A mestre cervejeira e Beer Sommelier Rozilene Alves de Sá, de 46 anos, é reconhecida pela sua atuação profissional que a levou a Gerente Corporativa de Produção da Heineken, onde atua há pouco mais de dois anos. Rozi tem certificação internacional como Brewmaster pela World Brewing Academy e é diplomada como Beer Sommelier pelo Instituto da Cerveja Brasil.
A trajetória de sucesso foi marcada por experiências de vida que a levaram a defender a diversidade e a inclusão, além de incentivar e inspirar pessoas em projetos de mentoria.
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Virada de chave
Foi a partir de uma “virada de chave” que Rozilene, bacharel em Química, se assumiu capaz de liderar a produção de cervejas da Heineken. Se, antes, a sensação era de ter que dar sempre o melhor e vencer, agora ela colhia os frutos de uma carreira solidamente construída – mas precisou do olhar do outro, encorajando, para conseguir ver a própria potência.
Isso não aconteceu porque Rozilene não conhecia a sua capacidade, mas porque foi levada a duvidar do que sentia. “Antes, a sensação era de que eu corria apenas para dar o meu melhor e vencer. Essa mudança só aconteceu porque ouvi, repetidamente, das pessoas ao meu redor, de que eu poderia fazer a diferença. Infelizmente, não partiu de mim, talvez por uma Síndrome do Impostor. Acho importante compartilhar isso, porque hoje, com maturidade, reconheço meu potencial e não o ignoro, mas nem sempre foi assim”, diz.
A “Síndrome do Impostor” é um fenômeno psicológico que leva a pessoa a duvidar de si mesma, e a se sentir uma fraude – não porque existam limitações reais, mas porque a pessoa é levada a acreditar nisso ao longo de anos de construção de uma identidade profissional, geralmente minada por preconceitos. No caso da Rozi, houve um peso de gênero e raça.
Foi a partir dessa percepção e da construção da autoconfiança que Rozilene se viu capaz de assumir o que chamou de “um grande desafio”: construir, do zero, uma área de processos de produção cervejeira. Foi preciso contratar 80% do time no mercado, treinar, iniciar a produção e performar. “Esse projeto trouxe muitos aprendizados, e o maior deles foi perceber que não se tratava apenas de fazer cerveja, mas de entender que a base de tudo são as pessoas”, reflete.
‘Inspirar pessoas e transformar ambientes’
Em sua descrição profissional, Rozi se diz “apaixonada por inspirar pessoas e transformar ambientes”. E, ao conhecer a sua vivência pessoal, é possível perceber o que trouxe para Rozilene a sagacidade para entender que são as pessoas que constroem os processos – seja em empresas, nas famílias, ou na sociedade. Ela sabe o que é vivenciar o apoio de outras pessoas para se ver em toda a sua potência, porque foi assim que aconteceu com ela, e sabe o quanto pode contribuir, a partir desta potência, para o processo de trabalho na empresa.
No caso de Rozilene, pesa o fato de ter iniciado a construção da carreira em 2001, época em que o ambiente cervejeiro era majoritariamente masculino. Além disso, ela carrega a experiência de viver em um país racista, que naturaliza o julgamento do valor de uma pessoa pela cor de pele.
“Quando comecei minha trajetória no mercado cervejeiro, em 2001, era um ambiente majoritariamente masculino. Ser mulher e mulher negra significava enfrentar barreiras invisíveis todos os dias”, conta.

Sem tempo para detalhar os desafios, porque quem os enfrenta só quer deixá-los para trás, Rozilene afirma que os encarou como oportunidades para abrir portas. “Queria mostrar que é possível ocupar espaços que antes pareciam inalcançáveis. Era sobre coexistir e transformar”, conta.
“Hoje avançamos muito, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Temos mais mulheres presentes, mais vozes sendo ouvidas, e isso é fruto de coragem, união e iniciativas que promovem a diversidade. A jornada é contínua”, fala.
“Cada conquista feminina nesse setor é um passo para todas nós, e eu vibro quando vejo uma mulher crescer, evoluir e ser reconhecida”, conta Rozilene.
Apoio e mentorias
Rozilene divide o tempo entre a vida pessoal, as corridas, o trabalho, e o comprometimento em inspirar e apoiar outras mulheres, seja por meio de projetos, mentorias ou outras ações. Recentemente, ela participou de um projeto que levou conhecimento cervejeiro a mais de 550 mulheres. Além disso, faz mentorias para profissionais que desejam crescer na indústria.
Ela conta que a experiência com mentoria começou com convites para palestras internas e evoluiu para programas estruturados. Ela vê nessas iniciativas “impactos positivos enormes”.
“A troca de experiências fortalece minha visão de liderança e traz uma satisfação imensa ao ver talentos crescerem, sendo um verdadeiro combustível para o meu propósito”, conta.
Desde 2016, atua como professora em temas técnicos relacionados a todas as etapas do processo cervejeiro, incluindo matéria-prima, brassagem, fermentação e filtração. “Acredito que a melhor forma de contribuir para o mercado é formando pessoas, porque conhecimento só tem valor quando é compartilhado e quando cria conexão”, relata.
‘Filha’ de Nortelândia, cria de escola pública, formada da Federal
A jornada de Rozilene Alves de Sá começou em Nortelândia, um município no estado de Mato Grosso com aproximadamente 6 mil habitantes, onde nasceu há 46 anos.
A infância foi marcada por brincadeiras de rua, mas com tempo delimitado – a partir dos 9 anos, ela já ajudava o pai, que era comerciante na cidade.
Ela estudou nas escolas públicas de Nortelândia até concluir o ensino fundamental. Ao ingressar no ensino médio, mudou de cidade e foi morar com um casal amigo da família.
Ao decidir que queria estudar na Escola Técnica Federal do Mato Grosso, se dedicou à preparação solitária na biblioteca da escola, usando livros emprestados e sonhando com a aprovação. Ali, Rozilene já desenhava dentro de si a perseverança que teria que desenvolver ao longo da vida. A preparação deu certo, e ela foi aprovada no curso técnico de Química.
Este foi o início do caminho profissional. A partir do curso técnico, Rozilene continuou estudando e foi aprovada no vestibular de Química da Universidade Federal do Mato Grosso. Foi quando ela desenvolveu habilidades analíticas e técnicas, além de adquirir conhecimentos, que se tornaram a base da vida profissional. “Acredito que ter uma base sólida nos dá segurança para trilhar os próximos passos com autoconfiança”, reflete.
Universo cervejeiro
O universo cervejeiro entrou na vida de Rozilene Alves de Sá pela porta do interesse pela área de qualidade e pelos processos industriais. Foi estagiária de Qualidade em 2001, quando teve o primeiro contato com a rotina de análises, padrões produtivos e controles que sustentam a fabricação de bebidas.
“Esse período reforçou minha afinidade com o ambiente produtivo e me levou a assumir, logo na sequência, a posição de Técnica Química no laboratório de envase, onde aprofundei meu conhecimento em análises de produto acabado e embalagem”, relembra.
Foi a partir dessa base técnica que Rozilene começou a buscar especializações voltadas diretamente para a cerveja. “Ao longo dos anos, evoluí de funções laboratoriais para posições de supervisão e depois para áreas de processo dentro da cervejaria, sempre com foco em qualidade, padronização e entendimento profundo das etapas de produção”, diz.
O desenvolvimento formal incluiu formações técnicas voltadas para tecnologia cervejeira, o que ela classifica como fundamentais para consolidar a atuação em áreas como brassagem, fermentação e filtração.

“Esse conjunto de experiências e qualificações me abriu portas para atuar como especialista de processo em nível corporativo, atendendo diferentes unidades no Brasil e em outros países da América do Sul”, fala
Desde então, Rozilene não parou mais de estudar. Ela conta que continua se aprofundando tecnicamente, seja em metodologias de gestão, controle de qualidade ou tecnologias cervejeiras.
“Foi isso o que sustentou minha evolução até chegar às funções de mestre cervejeira, especialista corporativa e atualmente gerente corporativa de Cerveja e Master Brewer na Heineken Brasil”, fala.
Especializações
Rozilene conta que, quando ingressou na indústria cervejeira como estagiária, teve como objetivo adquirir cada vez mais conhecimento técnico. Foi a partir de muito trabalho e dedicação, que ela pode fazer, em 2004, o curso técnico cervejeiro no Senai Vassouras. “Ao final, fui classificada com a maior nota do Brasil, e ali nasceu minha paixão por estudar sobre cerveja e me conectar com profissionais experientes do setor”, relembra.
Esse foi o primeiro passo para, no futuro, ingressar na formação de Mestre Cervejeira (Siebel e Doemens). Mas os desafios ainda estavam impostos – formação exigia proficiência em inglês.
“Em 2007, fui indicada para participar do processo seletivo dessa formação, que exigia proficiência em inglês. Para superar essa barreira, me dediquei intensamente: aulas seis vezes por semana e um intercâmbio no Canadá. Esse esforço resultou na minha aprovação”, conta.
Em 2008, Rozilene Alves de Sá foi para Chicago fazer o curso de Mestre Cervejeira. Em uma turma de 25 alunos, havia apenas ela e mais uma mulher, sendo ela a única brasileira.
“Essa experiência plantou em mim a certeza de que eu poderia abrir portas. No mesmo ano, concluí a formação em Chicago e na Alemanha, em escolas reconhecidas mundialmente pela excelência em ciência cervejeira, obtendo nota A+”, comemora.
A vivência internacional foi transformadora. Rozilene relembra a adaptação ao idioma, o contato com diferentes culturas e a troca com profissionais de diversos países. Essas experiências ampliaram a visão dela sobre o universo cervejeiro.
“Saí da minha bolha e descobri novas possibilidades. Foi um período desafiador, mas extremamente enriquecedor. Além do conhecimento técnico, construí amizades para a vida”, conta.
Para ela, os maiores reconhecimentos são a soma de pequenas conquistas, não apenas um troféu. “Elas se traduzem em falas de pessoas que fizeram parte dessa trajetória e que refletem meu propósito e legado, como ‘Rozi, comecei a estudar cerveja por causa de você.’, ou ‘Você me inspirou a seguir para a área de produção’, ou ‘Você me mostra que nunca devemos ignorar nosso potencial’”, conta
Para ela, essas mensagens mostram que a jornada vale a pena. “Isso nenhum troféu é capaz de traduzir”, conta.



Que linda história de foco e perseverança, Rozi. Parabéns! E sucesso sempre!