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Me dê motivos: se o copo ainda tá cheio, por que parece que falta alguma coisa?

Já faz tempo que eu tenho me perguntado: onde foi parar aquele lugar especial da cerveja que a gente gostava tanto? Tô falando daquele lugar simples, com tempo livre, risadas altas e companhia leve. O boteco de confiança. A casa de uma pessoa amiga. Aquele balcão que segura o papo e o copo enquanto a conversa flui, a cerveja desce e o tempo passa no seu próprio tempo. Um lugar simbólico que, aos poucos, parece que tá sumindo do mapa.

É louco pensar que, enquanto olho saudoso para trás, hoje tem gente morrendo justamente porque saiu para buscar momentos de celebração como esses. E encontrou bebida adulterada. A Geração Z, por outro lado, nem quer beber: prefere moderação como status e performance como símbolo. No meio disso tudo, a indústria discute reforma tributária, celebra crescimento sem comentar fechamento de fábricas, e inventa novos produtos, apostando que o encontro, a confiança e o afeto ainda estão à mesa. Parece que sim, mas o contexto tá mudando.

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Em um dos mercados mais tradicionais do mundo, o alemão, são produzidos mais de 800 tipos de cerveja sem álcool. Mesmo assim, já tem gente sentenciando: com a queda drástica no consumo e a falta de paixão da Gen Z pela bebida, as cervejarias alemãs podem simplesmente desaparecer no futuro. No Brasil, as grandes já entenderam o recado e correm atrás com lançamentos que tentam oferecer opções mais leves, sem álcool ou que provoquem novos paladares. As pequenas tentam seguir a tendência enquanto lutam para se manterem.

Mas será que é só isso que o público quer? O que tá em xeque é o teor alcoólico ou o significado do copo? Dá para dizer que o problema não é beber, pois sede não falta. Uma pista pode estar no porquê beber. A cerveja artesanal flertou com a soberba e virou experiência de luxo, que ainda exclui o povão apaixonado e afasta quem não engole o hype. É gente que quer honestidade, que não abre mão do corpo pela bebida. Talvez eles estejam certos, a gente é que não entendeu o recado.

Parece que não é a cerveja que está sumindo, mas um pouco do velho ritual. Aquele que comentei no começo do texto, sabe? Que pede o tempo de parar, de escutar antes da selfie. O brinde sem post. Aliás, tenho experimentado mais bebidas em off do que quando publicava fotos das degustações no Instagram. Já fez esse teste?

“O papo aqui é sobre reconectar o que ainda faz sentido: estar junto, sem pressa, com ou sem álcool no copo”

Pensando bem, parece que a gente correu tanto para aparecer que esqueceu de estar presente. Aquela presença que não precisa de engajamento, só de atenção. Mas ainda vejo um copo americano suado e meio cheio, do lado de uma cerveja de garrafa clássica em cima de um balcão molhado. Berço da bebida que acolhe em vez de impressionar. Ainda tem lugar para cerveja. Aquela que serve de companhia silenciosa numa tarde reflexiva, ou é apenas mais uma ouvinte numa mesa que fala por si.

Mas vamos precisar de muita gente para resgatar esse espírito: produtores, bares, comunicadores, marcas, você que me lê aqui no Guia. E não tô falando de voltar ao passado. O papo aqui é sobre reconectar o que ainda faz sentido: estar junto, sem pressa, com ou sem álcool no copo. Não tem “Gen” que resista a isso. Claro, vai demorar. Mas entre umas e outras, a gente pode tentar. Bora?


Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.


* Este é um texto opinativo. As opiniões contidas nele não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.

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