Há viagens que a gente faz para conhecer lugares. Outras, para conhecer sabores. E há aquelas em que, depois de alguns dias, percebemos que estamos conhecendo uma cultura inteira através de um copo. Minha viagem à Bélgica para o Toer de Geuze 2026 foi exatamente assim. E justamente no ano em que o reconhecimento da cultura cervejeira belga como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade por parte da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) completa uma década.
Durante dois dias, percorri parte do Pajottenland e do Vale do Senne, na região onde a tradição da Lambic e da Gueuze está profundamente ligada ao território. Foram nove produtores visitados, dezenas de impressões, muitos copos, comida, música, barris, gente de toda parte e, acima de tudo, uma percepção cada vez mais clara de que, por ali, cerveja não é apenas bebida. É patrimônio, memória, trabalho e uma forma de reunir pessoas.
O Toer de Geuze é organizado pelo Conselho Superior para Cervejas Lambic Artesanais (Horal, na sigla em flamenco), entidade sem fins lucrativos que reúne produtores de Lambic e Gueuze. A primeira edição aconteceu em 19 de outubro de 1997, quando seis produtores abriram suas portas ao público. Desde então, o evento passou a acontecer a cada dois anos e se transformou em uma das grandes celebrações da cultura cervejeira da região. Em 2026, a 15ª edição aconteceu nos dias 9 e 10 de maio e reuniu 14 produtores. A entrada nas cervejarias e Gueuzeries participantes foi gratuita.
Os 14 participantes foram Boon, De Cam, De Troch, Den Herberg, Eylenbosch, Hanssens, Kestemont, Lambiek Fabriek, Lindemans, Mort Subite, Oud Beersel, Sako, Tilquin e Timmermans. A Mort Subite abriu somente no domingo; os demais participantes receberam visitantes nos dois dias.
Mas havia uma maneira muito mais pessoal de registrar essa peregrinação cervejeira. Na entrada de cada produtor, recebíamos um pequeno passaporte. A cada nova parada, um carimbo oficial marcava que havíamos estado ali. No fim, aquele pedaço de papel já não era apenas uma lembrança: era o mapa físico da nossa viagem, uma espécie de diário de bordo feito de carimbos e várias folhas onde relatávamos as experiências sensoriais vividas em cada parada.
E foi assim que comecei minha odisseia.
Primeira parada do Toer de Geuze 2026: Lambiek Fabriek
Começamos pela Lambiek Fabriek. Logo de cara, a experiência já mostrava que o Toer de Geuze não seria uma simples sequência de visitas a produtores dessa família de cervejas.
A cervejaria ocupa um grande galpão, onde os barris chamam a atenção e ajudam a compor aquela paisagem que qualquer apaixonado por Lambic imagina quando pensa na produção tradicional da região. O sistema de degustação era bastante simples e eficiente: comprávamos fichas e depois as trocávamos por cervejas nos diferentes balcões espalhados pelo espaço.
Provamos cerca de seis rótulos. Entre eles estavam a BRETT ELLE a BLACK BELLE e a MALVAS ELLE . Mais do que simplesmente provar cervejas diferentes, a sensação era a de estar começando a entender o espírito daquele fim de semana: cada produtor havia criado sua própria maneira de receber o público, e nós íamos descobrindo essas diferenças de parada em parada.
O passaporte ganhou seu primeiro carimbo.
E a viagem estava apenas começando.
Oud Beersel: cerveja, comida e música

Deixamos a Lambiek Fabriek e seguimos para a Oud Beersel.
Ali, a experiência ganhou outra dimensão. Visitamos uma espécie de museu dentro da fábrica e conhecemos também o Barrel Room, entrando em contato mais próximo com a história e com os espaços onde a tradição cervejeira é preservada.
Mas foi do lado de fora que a memória ficou mais forte.
Nos fundos da fábrica havia um pomar onde a cerveja era servida em meio a uma verdadeira celebração. Havia comida típica, porco no rolete, sanduíches de carne de porco e um realejo tocando músicas. As pessoas se espalhavam pelo espaço, conversavam, bebiam e se divertiam.
Foi uma das primeiras vezes em que percebi que o Toer de Geuze era muito maior do que uma programação de visitas a cervejarias. Havia ali uma atmosfera de festa popular.
Música, cerveja e boa comida.
Era difícil imaginar uma combinação mais apropriada para aquele momento.
Eylenbosch: uma cervejaria com alma de fazenda
Da Oud Beersel seguimos para a Eylenbosch.
A atmosfera mudou completamente. Se algumas das paradas tinham um caráter mais industrial ou urbano, ali a impressão era de estar chegando a uma pequena propriedade rural.
A cervejaria tem um clima especial. Há currais com ovelhas, áreas verdes e um ambiente que lembra uma pequena fazenda. E havia ainda uma figura que rapidamente se transformava em uma das personagens daquele lugar: o Border Collie que funciona praticamente como mascote da produção.
O cachorro circulava entre os visitantes, como se fosse parte oficial da recepção. Em vez de apenas observar a movimentação, ele parecia fazer questão de participar dela.
As mesas eram compridas e comunitárias. Algumas ficavam dentro do galpão, próximas ao espaço da produção, enquanto outras estavam espalhadas pelo gramado. Havia também hambúrgueres artesanais sendo preparados para os visitantes.
Mais uma vez, a cerveja aparecia acompanhada de uma experiência de convivência.
Entre os rótulos provados, um me chamou particularmente a atenção: a Biet, uma Lambic com adição de beterraba.
Era uma daquelas experiências que ajudam a lembrar que, mesmo dentro de uma tradição tão antiga e rigorosa, ainda existe espaço para interpretação, criatividade e surpresa.
Mais um carimbo no passaporte.
Den Herberg e a cerveja no jardim

Da Eylenbosch fomos para a Den Herberg.
A chegada já era curiosa. O produtor fica no final de uma rua bastante apertada, e naquele dia a rua havia se transformado em um grande ponto de encontro. Havia mesas comunitárias ocupadas por muita gente, cervejas sendo consumidas e música ao fundo.
Em vez de simplesmente ficar no meio daquela movimentação, resolvemos sentar nos jardins de uma casa onde estavam sendo servidos vários rótulos da Den Herberg.
Ali provamos a Kriek Devil e a Gueuze Generous.
A Kriek trouxe aquela presença evidente de cerejas que eu esperava encontrar em uma cerveja desse perfil. Já a Gueuze apresentou uma acidez marcante, acompanhada daqueles aromas que reconheço como tão característicos das Lambics, associados à atuação da Brettanomyces.
Era interessante perceber como o ambiente também modificava a experiência. Não estávamos em uma sala de degustação silenciosa, analisando a cerveja de maneira isolada. Estávamos sentados em um jardim, cercados por pessoas, música e conversa.
A cerveja fazia parte daquele cenário.
E talvez essa seja uma das melhores maneiras de entender o Toer de Geuze.
Boon: outra escala, outra experiência
Da Den Herberg seguimos para a Boon.
A diferença era imediata.
A fábrica é muito maior, e o pátio da cervejaria havia sido transformado em um enorme espaço para receber os visitantes. Havia mesas, cadeiras, palco e muita gente circulando.
A música tinha papel importante. Bandas marciais se apresentavam ao longo do evento, com os músicos vestidos a caráter, em trajes de inspiração militar. O resultado era visualmente muito bonito e contribuía para aquela sensação de grande celebração coletiva.
Também havia uma praça de alimentação, com churrasco, hambúrgueres e espetinhos.
Mas a Boon oferecia ainda outro lado da experiência: tivemos a oportunidade de percorrer toda a linha de produção. Depois da visita, terminamos na loja da cervejaria, onde pudemos comprar algumas garrafas para levar para casa.
Era interessante observar como o mesmo evento conseguia comportar experiências tão diferentes. Em alguns lugares, a sensação era de visitar uma pequena propriedade familiar. Na Boon, havia uma estrutura muito maior, capaz de receber uma verdadeira multidão.
Mas o propósito permanecia o mesmo: abrir as portas e colocar o visitante em contato direto com a produção.
Gueuzerie Tilquin: cerveja ao ar livre

Da Boon seguimos para a Gueuzerie Tilquin.
A Tilquin também aproveitava muito bem sua área externa. Um grande toldo oferecia abrigo aos visitantes, enquanto quem preferisse podia permanecer ao ar livre.
Mais uma vez, a gastronomia ocupava espaço importante. Havia vários food trucks e uma grande oferta de comida de rua. Entre as opções estava novamente o porco no rolete, presença que já começava a parecer quase uma assinatura gastronômica daquele fim de semana.
A Tilquin também oferecia uma loja ampla, onde era possível comprar suas cervejas, além da oportunidade de conhecer a produção.
A própria organização oficial da cervejaria havia preparado uma programação especial para o Toer de Geuze 2026, incluindo visitas guiadas gratuitas, degustações no bar e lançamentos. Entre eles estavam novas Gueuzes e uma edição limitada de Gueuze com mel.
Mais uma vez, a visita mostrava que o Toer de Geuze não se limita a mostrar ao público aquilo que normalmente fica escondido atrás das portas de uma cervejaria. Os produtores aproveitam o fim de semana para apresentar suas instalações, suas cervejas e também sua comunidade.
De Cam: tradição que continua viva
Da Tilquin fomos para a De Cam.
Essa foi uma das visitas que mais me marcaram pela relação com a história.
Fomos recebidos pelo próprio cervejeiro e proprietário. O local é muito bonito e agradável, e a produção ocupa as instalações de uma cervejaria centenária.
Há alguma coisa especial em beber uma cerveja em um espaço que carrega tantas décadas de história. As paredes, os ambientes e os equipamentos parecem contar histórias mesmo quando ninguém está falando.
A música também estava presente, com artistas locais se apresentando. A cervejaria conta ainda com um restaurante em suas instalações, reforçando aquela característica que havia se repetido ao longo da viagem: cerveja e comida convivendo de maneira natural.
Tivemos a oportunidade de visitar a sala de barris. Foi ali que a experiência ganhou outro caráter. O cervejeiro serviu Lambic em uma jarra, e pudemos provar a cerveja naquele ambiente cercado pelos próprios recipientes onde parte daquela história acontece.
Também compramos outras garrafas para continuar a degustação no local.
Foi uma visita em que a cervejaria deixou de ser apenas um lugar de produção e passou a parecer quase uma extensão da própria história da Gueuze.
Kestemont: uma pequena aldeia e sabores da região

Da De Cam seguimos para a Kestemont.
A produtora fica em uma pequena aldeia e também apresenta aquele aspecto antigo que eu já começava a associar às cervejarias da região.
Ali havia uma espécie de bar para receber os visitantes, com a possibilidade de permanecer tanto na área interna quanto na externa. Havia também food trucks, mais uma vez reforçando a presença da comida como parte importante do Toer de Geuze.
Provamos dois rótulos: Harbarber e Bluebass.
Dessa vez, a degustação veio acompanhada de uma tábua de frios, uma linguiça artesanal produzida na região e queijo também feito localmente.
Foi uma combinação que me fez pensar em como a cerveja pode funcionar como uma espécie de retrato de um território. Não era apenas uma bebida produzida ali. A experiência também envolvia os alimentos, as pessoas e os ingredientes da região.
A Lambic e a Gueuze estavam sendo apresentadas dentro do próprio contexto cultural em que existem.
E o passaporte ganhava mais um carimbo.
Timmermans: diante do coolship
Nossa última parada foi a Timmermans.
E talvez não pudesse haver encerramento mais adequado.
Na Timmermans fizemos uma visita completa pelo processo produtivo. Tivemos a oportunidade de ver de perto o coolship, aquele enorme tanque aberto característico da produção tradicional de Lambic.
Ver aquele equipamento cheio de mosto, exposto ao ambiente, foi uma das imagens mais marcantes de toda a viagem. Ali estava, diante dos meus olhos, uma das etapas mais fascinantes da produção de cervejas de fermentação espontânea: o mosto entrando em contato com o ambiente e com a microbiota que participa do processo que dará à Lambic seu caráter tão particular.
Depois de tantas conversas sobre barris, fermentação e tradição, estar diante do coolship tornava tudo mais concreto.
Também degustamos vários rótulos da cervejaria.
A Timmermans tinha ainda um bar enorme e muito bonito, além de uma espécie de museu. E porque nenhuma viagem cervejeira na Bélgica parece completa sem alguma boa comida pelo caminho, terminei a visita com um hambúrguer delicioso preparado por um dos food trucks.
Foi uma maneira bastante apropriada de encerrar o percurso: cerveja, história, técnica e comida no mesmo lugar.
Mais do que um roteiro de cervejarias
Quando comecei aquela viagem, imaginava que o Toer de Geuze seria, essencialmente, uma oportunidade de visitar produtores de Lambic e Gueuze e isso era evidente; era também muito mais. Em cada parada, encontrei uma maneira diferente de celebrar a cerveja.
O que mais me impressionou foi justamente essa diversidade.
A Lambic pode ser extremamente técnica, pode ser complexa, mas nunca perdeu o caráter convivial, celebrada em meio à música, comida, famílias, amigos e visitantes vindos de diferentes lugares.
Isso diz muito sobre a força da tradição.
O último carimbo
No fim da viagem, olhei para o meu passaporte do Toer de Geuze. Cada carimbo correspondia a uma cervejaria, mas também a uma memória.
Saí de lá com garrafas na mala, um passaporte cheio de carimbos e uma coleção de lembranças que dificilmente caberia em qualquer mala.
Angelo Nunes é sommelier de cervejas e dono do perfil Caçador de Cerveja no Instagram.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


