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Entrevista: Participação das ‘minorias’ precisa existir além do mote da diversidade

Ações práticas e maior participação como melhores respostas para comportamentos que buscaram frear a diversidade. É com essa visão que Leandro Sequelle, um dos fundadores da Graja Beer, avalia, em entrevista ao Guia, que deve acontecer a inclusão no setor de cervejas artesanais, com presença e atuação efetivas para ampliar a participação de nichos do mercado no segmento, permitindo o seu crescimento de forma consistente. 

Com a visão de quem atua a partir da periferia de São Paulo, Leandro Sequelle define como “levante” o agrupamento de iniciativas que ganharam luz no combate à discriminação de negros, mulheres, LGBTQ+ e de diversas outras minorias a partir de lamentáveis ataques expostos no segmento em 2020.

A discussão sobre a necessária inclusão no setor vinha ganhando força com o seu crescimento acelerado. E ganhou urgência com a revelação de comportamentos preconceituosos, alguns deles até então velados. E, para Leandro Sequelle, além de fortalecer as iniciativas de diversidade, também é preciso expandir as ideias para ações que envolvam lançamentos, impressões, análises, métricas de mercado, planejamento e marketing.

“Para 2021, o mercado como um todo precisará se reorganizar no pós-pandemia e caberá, nessas planilhas e organogramas sem fim, o olhar inclusivo. E como tenho dito em outros momentos, não apenas de olho na diversificação, mas, sim, na ampliação dos nichos de mercado e números de arrecadação”, ressalta.

Leandro Sequelle é um dos fundadores da Graja Beer, a autodenominada “cerveja da quebrada”, que está localizada no bairro Grajaú, periferia de São Paulo, além de ser membro da chapa eleita no ano passado para gerir a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) até outubro de 2022.

A nova gestão, por sinal, venceu uma eleição realizada após acontecimentos de preconceito racial envolvendo membros da diretoria anterior. Logo, entre as principais propostas do comando, está justamente a ampliação de atividades do núcleo de diversidade e a criação de vários outros, como os de tributação, negócios e acadêmico.

Assim, para 2021, com várias frentes de atuação, Leandro Sequelle promete foco em ações práticas, como na Graja, que tem atividades voltadas para minorias e agora pretende consolidar outras parcerias para expandir ainda mais os seus projetos e, consequentemente, o público alcançado. Para ele, afinal, só haverá crescimento do setor a partir do diálogo com os diferentes atores da sociedade.  

Leia também – Graja Beer abre espaço e amplia ações de capacitação e difusão do conhecimento

Confira, a seguir, a entrevista de Leandro Sequelle ao Guia:

Como avalia o ano de 2020 para a diversidade dentro do setor cervejeiro? Quais os impactos que a exposição de casos de preconceito trouxeram ao segmento? Como foi possível lidar com todo esse cenário?
O ano de 2020 trouxe à tona muito do que ficava escondido nos porões do conservadorismo – e não somente em nosso mercado. E, em um tempo tão globalizado e polarizado como este que vivemos, falas tão retrógradas como as vistas nos episódios ocorridos não passam mais batido. O mercado cervejeiro que por origem e história já é tão plural e diverso, como reflexo de nossa sociedade, também grita pela ampliação e redemocratização social. Isso já vinha ocorrendo a passos calmos com cervejarias como a Complexo do Alemão, Graja Beer, Vielas e outras espalhadas pelo Brasil. Em 2020, houve um levante e agrupamento dessas iniciativas, que ganharam luz, em parte para aliviar as mentes culpadas do mercado e, em parte, para de fato preparar terreno para um crescimento consistente e amplo em médio prazo.

Como o preconceito e a falta de pluralidade atrapalham o crescimento e a forma como ele é visto pela sociedade?
Um dos pontos importantes a serem refletidos está na forma como nós mesmos entendemos a diversidade dentro da nossa sociedade. Vivemos em um país onde 56,1% da população se intitula negra, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Já as mulheres são 51% da população. E é evidente o porcentual ínfimo de participação de mulheres e negros dentro do mercado. Se ampliarmos a lupa, para população LGBTQI+, indígenas, portadores de necessidades especiais, etc., esses números se tornam menores ainda. A ausência dessas parcelas dentro do mercado é uma lacuna do próprio segmento craft, que luta por um crescimento e não passa muito dos 2,3% de representatividade cervejeira. É uma escolha para o segmento se manter assim, ou de fato dialogar com a sociedade.

Ampliar a diversidade no setor parece um desafio urgente. O que esperar nessa área para os próximos meses?
Para 2021, o mercado como um todo precisará se reorganizar no pós-pandemia e caberá, nessas planilhas e organogramas sem fim, o olhar inclusivo. E, como tenho dito em outros momentos, não apenas de olho na diversificação, mas, sim, na ampliação dos nichos de mercado e números de arrecadação.

Quais aprendizados e ações concretas o setor deve levar dos desafios do ano passado para o recém-iniciado?
É preciso fortalecer as pontes que foram criadas. Houve muita gente dando espaço para produtores dentro do mote diversidade exporem suas ideias e é fundamental que continuem existindo além da pauta diversidade. Precisamos falar de lançamentos, impressões e análises sensoriais, métricas de mercado, planejamentos e ações de marketing. Aí, sim, estaremos incluídos no mercado. Termos eleito, dentro da maior associação cervejeira do país, uma diretoria plural já é um passo gigante para manutenção e ampliação da pauta.

Como foi a atuação da Graja Beer no ano passado em meio a tudo o que aconteceu? Quais foram as mudanças mais impactantes para a cervejaria?
Estamos, quanto cervejaria na periferia, dialogando diretamente com as camadas de invisibilidade há cinco anos e não houve muita novidade para nós nos fatos ocorridos. Acreditamos que a cultura cervejeira artesanal é uma ferramenta incrível de transformação e educação, e isso não apresenta resultados concretos do dia para a noite. Seguimos com vários projetos e ações, devagarinho. Tivemos muitos momentos de falas em 2020 e podemos avançar em projetos e parcerias que já estávamos desenvolvendo antes da pandemia. Agora, é maturar os resultados.

Até pela pandemia, a Graja Beer precisou paralisar suas atividades durante meses no ano passado. Como estão os planos para 2021?
Terminamos o ano com o adiamento para 2021 da primeira turma do curso de capacitação cervejeira para a periferia em parceria com a Heineken e o Instituto da Cerveja Brasil. Acreditamos muito nessa ação. Um dos principais planos é, de fato, multiplicar a experiência Graja Beer em nosso território, e ver o surgimento de outras marcas, profissionais e pubs locais. Também em 2020 demos start no Graja Comedy, que faz parte de nosso leque de ações na Graja Beer Pub, que traz o stand-up comedy como ferramenta de cultura e transformação social. Pretendemos ampliar o projeto e desenvolver mais ações com a comunidade LGBTQI+, mulheres, negros e mais. Como marca, acreditamos que tiramos do papel algumas das colaborativas travadas em 2020, e vamos investir no lançamento de novos rótulos tanto para o mercado cervejeiro tradicional, quanto o periférico. Há muita coisa legal por vir.

Pode detalhar mais sobre essas parcerias que estão sendo consolidadas?
Ubuntu! Eu sou o que sou porque nós somos. A Graja Beer não representa o Grajaú, pela sua dimensão territorial, humana e cultural, mas é representada pelo Grajaú em suas ruas, expressões e produções. Nossas parcerias seguem diversas. Nosso trabalho traz na cervical a cultura cervejeira (com todo respeito às suas origens e escolas) e dialoga com as pessoas que nos rodeiam, sejam cervejeiras ou não! Dentro do mercado, há muito sendo criado, mas que fica para as próximas pautas.

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