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Coluna Bia Amorim

O Brasil no seu eterno ponto de inflexão cervejeiro

Redação Guia da Cerveja
Por Redação Guia da Cerveja
29 de julho de 2025
Atualizado em: 5 de setembro de 2025
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    Em sua coluna, Bia Amorim faz reflexões sobre o momento atual do mercado cervejeiro, suas tensões históricas e os caminhos que o Brasil constrói entre cultura, tradição, inovação e mudança de consumo (Crédito: Bia Amorim/Desenho sobre imagem / Canva)
    Em sua coluna, Bia Amorim faz reflexões sobre o momento atual do mercado cervejeiro, suas tensões históricas e os caminhos que o Brasil constrói entre cultura, tradição, inovação e mudança de consumo (Crédito: Bia Amorim/Desenho sobre imagem / Canva)

    A curva da maturidade do mercado cervejeiro existe desde o século XVII com os holandeses, e só mudou efetivamente a partir do século XIX com o estabelecimento da produção cervejeira no país e ampliação da sua indústria. De bebida estrangeira para paixão nacional no Brasil, cá estamos, em um mercado cheio de histórias interessantes, reviravoltas saborizadas e inovações tecnológicas importantes.

    Eu escolhi uma cerveja para beber enquanto rascunhava no meu caderno este texto. É sexta-feira à noite e não estou em um bar, festa ou encontro com amigos. Estou aqui escrevendo para você, leitor(a), que provavelmente trabalha com cerveja também, de maneira direta ou indireta. O que mais te trouxe até o Guia da Cerveja, lendo este artigo, se não for um (a) entusiasta ou profissional da área?

    Abro o livro Cerveja, a mais popular bebida brasileira, onde Marcusso, Limberger e Barra fazem um compilado de histórias cervejeiras para nos explicar como a cerveja conquistou o país, com suas lagers geladas em terras quentes e tantos outros fatos que moldaram a nossa cultura. Mas não estou aqui para tratar de uma história que você pode, e deve, ler. Meu papel é pensar o que fazer com essas informações no mundo contemporâneo.

    Não é sobre olhar o passado da cerveja e nem tentar prever o futuro. É trabalhar no presente para que mais histórias sejam contadas, cheias de sucesso, com ótimas cervejas e um consumidor muito mais maduro, que bebe de forma atual, ou seja, informado e se possível, e idealmente, moderado. Assim como um mercado muito mais unido, pensante e motivado.

    Os dados da nossa indústria estão aí para todos verem. E são atualizados anualmente, como já virou tradição com o lançamento do Anuário do MAPA, que este ano acontece em 5 de agosto, em Brasília, e renova todas as conversas em rodas por eventos, fábricas, bares e empresas cervejeiras em sua longa cadeia de mercado. Apesar dos números, ainda temos muitas dúvidas e muita curiosidade.

    A cerveja é um prisma. Não tem um só lado que deve ser olhado. Essa é a parte mais interessante: cerveja não é só sobre produção, nem só sobre serviço. Há tanta coisa, tantos lados a serem lapidados, que é preciso mesmo um montão de cabeças pensantes em diversos segmentos. Por isso também inovamos tanto, do campo ao copo, do grão ao gole.

    Durante os últimos quinze anos que estou no mercado cervejeiro, meus pensamentos e ações já passaram por diferentes lugares da cerveja. Já contei mitos, já bebi diferentes estilos, viajei por países de tradição secular e também por culturas onde as ancestralidades chamam alto. Fui romântica e ingênua, já estive chateada, e a raiva em alguns momentos também me atravessou. Mais madura, hoje entendo ser preciso muito chão e experiência para ir nos moldando a ver o cenário como um todo. E ainda preciso de muito mais experiência e conhecimento, e esse futuro me anima muito a conhecer.

    Repito uma frase que gosto muito de dizer por aí: “a cerveja não precisa da gente, nós é que precisamos dela.”

    Estou, neste momento da carreira, vendo o mercado cervejeiro de um lugar diferente. Vejo a cerveja como uma grande categoria: ampla, espaçosa, criativa, democrática, vigorosa. Nunca tivemos tanto a discutir, defender, crescer e compor. Sinto o desafio que é, depois de tantas décadas de existência, este mercado brasileiro caminhar em direção a novas frentes e desafios.

    Do fascinante campo, temos o lúpulo na agricultura, que agora cresce e floresce em nossas terras; o desenvolvimento peculiar de novas variedades de cevada e cereais; as leveduras nativas; o uso de outros adjuntos possíveis na composição de sabores e identidades tão brasileiras; a necessidade intelectual de pesquisas e descobertas; até culminar na criação de um novo léxico para servir uma bebida que tornamos tão nacional.

    E como não poderia deixar de ser, entender que existem tensões peculiares ao momento atual, mas que, ao mesmo tempo, aprendemos que são, na verdade, recorrentes. Dá para citar a pressão tributária das bebidas, que como nos conta o trio de autores citado no começo do texto, já em 1894 existia em grande medida e tencionava para trás os negócios. Ou o problema de um país tão continental que no século XX já reclamava a questão do transporte e distribuição das cervejas que estavam sendo produzidas no Brasil naquela época.

    As questões econômicas sempre estiveram na lista de desafios do setor. Agora, com as cervejas artesanais contemporâneas, novas peças entram no jogo: do consumo per capita e do custo de vida, versus produtos de alta qualidade, lifestyle e todas as singularidades.

    Talvez o que haja de mais novo nessa conversa toda sejam as mudanças de consumo das novas gerações, ainda pouco compreendidas por todos. Isso é algo que acontece no dia a dia, e só pode ser efetivamente interpretado quando tivermos os dados do consumo real, e não apenas o imaginário ou o que é propagado. E também os dados mais segmentados, já que é difícil nos colocarmos nas mesmas pesquisas do mundo todo: há um abismo de diferenças entre países, regiões, bairros, faixas etárias, gêneros e todas as questões demográficas, em geral. Somos complexos em tudo.

    Podemos também falar de cerveja sem álcool como um grande tópico dos dias de hoje. A mudança de chave que deve marcar nossa época, deixando relatos de todos os tipos em seu modo de fazer, nas diferentes qualidades, receitas e possibilidades desse mundo tão novo e, ao mesmo tempo, antigo. Mas que não era tão relevante em outra época. A busca por saúde, o reforço das regras, o status do momento, o equilíbrio de uma vida tão atual. Amplas ocasiões de consumo, tudo em movimento.

    E se antes a gente comunicava cerveja por meio de hinos a deusas, em tábuas de barro ou madeira, agora comunicamos cerveja por meio de aparelhos eletrônicos à mão de todos. Na direita o copo, na esquerda o celular com todas as informações, detalhes específicos sobre IBU, ABV, todo o rastreamento do gole. Além de uma escuta mais atenta de cada consumidor sobre marca, discurso coerente, sustentabilidade e diversidade, para haver um alinhamento de valores entre as partes.

    Então, ao estudar cerveja, viver cerveja, beber cerveja e da cerveja fazer negócio, temos muito a conversar. E é disso que quero tratar, ao longo dos artigos e crônicas aqui no Guia da Cerveja: desse prisma que é essa bebida tão milenar, e entender como, no Brasil, estamos construindo nossas próprias tradições e transformando a cultura enquanto a bebemos.

    Deglutindo os conhecimentos enraizados em nossos territórios, saberes e técnicas emigrados e transformados, trazidos à mesa. O mercado cervejeiro é uma eterna inflexão, com suas constantes e necessárias mudanças.

    Saúde, até a próxima leitura.

    #BebaComResponsabilidade

    Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.

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      Redação Guia da Cerveja
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