesadas.
Um relatório multipartidário do Parlamento propõe dez medidas para destravar o crescimento, entre elas corte de impostos, incentivos à contratação de jovens e alívio nas taxas para pequenas empresas. Segundo o estudo, com políticas adequadas, os pubs e cervejarias podem crescer 6% ao ano e gerar meio milhão de novos empregos até 2030. Apoiar o setor, dizem os parlamentares, é proteger uma das tradições mais vivas da cultura britânica.
O momento também é crucial para o setor se reinventar e atrair novas gerações. E muitos pubs e cervejarias estão fazendo ações para isso. A cervejaria Fuller’s anunciou no início de outubro a retomada da campanha “Only in the Pub”, que reforça o papel dos pubs como guardiões da tradição britânica da Cask Ale. Além de celebrar o frescor e a sustentabilidade da cerveja de barril, a ação destaca a importância do consumo local.


