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Guinness e Pabst têm cargas furtadas; por que a cerveja virou alvo?

Poderia até ser um filme de comédia, se não fosse assunto de polícia. Em agosto, duas grandes marcas de cerveja perderam cargas inteiras para ladrões: a americana Pabst, nos Estados Unidos, e a irlandesa Guinness, na Inglaterra. Cerca de um mês depois, ninguém foi preso e a cerveja não apareceu. E tudo foi feito, a princípio, sem uma só ameaça. Com aparência de total legalidade. Num caso, alguém se fez passar por quem deveria buscar a carga; no outro, dois caminhões passaram pela cancela do depósito e saíram com os reboques.

Há coincidências entre os casos. Duas marcas famosas, duas retiradas por caso, todas com ar de rotina. Mas, até agora, nada indica que um tenha relação com o outro. Mesmo assim, o raciocínio por trás da escolha do alvo pode ter sido o mesmo: cerveja é o tipo de carga que o ladrão consegue vender facilmente.

Papel falso de um lado, cancela aberta do outro

Nos Estados Unidos, o ladrão trocou a força pela papelada. Em 17 de agosto, dois furtos com uma hora de diferença levaram cargas de cerveja da Pabst de um centro de distribuição da Anheuser-Busch (dona da Budweiser), em Montclair, na Califórnia. 

No primeiro, US$ 45 mil em cerveja que deveriam seguir para Tucson, no Arizona, foram retirados e nunca chegaram ao destino. Os documentos eram falsos. No segundo, uma “suposta empresa subcontratada” apareceu com papéis igualmente frios e saiu com mais US$ 25 mil, segundo a Associated Press, agência de notícias americana.

Somadas, foram cerca de 34 mil latas da tradicional Pabst Blue Ribbon e da Old Milwaukee sem álcool, avaliadas em US$ 70 mil (cerca de R$ 360 mil). Paul Myers, diretor sênior de operações integradas de marketing da Pabst, resumiu o método à mídia: um bad actor (expressão inglesa para quem age de má-fé) “fingiu ser a pessoa que deveria retirar a cerveja e foi embora com ela”.

No Reino Unido, o roteiro lembra o de uma coleta comum: chegar, engatar, sair. E também foi rodado duas vezes. Em 31 de agosto, um caminhão pesado entrou às 19h45 num parque industrial em Runcorn, no noroeste da Inglaterra, engatou um reboque carregado de Guinness e saiu dez minutos depois. Às 21h12, chegou um segundo e fez o mesmo, segundo a polícia de Cheshire

As câmeras mostram o motorista descer, trocar breves palavras num prédio na entrada e ver as barreiras se levantarem. A polícia não divulgou o que foi dito e não fala em falsa identificação.

Sobraram os reboques, que apareceram vazios nos dois dias seguintes, em Skelmersdale, a cerca de 48 quilômetros dali; da cerveja, nem rastro. Ao todo, sumiram cerca de 880 barris, avaliados em £ 115 mil (cerca de US$ 155 mil ou R$ 800 mil), sem contar os reboques, segundo a polícia

Por que cerveja?

Porque o ladrão de carga pensa como comerciante: olha a demanda antes de escolher a mercadoria. Keith Lewis, vice-presidente de operações da Verisk CargoNet (base de dados sobre furto de carga nos Estados Unidos e no Canadá), disse à revista americana Inc: “Os bandidos são bons de marketing: sabem o que o consumidor vai comprar […] Vai ter jogo de futebol importante ou alguma celebração em que todo mundo vai querer uma cerveja? Isso faz a demanda subir e, quando a demanda sobe, o preço sobe”.

Cerveja rende menos pelo valor e mais pela liquidez (a facilidade de virar dinheiro). Não é carga de milhões, mas sempre há quem compre.

Os números mostram um ladrão que sabe onde apostar. Em 2025, a categoria de alimentos e bebidas teve a maior alta de furtos nos EUA e no Canadá, com 708 casos e aumento de 47%, segundo a Verisk CargoNet. Os dados não isolam a cerveja. Em 2026, o ladrão passou a mirar menos e escolher melhor: no segundo trimestre, os incidentes de furto de carga nos EUA e no Canadá caíram 26%, mas as perdas mais que dobraram, para US$ 304,6 milhões, segundo a Verisk, puxadas por metais e tecnologia. Alimentos e bebidas seguem entre os itens mais furtados do trimestre.

O papel falso, aliás, tem versão digital. Segundo a Verisk, a invasão de e-mails corporativos segue como principal porta de entrada de muitos dos esquemas mais sofisticados do trimestre: com acesso à conta, o criminoso pode se passar por parceiro de confiança e desviar a carga para outro destino.

E não é só a cerveja. A Nestlé informou que 413.793 barras de KitKat sumiram no caminho da Itália para a Polônia, em março, e chamou o furto de carga de “tendência criminosa cada vez mais comum”, segundo a Fortune.

Pabst fez piada, Guinness fez apelo

Para completar a comédia, a Pabst transformou o furto em campanha de humor. Nas redes, avisou que a cerveja estava “ficando mais quente” e a pista, “mais fria”, e deu ao ladrão “exatamente 18 dias e 44 minutos” (uma referência ao ano de fundação da cervejaria: 1844) para devolver “nossa carga de cerveja, sem perguntas”, segundo o Guardian. E com direito a nota de rodapé: “Isso é real e estamos falando muito sério”.

Depois, o CEO Greig DeBow ofereceu uma recompensa: até US$ 5 mil por informações até 9 de setembro e até US$ 20 mil depois dessa data, segundo a ABC News. O primeiro prazo passou, e nada da cerveja até agora.

Já a Guinness deixou o microfone com as autoridades. O sargento-detetive Gary McClatchey, da polícia de Cheshire, lembrou que “é famosa a frase de que ‘Guinness faz bem’, mas isso só vale quando ela foi comprada e paga”, e pediu que quem for procurado por vendedores de Guinness “permaneça cauteloso” e avise a polícia. A Diageo, gigante britânica dona da Guinness, não se pronunciou.

O apelo inclui uma testemunha improvável: um aluno de autoescola. Segundo a BBC, quando o segundo reboque foi deixado em Skelmersdale, acredita-se que o caminhão que o levava tenha saído na frente de um Renault Captur dirigido por um aprendiz. A polícia quer falar com ele ou com o instrutor para obter mais detalhes.

Ladrão que pensa como comerciante sabe vender. O que ele não planejou foi quem estaria olhando: se a cerveja voltar a aparecer, talvez seja por causa de um detalhe assim.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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