A Guinness, tradicional cerveja Stout irlandesa, está passando por uma nova e inesperada fase de popularidade. A cerveja se tornou estrela de desafios que viralizaram nas plataformas de redes sociais em todo o mundo, o que está impulsionando o consumo e trazendo maior visibilidade à bebida para além dos pubs.
O sucesso da Guinness nas redes sociais tem sido impulsionado por desafios e rituais que transformam o ato de beber em conteúdo compartilhável. Veículos internacionais especializados como o VinePair, The Independent e The Drinks Business têm noticiado e analisado esse fenômeno cultural e comercial.
A ascensão da Guinness no digital é orgânica e passa longe de grandes planejamentos de marketing — ou seja, é o público que está levando a cerveja à ascensão e à nova popularidade. O resultado foi um recorde inesperado de vendas que, segundo a CNN, levou os pubs a temerem ficar sem estoque da bebida.
“Split the G” (Divida o G)
Um dos desafios mais viralizados ficou conhecido como “Split the G” (que, em tradução livre, significa divida o “G”). Esta tendência consiste em dar um primeiro (grande) gole no pint de Guinness até que a linha entre o líquido escuro e o famoso creme branco se posicione de maneira exata com o centro da letra “G” impressa no copo oficial.
É um desafio bem difícil e, ao mesmo tempo, divertido, já que a tendência é que se beba menos ou mais do que a linha imaginária.
Mas, por que isso se tornou viral? Especialistas em marketing e conteúdo digital afirmam que a força do “Split the G” está em sua simplicidade e alto valor visual. O desafio transforma um momento comum de consumo em uma competição social, potencializada pelo alcance dos vídeos.
Se, antes, brincadeiras com bebidas ficavam circunscritas a quem dividisse a mesa de bar (ou de casa, entre amigos), agora não há limites físicos para compartilhar essa experiência. A graça está em filmar e compartilhar as tentativas e sucessos, o que representa um volume significativo de publicidade gratuita e autêntica, conhecida como earned media.
A origem dessa brincadeira ainda é debatida, mas não se originou da equipe de marketing da Guinness, já que a marca nunca lançou uma campanha de marketing para “Dividir a G”. Especialistas até dizem que, se a Guinness tentasse criar uma versão comercializada da experiência, o resultado poderia levá-la ao constrangimento, comum às marcas que tentam forçar uma identificação com o público.
Em vez disso, a Guinness focou em fortalecer a cadeia de suprimentos para garantir que, à medida que a popularidade crescesse, sempre haveria um copo e um barril para satisfazer a experiência do cliente-fã.
Guinness na variação “60/40”
Outra tendência que ganhou visibilidade é o pint “60/40”. Essa variação reflete uma mudança no comportamento do consumidor, que busca bebidas com menor teor alcoólico. A receita é simples: uma mistura de 60% da Guinness 0.0 (a versão não alcoólica) com 40% da Guinness tradicional, resultando em uma stout híbrida com cerca de 1,7% de álcool por volume.
A tendência gerou forte controvérsia na comunidade cervejeira, sendo vista por alguns como uma inovação inteligente e por outros como um “sacrilégio” à receita centenária.
No entanto, é exatamente essa polarização que alimenta o debate e o engajamento massivo nas plataformas digitais, mantendo a marca em evidência. Afinal, todo mundo quer comentar o que acha da mistura.
A estética e o ritual como fatores de sucesso
O fascínio das redes sociais pela Guinness é mais profundo do que modismos passageiros. Analistas de mercado apontam que a cerveja possui características intrínsecas que a tornam naturalmente atraente para o consumo de mídia.
Em primeiro lugar, eles destacam que a estética da cerveja é um grande diferencial. Afinal, o contraste dramático entre o corpo escuro e a espuma cremosa branca se alinham com o “efeito cascata”, processo visual que ocorre enquanto o líquido se acerta no copo enquanto está sendo servido. Todo esse contexto fornece uma experiência visual ideal para vídeos curtos e impactantes. Ou seja, sucesso garantido.
Em segundo lugar, o ritual de serviço da Guinness, com sua exigência de um despejo lento e em duas etapas, cria um elemento de performance ou “teatro” no bar. Esse processo, que leva cerca de 120 segundos para ser concluído, se alinha perfeitamente com a narrativa de conteúdo digital. Nesse aspecto, a experiência é tão valorizada quanto o produto final. E isso traz mais elementos à degustação dessa cerveja — ou seja, além do paladar, o visual também agrada.
Ao capitalizar a autenticidade de sua história, enquanto permite que seus consumidores criem e conduzam as tendências, a Guinness demonstrou a capacidade de uma marca centenária de se manter relevante e prosperar na dinâmica cultural da era digital.



