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Do tabu de 33 jogos do Remo à Germano Pilsen: as histórias que uniram futebol e cerveja

Uma cerveja feita com três maltes e três lúpulos para lembrar 33 clássicos sem derrota para o maior rival. Uma German Pilsen rebatizada de Germano Pilsen por causa do estádio do clube. Mil garrafas de uma edição comemorativa que desapareceram em 48 horas. E, mais recentemente, torcedores convidados a contar suas próprias memórias para colocá-las no rótulo da cerveja do time. A relação entre cerveja e futebol no Brasil produziu histórias que vão bem além da marca estampada em uma placa de publicidade. Passam por cervejas criadas por torcedores, rivalidades transformadas em receitas, clubes centenários associados a pequenas cervejarias de suas cidades, latas que viraram objetos de coleção e projetos em que até os dois lados de um clássico acabaram atendidos pelo mesmo fabricante.

Essa proximidade é antiga. No começo do século 20, quando o futebol ainda se organizava no país, a Companhia Antarctica Paulista mantinha em São Paulo uma área de lazer com jardins, restaurantes, choperia e campos. O Parque Antarctica recebeu em 1902 uma partida do primeiro Campeonato Paulista e acabaria ligado definitivamente à história do Palestra Itália, atual Palmeiras.

Mais de um século depois, a cerveja continua encontrando maneiras diferentes de entrar na cultura do futebol. Algumas dessas histórias duraram uma temporada; outras se estenderam por anos. Há projetos lançados em 2026 e outros que desapareceram, mas deixaram casos bons demais para sumirem junto com o rótulo.

Quando o escudo foi parar na lata

A ideia de comprar uma cerveja com o escudo do clube não nasceu com a expansão das cervejarias artesanais.

Em meados dos anos 1990, milhões de latas com símbolos de grandes times brasileiros chegaram ao mercado em uma operação curiosa: a própria cerveja era produzida e envasada nos Estados Unidos, pela American Specialty Brewing, e importada pronta para o Brasil. Em 1996, uma nova remessa previa 9,6 milhões de latas, com investimento de US$ 4 milhões. Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco e Bahia estavam entre os clubes estampados nas embalagens.

Anos depois, as grandes cervejarias explorariam de maneira muito mais ampla essa proximidade entre embalagem e torcida. Em 2013, a Brahma lançou uma coleção de “latas torcedoras” com escudos de 17 clubes brasileiros, distribuídas em versões de 350 e 473 ml.

A relação também apareceu em projetos menos convencionais. Antes da Copa do Mundo de 2014, a marca chegou a cultivar cevada na Granja Comary, centro de treinamento da seleção brasileira em Teresópolis, para produzir uma edição especial de 2.014 garrafas numeradas. Em 2026, a Brahma prometeu cerveja de graça caso a seleção conquistasse o hexa.

O futebol já não estava apenas na publicidade da cerveja. Podia estar na embalagem, na origem de um ingrediente ou no motivo para criar uma edição que o torcedor guardaria depois de beber. Nas cervejarias artesanais, essa relação ganharia outra escala e, muitas vezes, histórias bem mais locais.

Remogelada: três maltes, três lúpulos e 33 jogos sem perder para o Paysandu

A Remogelada começou longe de qualquer departamento de marketing.

Em 2015, Bruno Fernandez, torcedor do Clube do Remo, de Belém (PA), produzia cerveja artesanal para beber com amigos antes dos jogos. A experiência cresceu entre outros remistas até chegar ao próprio clube, que decidiu transformar a ideia em produto oficial.

O contrato anunciado na época tinha duração de cinco anos e previa royalties para o Remo. Mas o detalhe que transformou a cerveja em uma história especialmente futebolística estava dentro da receita.

A Remogelada utilizava três tipos de malte e três tipos de lúpulo. O “3 + 3” fazia referência a uma sequência que entrou para a história do Re-Pa: entre 1993 e 1997, o Remo passou 33 clássicos consecutivos sem perder para o Paysandu. A rivalidade havia virado fórmula de cerveja.

O contrato original já chegou ao fim. Ainda assim, a história mostra algo que se repetiria em outros projetos pelo país: quando a cerveja nasce dentro da própria torcida, detalhes que poderiam parecer pequenos para quem está de fora ganham significado no nome, no rótulo e até na receita.

Operário: a German Pilsen que virou Germano Pilsen

Em 2017, quando o Operário, de Ponta Grossa (PR), disputava a final da Série D do Campeonato Brasileiro, integrantes do Grupo Gestor, que administrava o futebol, criaram uma cerveja artesanal para acompanhar aquele momento.

A associação de torcedores já mantinha uma relação incomum com a memória do clube: havia participado da criação do escudo utilizado pelo Operário e mantinha um acervo dedicado à história alvinegra.

Para a cerveja, o Fantasma (apelido do clube) virou Ghost Beer. E a brincadeira continuou no estilo: a German Pilsen foi apresentada como Germano Pilsen, referência ao Estádio Germano Krüger. O rótulo trazia ainda uma imagem aérea do estádio.

A relação do clube com a produção cervejeira local ainda teria outro capítulo. Em 2022, o Operário fechou parceria com a também ponta-grossense Steudel para lançar a Vila Oficinas Lager, cerveja oficial que destinava parte do valor das vendas ao clube.

No Criciúma, a torcida assina o rótulo

Garrafa de 600 ml da cerveja do Criciúma E.C., produzida pela Lohn Bier, com rótulo amarelo e preto

Algumas dessas histórias continuam sendo escritas. Em 2026, o Criciúma renovou até o fim do ano sua parceria de licenciamento com a catarinense Lohn Bier, iniciada em 2021.

Para celebrar os 79 anos do clube, a cervejaria abriu espaço para que os torcedores contassem qual título mais os representava e qual era sua relação pessoal com aquela conquista. As histórias selecionadas chegaram à embalagem e 12 torcedores tiveram suas assinaturas incorporadas ao rótulo comemorativo.

Villa Nova e Vinil: clube e cervejaria dividem Nova Lima

Em 2026, o Villa Nova, clube centenário de Nova Lima, em Minas Gerais, ganhou a cerveja Leão do Bonfim, Pilsen artesanal produzida pela também nova-limense Cerveja Vinil.

A cerveja foi apresentada no Estádio Castor Cifuentes e desenvolvida com elementos ligados ao Villa e à cidade. O leão, as cores do clube, referências visuais de Nova Lima e expressões utilizadas pelos torcedores aparecem em sua identidade.

A bebida também foi pensada para circular onde essa relação acontece: jogos no estádio, bares, restaurantes e distribuidores da região.

Ceará e Fortaleza na mesma cervejaria

Cerveja e futebol: Cervejaria Turatti fechou parceria com times de futebol do Ceará para desenvolver rótulos exclusivos e se aproximar das torcidas (Foto: Divulgação)
Cerveja e futebol: Cervejaria Turatti fechou parceria com times de futebol do Ceará para desenvolver rótulos exclusivos e se aproximar das torcidas (Foto: Divulgação)

Em Fortaleza, uma mesma cervejaria encontrou espaço dos dois lados de uma das maiores rivalidades do futebol nordestino.

A Turatti passou a produzir em 2025 rótulos licenciados de Ceará e Fortaleza. Cada clube ganhou sua própria cerveja, com identidade visual específica.

O projeto também tentou enfrentar um fenômeno comum às edições de clubes: a garrafa que o torcedor compra para guardar, mas não volta a consumir. Em entrevista ao Guia da Cerveja, a Turatti contou que reposicionou o preço dos produtos para ampliar o consumo e que o volume dos rótulos licenciados havia triplicado.

Goiás e Colombina: uma parceria com sotaque local

Um dos mais queridos da torcida, chope verde do Goiás EC, está à venda no estádio e é produzido pela Cervejaria Colombina (Créditos: Twitter/Goiás EC)
Um dos mais queridos da torcida, chope verde do Goiás EC, está à venda no estádio e é produzido pela Cervejaria Colombina (Créditos: Twitter/Goiás EC)

Em junho de 2025, a Cervejaria Colombina tornou-se patrocinadora do Goiás Esporte Clube e passou a abastecer os bares do Estádio Hailé Pinheiro, a Serrinha. A parceria segue ativa em 2026, com venda de cerveja e chope nos jogos, promoções e ações com a torcida.

A aproximação tem um componente regional forte. Criada em 2014 como a primeira linha de cervejas artesanais produzida no Estado de Goiás, a Colombina construiu sua identidade em torno do Cerrado e de ingredientes locais.

A relação com o clube também ganhou produtos próprios. Em 2026, a cervejaria atualizou o rótulo da cerveja do Goiás com um símbolo histórico do time e criou um kit presenteável com garrafa e taça personalizada, acomodadas em uma caixa cuja arte remete a um campo de futebol e à memória esmeraldina. Em partidas importantes, o pré-jogo chegou a ter período de chope liberado para a torcida — a cerveja deixou de ficar restrita à marca no uniforme para aparecer também na experiência de estádio.

Botafogo-SP: mil garrafas em 48 horas

Em 2018, ano do centenário do Botafogo de Ribeirão Preto, a Walfänger criou uma German Pilsner comemorativa para o clube. As primeiras mil garrafas esgotaram em 48 horas e um segundo lote, também de mil unidades, foi colocado à venda.

A parceria avançou no ano seguinte. Em 2019, a Walfänger inaugurou dentro do estádio Santa Cruz o Seo Tibério Futebol Bar, com vista para o gramado. Um mês depois da abertura, o espaço já havia recebido cerca de 7 mil pessoas.

Ribeirão Preto oferecia um cenário particularmente apropriado para a experiência. A cidade construiu uma história própria ligada à cerveja e ao chope e tem no Botafogo um de seus principais símbolos esportivos. A edição comemorativa e o bar colocaram essas duas tradições no mesmo espaço.

Coritiba e Internacional: títulos que viraram cerveja

Em 2015, nos 30 anos do título brasileiro do Coritiba, torcedores criaram a CoritIPA Hop. As primeiras 85 unidades participaram de uma ação relacionada ao ano da conquista de 1985. A ideia havia surgido em conversas entre torcedores apaixonados por cerveja em um bar diante do Couto Pereira.

No Rio Grande do Sul, uma cerveja lançada em 2014 homenageou o Internacional campeão brasileiro invicto de 1979. A referência precisou ser construída sem o uso oficial da marca do clube, que mantinha contrato comercial com uma grande cervejaria.

São projetos muito diferentes. Alguns nasceram de contratos de licenciamento, outros de patrocínios ou de cervejarias instaladas na mesma cidade dos clubes. E houve aqueles que começaram simplesmente porque um grupo de torcedores queria beber uma cerveja própria antes da partida.

Em mais de um século, mudaram os clubes, as cervejarias, as embalagens e a dimensão comercial do futebol. A vontade do torcedor de carregar suas histórias para fora do estádio permaneceu.

Às vezes elas aparecem em uma camisa, uma bandeira ou uma música de arquibancada. Em outras, cabem em uma garrafa na qual três maltes e três lúpulos são suficientes para lembrar que, durante 33 jogos, o maior rival não conseguiu vencer.

Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga é jornalista, comunicador e estrategista de content marketing B2B. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, tem MBA em Gestão de Marketing Digital e formação em empreendedorismo e Startup Education pelo Founder Institute. Ao longo da carreira, atuou em jornalismo, agências e empresas de tecnologia, em organizações como TV Globo, VML/Y&R e Meta. É Diretor de Marketing Digital do Guia da Cerveja.
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