Outro dia, depois de um detox alcoólico de semanas, abri uma cervejinha como se deve: sem nenhum compromisso. É fim de ano, aquele período em que a gente olha para trás tentando encontrar lógica no caos — e entender o futuro do mercado de cerveja.
Guerra, aquecimento global, manobras do Congresso, fim das iniciativas de inclusão, a educação cervejeira segue contando as mesmas histórias sem olhar (de verdade) para o passado, a IA ocupa cada vez mais nosso dia a dia enquanto a gente se afasta do que nos torna humanos: presença, conflito, comunidade.
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No noticiário, tem cervejarias lendárias decretando falência. Outras desaparecendo sem nem se despedir. Ao mesmo tempo, enchentes, secas, queimadas, alagamentos e até furacões tropicais já frequentam mais a tal “terra abençoada por Deus” que o Bruno Mars.
É quase sorte a gente ter chegado até aqui, né não?

No meio dessa reflexão meio bêbada e meio sóbria, me lembrei de uma pergunta que o Giba (Tarantino) me fez outro dia: o que vai ser do futuro do mercado de cerveja daqui a 5 anos?
Nem se empolgue.
Se você acha que a resposta existe, tá no lugar errado. A Bia Amorim fez um texto ótimo sobre a tese, mas é isso: apenas tese. Já o retrocesso silencioso é bem real.
Fim do hype no futuro do mercado de cerveja
Eu e algumas pessoas insistimos nessa pauta e seguimos pagando por isso. Mas a real é que ninguém fala mais sobre o tema, mesmo acontecendo em várias áreas. A publicidade já percebeu. O cinema já percebeu. E quem trabalha com bebida também deveria perceber: os movimentos de inclusão foram esvaziados.
Não é que não existam mulheres talentosas, pessoas pretas preparadas, profissionais brilhantes em todas as pontas da cadeia. Elas estão aí desde sempre e não são poucas.
O problema é que a porta que a gente começou a abrir enferrujou de novo. A pauta perdeu glamour, perdeu like, perdeu moda. Só não perdeu urgência, pelo contrário. Mas pra quem dá as cartas do jogo, infelizmente, parece que tá tudo bem.
Fim da humanidade
Enquanto isso, a IA vai ocupando buracos que ninguém deveria ocupar. Por exemplo, tem gente fazendo terapia com IA, tem criador terceirizando o próprio pensamento, tem marca substituindo conversa humana por automação como se fosse normal. Tem também criador brasileiro famoso copiando palavra por palavra o conteúdo dos outros, como um casal fez com uma blogueira britânica.
Se até a construção de relações humanas pode virar algoritmo, o que impede que a cerveja vire só um produto? Só entrega? Só eficiência? Você também sente que estamos caminhando pra isso? Cerveja sempre foi cultura líquida, humana, fluida. Se o humano sai da equação, sobra o quê?
Fim do real
Outro fenômeno é essa troca da vida vivida pela vida editada. Todo mundo procurando pertencimento fácil, amizade que não te enfrenta, não te contradiz, comunidade sem diversidade de verdade. É aí que mora o perigo. Pensa: se a cerveja é uma ponte entre as pessoas, o que acontece quando elas não conseguem mais atravessar ou nem querem passar por essa ponte?
A cerveja não foi feita pra alimentar uma solidão confortável. Foi feita pra mesa cheia, conversa torta, discussão e debate acalorado, pra ser pano de fundo de histórias que cabem na vida, não no feed.
Fim do sentido
Agora, pega a ironia: quanto mais se fala em reinventar o mercado, mais se esquece das coisas simples. Por exemplo, tá todo mundo preocupado com teor alcoólico, parecer sustentável, tomar o share da outra marca, números do próximo trimestre. Mas quem tá olhando o essencial: o que faz uma pessoa querer brindar?
Todo mundo quer ser protagonista no seu brinde, mas se o brinde não tem sentido, emoção ou verdade, não tem produto, inovação ou IA que salve o futuro do mercado de cerveja.
Recomeço
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia, diria Chico (Buarque) e pego carona com ele. Pois ainda vejo um caminho, um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não, como diria Lulu (Santos).
Eu vejo isso nas micro comunidades reais (não digitais), que crescem porque alguém parou pra ouvir. Nos botecos e bares que ainda acolhem quem não tem glamour, mas é inspiração. Nas mesas onde ninguém pega o celular durante o brinde. Nas poucas empresas e profissionais que ainda resistem e acreditam que diversidade não é pauta, é prática.
Eu vejo isso na feirinha que passei outro dia, onde vi uma barraca vendendo cerveja feita por pessoas pretas. Onde o casal e seus dois filhos adolescentes serviam e conversavam com quem passava pra provar a cerveja deles. Simples, como deveria ser.
Eu vejo isso aqui, agora, nesse copo americano suado que to olhando enquanto rabisco esse texto. Num balcão molhado de boteco. Naquele gole que ninguém viu, mas existiu, sabe?
É nesse lugar, contexto ou sonho etílico que ainda mora esse futuro.
Daqui a 5 anos? Não faço ideia!

Só posso falar sobre o que eu gostaria de ver no futuro do mercado de cerveja.
Um mercado com menos pressa e mais propósito.
Com menos algoritmo e mais humanidade.
Com menos tendência e mais verdade.
Com menos exclusão e mais acesso.
Com menos exibicionismo e mais encontros.
Com menos “eus” e mais Rozis Sá.
Mais gente puxando gente.
Porque um brinde só vale quando tem alguém do outro lado.
Se você chegou até aqui (espero que sim), deve ter sacado que a pergunta certa não é sobre “o que vai ser da cerveja daqui 5 anos?”. Isso é muito passivo. O jogo é sobre construção, então é muito mais sobre o que a gente pode fazer da cerveja até lá.
Ainda dá tempo.
Ainda tem espaço.
Ainda tem copo.
E se você quiser, entre umas e outras, a gente inventa um futuro que realmente valha a pena brindar.
2026 já começou, bora?
Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.


