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Miles Davis aos 100: como Bitches Brew saiu do jazz e foi parar na cerveja

No ano do centenário do trompetista, o Guia da Cerveja revisita um dos discos que mudaram os caminhos do jazz e as homenagens que levaram sua obra também para rótulos e receitas de cerveja

Miles Davis completaria 100 anos em 2026. Morto em 1991, o trompetista atravessou diferentes períodos do jazz, ajudou a mudar os rumos do gênero mais de uma vez e deixou uma obra que continua circulando muito além das fronteiras da música. Seu centenário vem sendo celebrado ao longo do ano com shows, exposições, novos lançamentos e projetos em diferentes áreas da cultura.

Um dos discos centrais para entender essa trajetória é Bitches Brew, lançado em 1970. A palavra brew, familiar a qualquer cervejeiro, pode designar tanto o ato de preparar uma bebida, como cerveja, café ou chá, quanto o resultado desse preparo. Décadas depois, o título ganharia uma interpretação bastante literal fora da música, com receitas criadas em homenagem ao trompetista nos Estados Unidos, Europa e Brasil.

A conexão mais conhecida veio em 2010. Para marcar os 40 anos de Bitches Brew, a americana Dogfish Head trabalhou com a Sony em uma cerveja que buscava traduzir parte daquele espírito para o copo: três partes de Imperial Stout combinadas a uma cerveja de mel produzida com gesho, planta tradicionalmente utilizada em bebidas fermentadas na Etiópia. A criação levou para o rótulo a arte de Mati Klarwein, a mesma que tornou a capa do álbum uma das imagens mais reconhecíveis da discografia de Miles Davis.

O projeto acabou registrado pelo Discovery Channel e virou o primeiro episódio de Brew Masters, série protagonizada por Sam Calagione, fundador da Dogfish Head. A equipe precisava desenvolver a receita, produzir e despachar 50 mil garrafas a tempo das comemorações.

No ano em que Miles Davis completaria um século, essa ligação com a cerveja serve como ponto de partida para revisitar Bitches Brew, o ambiente em que o disco surgiu, os músicos reunidos naquelas sessões e o legado de um artista cuja influência continuou encontrando novos públicos e outras formas de expressão.

Três dias depois de Woodstock

Miles já era uma figura central do jazz quando entrou no Studio B da Columbia Records, em Nova York, nos dias 19, 20 e 21 de agosto de 1969. Woodstock havia terminado naquela mesma semana.

O mundo da música popular mudava rapidamente. Rock, psicodelia, soul e funk ocupavam cada vez mais espaço entre uma geração que não necessariamente organizava sua escuta pelas fronteiras tradicionais dos gêneros. Miles prestava atenção a esses movimentos e também vinha transformando a própria música.

Meses antes, In a Silent Way já havia levado seu trabalho para um território mais elétrico. Em Bitches Brew, essa transformação ganhou outra escala.

Miles reuniu alguns dos músicos mais importantes daquela geração: Wayne Shorter no sax soprano, Bennie Maupin no clarone (clarinete baixo), John McLaughlin na guitarra, Chick Corea, Joe Zawinul e Larry Young nos teclados, Dave Holland e Harvey Brooks nos baixos, além de Jack DeJohnette, Lenny White e Billy Cobham na bateria e Don Alias, Juma Santos e Airto Moreira na percussão.

A formação fugia do conjunto convencional. Em determinados momentos havia dois baixos, vários teclados, baterias e percussionistas trabalhando simultaneamente sobre longos blocos de música, repetições e improvisações.

O produtor Teo Macero teve papel decisivo no resultado. As sessões conduzidas por Miles eram abertas e extensas, e parte da construção das faixas aconteceu posteriormente, com edição, cortes, repetições e montagem das gravações. O estúdio tornou-se, assim, mais um instrumento na elaboração do álbum.

O resultado chegou às lojas em 30 de março de 1970 como um disco duplo, com seis faixas: Pharaoh’s Dance, Bitches Brew, Spanish Key, John McLaughlin, Miles Runs the Voodoo Down e Sanctuary.

Era um trabalho exigente mesmo para quem já acompanhava Miles. Algumas faixas passavam dos 20 minutos e a estrutura estava distante das formas mais familiares do jazz daquele período.

Como Bitches Brew ganhou esse nome

Para quem vem do universo cervejeiro, brew é uma palavra cotidiana. O verbo to brew está ligado ao preparo de cerveja e também de bebidas como café e chá; como substantivo, brew pode designar a própria bebida ou preparação. Em inglês, a palavra também admite usos mais amplos relacionados a uma mistura ou combinação.

É tentador, portanto, associar o título à própria música do álbum, construída a partir do encontro entre diferentes músicos, instrumentos e influências. A história conhecida do nome, porém, não permite afirmar que Miles tenha pensado dessa forma.

Em 14 de novembro de 1969, meses antes do lançamento, Teo Macero enviou um memorando para seus superiores na Columbia. Miles havia telefonado dizendo que queria chamar o novo álbum de Bitches Brew. O produtor comunicou a escolha e pediu orientação.

O nome foi mantido, mas sua origem nunca ganhou uma explicação definitiva. Ao longo das décadas surgiram interpretações diferentes sobre o que Miles pretendia dizer, sem que uma delas tenha encerrado a discussão.

A Columbia também aprovou a pintura de Mati Klarwein para a capa. Nascido na Alemanha e conhecido por trabalhos que misturavam surrealismo, psicodelia e referências de diferentes culturas, o artista criou uma imagem de corpos, rostos, água, fogo e formas que se encontram e se transformam.

A capa se tornaria inseparável do álbum e uma das imagens mais reconhecidas da discografia de Miles.

A música também dividiu opiniões. Bitches Brew encontrou resistência entre parte do público e da crítica ligada ao jazz, enquanto alcançava ouvintes que não necessariamente acompanhavam o gênero. O álbum ultrapassou 100 mil cópias vendidas ainda em seus primeiros meses, desempenho incomum para um lançamento de jazz naquele período, e Miles Davis passou a aparecer com mais frequência em espaços compartilhados com artistas do rock.

Em 1971, Bitches Brew venceu o Grammy de Melhor Performance de Jazz por Grupo Grande ou Solista com Grupo Grande. Décadas depois, entraria para o Grammy Hall of Fame.

Sua influência também pode ser percebida nas carreiras que saíram daquelas sessões. Joe Zawinul e Wayne Shorter formariam o Weather Report. John McLaughlin criaria a Mahavishnu Orchestra. Chick Corea seguiria com o Return to Forever. Três projetos fundamentais para o desenvolvimento da fusão entre jazz e outras linguagens durante os anos 1970.

Por que Bitches Brew ainda importa

A liberdade concedida aos músicos durante as gravações é uma das características que ajudam a explicar a importância do álbum. Para o guitarrista e compositor Lupa Santiago, especialista em jazz, e apresentador da Rádio Eldorado, Miles Davis estava disposto a experimentar uma forma de criação menos dependente de estruturas previamente definidas, abrindo espaço para o improviso e para o encontro de diferentes linguagens musicais.

“Era um disco muito solto, pouca composição escrita, era mais improviso mesmo”, explica Santiago. “As músicas antes tinham mais formas, tinham mais contexto escrito. Essa daí tinha muito pouco contexto escrito. Era mais ‘vamos ver o que acontece ali na hora mesmo’.”

Na avaliação do músico, Bitches Brew representa um momento decisivo da passagem para o jazz fusion. Os instrumentos elétricos, as guitarras com distorção e a aproximação com a psicodelia e o rock apontavam para caminhos que seriam explorados por muitos dos próprios participantes das sessões. Miles percebia essas transformações e tinha uma capacidade particular de reunir instrumentistas preparados para experimentá-las.

Essa habilidade também ajuda a dimensionar sua influência sobre o jazz do século XX. Santiago lembra que o trompetista esteve associado a mudanças importantes do gênero e que muitos dos artistas que passaram por suas formações construíram trajetórias extraordinárias. Entre eles estão John Coltrane, Herbie Hancock, Chick Corea, Keith Jarrett, John McLaughlin e Jack DeJohnette.

“Ele tinha uma capacidade imensa de juntar as pessoas, de trazer os melhores músicos. Tanto que todo mundo que tocou com o Miles depois teve uma carreira muito sólida”, afirma.

Bitches Brew virou cerveja 40 anos depois

A homenagem da Dogfish Head, em 2010, foi além do uso do nome e da capa do álbum. A cervejaria procurou construir a referência também na receita.

A Bitches Brew combinava três partes de Imperial Stout com uma parte de cerveja de mel com gesho. A planta é utilizada há séculos na produção de bebidas fermentadas na Etiópia e entrou no projeto como parte das referências africanas buscadas pela Dogfish Head.

A arte de Mati Klarwein reapareceu no rótulo, autorizada para a edição comemorativa. Sam Calagione chegou a recomendar que a cerveja fosse servida em taça, fresca em vez de excessivamente gelada, enquanto o disco tocava. O lançamento ocorreu em 2010 dentro das comemorações pelos 40 anos de Bitches Brew.

O projeto ganhou ainda mais visibilidade com Brew Masters. O programa do Discovery acompanhava Calagione e sua equipe na criação de cervejas e escolheu justamente a Bitches Brew para o episódio de estreia.

Miles continuaria aparecendo em outros rótulos nos anos seguintes. Kind of Blue, provavelmente seu disco mais conhecido, inspirou cervejas de diferentes produtores. A americana Alesong Brewing & Blending lançou uma blonde ale maturada em carvalho francês e refermentada com blueberries com esse nome. A Jackie O’s Brewery usou a mesma referência em uma Imperial Chocolate Milk Stout.

Em 2026, ano do centenário de Miles, a inglesa DEYA Brewing Company produziu a Kind of Brew, uma Hazy Pale Ale criada em parceria com o Cheltenham Jazz Festival, que chegou à sua 30ª edição neste ano.

A referência também apareceu no Brasil. A Cervejaria Escafandrista, de São Paulo, já lançou sua própria Kind of Blue, levando a homenagem para a produção artesanal brasileira.

Os nomes escolhidos por cervejarias ao longo dos anos percorrem justamente alguns dos trabalhos mais conhecidos da carreira do trompetista. Kind of Blue, Bitches Brew e outras referências ao repertório mostram como a obra de Miles passou a integrar um vocabulário cultural reconhecível mesmo fora do jazz.

Um século de Miles Davis

Bitches Brew representa apenas uma parte de uma carreira que passou por diferentes momentos do jazz ao longo de quase cinco décadas.

Antes da experiência elétrica do final dos anos 1960 e dos anos 1970, Miles havia participado da efervescência do bebop, esteve entre os nomes associados à formação do cool jazz, trabalhou com Gil Evans em projetos orquestrais e gravou, em 1959, Kind of Blue, álbum que se tornou uma das principais portas de entrada para o jazz.

O centenário organizado pelo espólio de Miles em 2026 procura recuperar essa amplitude. A programação Miles Davis 100 reúne música, artes visuais, moda e outras áreas influenciadas pelo artista, enquanto instituições e festivais vêm dedicando concertos e projetos à sua obra ao longo do ano.

Miles morreu em 28 de setembro de 1991, aos 65 anos, deixando uma discografia que continua sendo descoberta por ouvintes que sequer eram nascidos quando ele tocou pela última vez.

Entre tantas portas possíveis para entrar nessa obra, Bitches Brew permanece como uma das mais desafiadoras. O título que causou dúvida dentro da Columbia em 1969 atravessou décadas, virou referência para músicos, artistas e também cervejeiros. Em 2026, quando Miles Davis completaria 100 anos, o disco continua oferecendo caminhos diferentes para quem decide entrar.

Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga é jornalista, comunicador e estrategista de content marketing B2B. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, tem MBA em Gestão de Marketing Digital e formação em empreendedorismo e Startup Education pelo Founder Institute. Ao longo da carreira, atuou em jornalismo, agências e empresas de tecnologia, em organizações como TV Globo, VML/Y&R e Meta. É Diretor de Marketing Digital do Guia da Cerveja.
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