O cultivo de lúpulo no Brasil conseguiu elevar a produtividade por hectare, atingindo novo recorde, apesar do leve recuo em área cultivada e no número de produtores. Os dados são do Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo) e foram divulgados com exclusividade para o Guia da Cerveja (confira o elatório completo aqui).
Para Daniel Leal, vice-presidente da Aprolúpulo, os números refletem uma dinâmica no setor que está amadurecendo. Ele explica que o leve recuo em área plantada e no número de produtores, aliado ao aumento da produtividade, reflete a dinâmica de saída de pioneiros com atuação isolada e pequeno volume de produção para a entrada de novos produtores com estruturas de campo maiores, além do ganho com a melhoria das técnicas de cultivo.
Eficiência em alta
De acordo com o Mapa do Lúpulo Brasileiro, a produtividade média nacional atingiu o recorde de 852,3 quilos por hectare em 2024. Trata-se de um crescimento robusto, de mais de 8%, em relação aos 787,1 quilos por hectare da safra de 2023. E que superou consideravelmente o índice de 450 quilos registrado em 2021.
| Raio X da produção de lúpulo no Brasil | |||
| Ano | N° produtores de lúpulo | Área total cultivada (ha) | Produtividade por hectare (kg/ha) |
| 2021 | 60 | 40 | 450 |
| 2022 | 81 | 48,5 | 597 |
| 2023 | 114 | 111,8 | 787,1 |
| 2024 | 109 | 95,4 | 852,3 |
Esse salto técnico de rendimento ocorreu mesmo com a redução do número de produtores, que passou de 114 para 109, e a diminuição da área total cultivada, que recuou de 111,8 hectares para 95,4 hectares no último ano.
Como resultado prático dessa otimização, a produção total do país ficou em 81,3 toneladas. Essa queda no volume geral (-7,6%) em relação a 2023 foi proporcionalmente muito inferior à retração da área de plantio (-14,67%), o que evidencia que o setor manteve sua força produtiva graças ao aprimoramento do manejo agronômico e à consolidação de produtores mais estruturados e eficientes, segundo Leal.
Expansão do lúpulo brasileiro
Outro dado apontado no Mapa do Lúpulo indica que quase três a cada dez produtores expandiram a área plantada. E 90% planejava crescimento nos próximos anos.
Os dados relativos à produção de 2024 indicam que 27% haviam expandido a área. Em relação aos planos de expansão, 63% planejava expandir no futuro, sem prazo definido; 16% afirmou estar em processo de expansão, 11% queria expandir em 2025 e 10% não tinham planos de ampliar a área.
Mais aroma, menos amargor
Considerando as variedades cultivadas no Brasil, o Mapa do Lúpulo aponta que, em 2024, a produção se voltou a variedades que contribuem mais com o aroma do que com o amargor.
O cultivo brasileiro tem 146,8 mil plantas que acrescentam notas de aroma à produção cervejeira, contra 31 mil plantas que levam amargor à bebida. Ao todo, foram colhidos 61,5 kg no cultivo de aroma e 19,8 kg no amargor.
Segundo Leal, isso ocorre porque o aroma tem maior valor de mercado. A variedade Comet se destaca por ter um bom desempenho no campo, adaptando-se a quase todos os climas do país, sendo resistente a doenças e com boa produtividade, além do apelo no mercado de cerveja artesanal.
“Variedades de amargor têm melhor desempenho em produtividade, mas menor valor de mercado, o que as torna menos competitivas no atual nível de escala do mercado brasileiro”, afirma Leal.
No entanto, com o crescimento e ganho de escala, a tendência é uma migração para a produção de lúpulos de amargor, que são mais baratos de produzir por quilo devido à maior produtividade e têm uma demanda maior nas grandes cervejarias, explica Leal.
| Tipo | Variedade | Plantas | Total (kg/ano) |
| Aroma | Comet | 62.931 | 28.100 |
| Aroma | Cascade | 40.441 | 18.294 |
| Amargor | Hallertau Magnum | 13.442 | 6.730 |
| Amargor | Zeus | 9.635 | 6.531 |
| Aroma | Saaz | 19.028 | 6.109 |
| Aroma | Chinook | 7.900 | 5.566 |
| Amargor | Nugget | 4.380 | 4.022 |
| Amargor | Columbus | 3.622 | 2.529 |
| Aroma | Triumph | 2.909 | 822 |
| Aroma | Hallertau Mittelfrueh | 1.678 | 549 |
| Aroma | Triple Pearl | 965 | 411 |
| Aroma | Centennial | 1.932 | 358 |
| Aroma | Sorachi Ace | 1.250 | 318 |
| Aroma | Alpha Aroma | 2.568 | 287 |
| Aroma | Crystal | 1.267 | 202 |
| Aroma | Vista | 2.262 | 100 |
| Aroma | Hersbrucker | 100 | 85 |
| Aroma | Northern Brewer | 160 | 43 |
| Aroma | Southern Cross | 744 | 41 |
| Aroma | Brewers Gold | 75 | 33 |
| Aroma | Yakima Gold | 62 | 33 |
| Aroma | Mapuche | 150 | 31 |
| Aroma | Fuggle | 67 | 27 |
| Aroma | East Kent Goldings | 50 | 24 |
| Aroma | Dr Rudi | 50 | 22 |
| Aroma | Spalt Spalter | 50 | 19 |
| Aroma | Golding | 12 | 14 |
| Aroma | Pacific Gem | 30 | 11 |
| Aroma | Smooth Cone | 60 | 5 |
| Aroma | Teamaker | 9 | 3 |
“Terroir” brasileiro
Com a evolução do setor, muito se fala no “terroir” brasileiro, ou seja, em características de sabor especificamente vinculadas ao Brasil. Com tantas plantas voltadas ao aroma, daria para dizer que estamos evoluindo para uma indústria consolidada?
Segundo aponta Leal, a discussão é complexa. Ele afirma que, embora o lúpulo brasileiro tenha características aromáticas intensas (frutas amarelas, cítricas), a produção se espalha por um território muito amplo, e o terroir está associado a condições climáticas e de solo extremamente regionalizadas. Ele defende que, para a indústria, o mais salutar é ter um volume de produção grande e significativo com um padrão que se repita ao longo dos anos a fim de estabilizar a oferta da produção nacional.
Atualmente, a produção de lúpulo brasileiro atende apenas de 2% a 3% da demanda interna e tem grande potencial de crescimento, desde que superados os gargalos de comercialização.
Metodologia
A elaboração do estudo é feita a partir de entrevistas e coletas de informação junto a produtores de todo o Brasil, sejam associados ou não à Aprolúpulo. Nesta edição, a associação contou com a parceria do laboratório Casulo, vinculado à COPPE/UFRJ, implementando aprimoramentos metodológicos fundamentais.
Daniel Leal destaca mudanças metodológicas para alinhar a coleta de dados ao mercado internacional. Se antes a coleta mostrava a produtividade por planta, agora ela é medida por hectare. Entraram também dados por variedade e número de safras.
Com uma base produtiva atualmente mais enxuta e qualificada, a expectativa da Aprolúpulo para os próximos anos é de que o lúpulo brasileiro consolide rotas de desenvolvimento apoiadas na maior integração técnica, apontando para a retomada do crescimento em volumes guiada pelas exigências de constância e eficiência do mercado cervejeiro.


