Em 1989, aos 25 anos, Sady Homrich viveu uma cena que hoje soa como roteiro. Já era baterista de uma banda conhecida em todo o país, mas seguia pegando ônibus para a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), onde tentava fechar as últimas cadeiras de Engenharia Química. Numa dessas viagens, “Astronauta de Mármore” saiu do radinho do cobrador. Tocava em FM, tocava em AM, tocava em toda parte. O “Nenhum de Nós” acabava de lançar o segundo disco, Cardume, e aquele jovem ruivo sentado no banco ainda tentava entender como acomodar, numa vida só, dois futuros que avançavam ao mesmo tempo.
“Eu tinha uma dicotomia, só que eram duas coisas de que eu gostava. Não queria largar a engenharia, porque a música era uma incerteza, mas também não queria deixar passar a oportunidade da música”, diz.
Por um tempo, não largou nenhuma das duas. Fazia faculdade, estágio numa fábrica de celulose e papel perto de Porto Alegre (RS), tocava à noite e guardava os dias de ensaio como quem guarda um compromisso inegociável. Atrasou-se em relação à turma original, mas insistiu até setembro de 1989, quando finalmente se formou. Àquela altura, como ele mesmo diz, a música já o havia abduzido.
Só que havia uma terceira história correndo por baixo, e ela vinha de cinco anos antes. Antes de “Astronauta de Mármore”, antes do primeiro disco, antes mesmo de existir “Nenhum de Nós”, o futuro baterista já colocava malte numa panela na cozinha da mãe.
O primeiro aroma
A cerveja chegou pela família antes de chegar pela química. E, antes da cerveja, chegou um cheiro. A lembrança mais antiga que Sady guarda com nitidez é a de correr para abrir a porta da casa dos avós, em Pelotas (RS), e dar de cara com o avô materno: charuto no canto da boca, uma sacola cheia de saquinhos de pipoca na mão e um apelido pronto para o neto ruivo. “Ah, Foguinho! O vô trouxe coisa boa pra vocês.” O cheiro daquele charuto nunca mais o deixou; e talvez explique boa parte do que veio depois.
Na mesma casa, a cerveja tinha hora marcada. Não era bebida de todo dia nem de todo fim de semana: aparecia nas festas, no Natal, no Ano Novo, precedida pelo antigo costume de guardar um engradado num galpão escuro à espera da data certa. A espera também fazia parte do sabor.
E vinha cercada de histórias. O tio-avô Ubaldo repassava o que havia aprendido com o próprio avô, Adolpho, sobre os irmãos que vieram da Alemanha e abriram uma cervejaria no interior, em Cachoeira do Sul (RS): a Rodolpho Homrich & Irmão. Daquele tempo restou um abridor personalizado, que o baterista mantém como relíquia, prova material de que a cerveja é assunto de família há mais de um século.
“Meu avô tinha algumas preferências. Ele sempre procurava uma cerveja legal para ter no Natal, no Ano Novo. Aquilo gerava assunto cervejeiro”, conta.
Quando começou a beber, aquela infância atenta a aromas virou método sem que ele percebesse. Notava que rótulos supostamente idênticos não eram idênticos: a mesma marca mudava de gosto conforme a fábrica que a produzia, e ele reconhecia a diferença entre cervejas feitas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, em São Paulo ou no Rio de Janeiro. “Quando todo mundo achava tudo igual, eu notava diferença.”
Não havia treinamento sensorial, vocabulário técnico nem guia de estilos para organizar aquela percepção. Havia curiosidade e um nariz educado desde os saquinhos de pipoca.
A Engenharia Química deu método à curiosidade. Durante o curso, Sady estudou os processos industriais e visitou uma fábrica da Brahma numa época em que ainda era possível ver fermentação aberta. A cena deixou uma pergunta simples: se cerveja é um processo químico conhecido, por que não tentar reproduzi-lo em casa?
Em 1984, tentou. A distância entre aquela cozinha e o homebrewing de hoje cabe dentro de uma velha lata de banha. “Eu me lembro que a quantidade de água era dada em uma lata de banha. Uma lata de banha era de 18 litros.”
As receitas circulavam como receitas de família, atribuídas a um avô, a uma avó, a um colono vizinho que não tinha dinheiro para comprar cerveja e por isso aprendeu a fazer. Entravam malte moído, açúcar, fermento de pão, casca de quilaia e lúpulo quando havia. Os insumos vinham de agropecuárias ou de casas de artigos religiosos, que também produziam e vendiam para suas oferendas. Algumas garrafas estouravam. O lúpulo, quando aparecia, chegava velho, oxidado. Era o que existia.
Logo o estudante começou a interferir no processo. Em vez de recorrer ao caramelo para escurecer a cerveja ou puxar um tom avermelhado, passou a tostar mais o próprio malte e a observar o que acontecia no copo. “E assim começou a função”, resume. “Não tinha acesso à matéria-prima. Levedura, nem se fala. Era raríssimo. Ou tinha algum velho que tinha feito cerveja alguma vez, mas não se falava nisso.”
O movimento artesanal brasileiro ainda levaria anos para ganhar fornecedores, mercado e público. A banda chegaria antes.
Faculdade, contracultura e uma fita demo
O “Nenhum de Nós” nasceu em 1986, dois anos depois das primeiras panelas. Sady Homrich lembra a Porto Alegre da metade dos anos 1980 como parte de uma efervescência que passava pelo rock, mas não parava nele. Teatro, cinema e artes plásticas dividiam espaço com uma geração que acompanhava o que vinha de Brasília (DF), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) enquanto tentava produzir alguma coisa própria no Sul. “A gente circulava vendo aquele mar de novidades que vinha recebendo.”
Os futuros integrantes se conheciam do colégio. Na formação inicial, Thedy Corrêa assumiu voz e baixo, Carlos Stein foi para a guitarra e Sady, para a bateria. Todos estudavam: Thedy cursava Engenharia Civil, Carlos, Arquitetura, e o baterista seguia na Engenharia Química. Entre estágios, aulas e shows, os dias de ensaio eram o que organizava a semana.
O primeiro Rock in Rio, em 1985, ajudou a mostrar que aquela nova geração de bandas podia ocupar espaços maiores. Ainda assim, o começo do “Nenhum de Nós” tinha pouco plano de carreira. “Não sabia se ia durar um show, dez shows, um ano, dez anos. Tudo foi acontecendo de acordo com a nossa vontade de fazer dar certo.”
Uma coisa, essa sim, estava decidida desde o início: queriam compor. “A gente achou que tinha alguma coisa para dizer, com a nossa ótica, nossa poesia, nossa música. Nunca quisemos ser uma banda de cover.”
Uma fita demo chegou às mãos de um empresário e, depois, a uma gravadora. “Camila, Camila”, canção sobre violência contra a mulher, abriu o caminho nacional. O segundo disco trouxe “Astronauta de Mármore” e devolveu à rotina universitária uma situação que poucos estudantes de Engenharia Química conhecem: atravessar a cidade para terminar o curso ouvindo a própria banda no rádio do ônibus.
A escolha profissional estava encaminhada. A formação científica, no entanto, não foi descartada, apenas mudou de endereço.”Como eu não pude exercer engenharia, já tinha começado a brincadeira de fazer cerveja. Depois de visitar fábrica e tudo mais, dediquei esse meu lado a estudar mais o processo cervejeiro, especialmente a parte sensorial.”
E foi na estrada que esse outro lado encontrou terreno para crescer.
O Brasil das turnês também era um mapa cervejeiro
Quando o “Nenhum de Nós” passou a viajar pelo país, o baterista acrescentou um hábito ao roteiro: sempre que havia brecha entre a passagem de som e o show, procurava as cervejarias da cidade.
Assim conheceu um Brasil cervejeiro que estava prestes a desaparecer. Viu a fábrica de Caçador, em Santa Catarina, que produzia a Xingu, então destinada apenas à exportação; a Serra Malte, em Getúlio Vargas (RS), que descreve como uma fábrica encantadora; a Bohemia, em Petrópolis (RJ); e cervejarias familiares de Corumbá (MS), Marília (SP) e Ponta Grossa (PR), muitas já absorvidas por grupos maiores, mas que preservavam algo de artesanal na escala e no jeito de trabalhar.
Eram visitas de quem queria entender, não para colecionar rótulos. A cerveja virou outra forma de conhecer os lugares para onde a música o levava.
Com a carreira consolidada e a gestão da banda mais azeitada, Homrich conseguiu reservar tempo para estudar de verdade. Vieram a sommelieria, o treinamento sensorial, os cursos técnicos, as consultorias, os concursos como jurado. Escreveu sobre cerveja na Folha de São Paulo, esteve por anos à frente do projeto Extra-Malte, em Porto Alegre, e participou de três temporadas do “Mestre Cervejeiro Eisenbahn”.

Não era uma segunda carreira surgindo do nada. Era, sim, aquela panela de 1984 ganhando repertório, método e ferramentas.
Com o tempo, a estrada ainda produziu uma inversão que ele gosta de contar. “Lá no início eu conhecia as cervejarias porque ia com a banda tocar na cidade. Hoje a gente também é convidado para tocar em aniversários e festas de cervejarias, muito pela minha presença.”
Não se trata de trocar grandes palcos por fábricas. A graça está no reencontro: um circuito que durante anos existiu nos bastidores das viagens do músico passou a fazer parte também das relações da banda. A cerveja deixou de ser apenas o que ele procurava entre um show e outro. Em certo momento, passou a estar do outro lado do convite.
Quando os dois lados de Sady Homrich finalmente se encontram
Por muito tempo, música e cerveja correram paralelas na vida do baterista. Aos poucos, começaram a ocupar a mesma mesa.
O primeiro encontro formal foi o Extra-Malte, realizado dentro de um instituto dedicado à arte e ao humanismo, em Porto Alegre. Uma vez por mês, três cervejas, três pequenas harmonizações e um bate-papo temático com alguém relevante do meio cervejeiro. Durante quase uma década, boa parte de quem pensava cerveja no Brasil passou por aquela sala.
Em 2018 veio a Degustação Acústica, e aí já não havia nenhuma necessidade de separar os dois lados. Ao lado de outro músico, Homrich toca e canta enquanto apresenta um estilo cervejeiro e conduz a degustação em pubs, bares de fábrica e festivais. As canções entram conforme o tema da noite; as curiosidades do estilo, entre uma e outra.
Foi organizando esses encontros que ele chegou a uma frase que explica o projeto e, no fundo, explica também o próprio Sady. “A música não é de quem faz, é de quem escuta. E a cerveja não é de quem faz, é de quem bebe.”
Para alguém acostumado tanto a criar quanto a julgar tecnicamente, há uma dose generosa de desapego nessa ideia. Uma música pode sair do estúdio carregada de intenção e ganhar outra vida no ouvido de quem escuta. Uma cerveja pode ser desenhada até o último detalhe da receita, mas a experiência só se completa nas mãos de quem abre a garrafa. “Entendendo isso”, ele diz, “muita coisa começa a ficar mais compreensível.”
Liberdade cervejeira
Quarenta anos de mudança nos dois mercados levaram o músico a um conceito próprio. Sady viu o consumidor brasileiro sair de um cenário concentrado em Lagers claras e geladas para conhecer cervejas de trigo, IPAs, Sours, fermentações espontâneas e uma variedade de estilos difícil de imaginar quando ele caçava lúpulo para as primeiras panelas. Viu também algumas novidades durarem e outras passarem depressa. “O cara está louco para provar, vai lá, prova uma vez, faz o seu post e depois dificilmente volta a tomar.”
Na música, reconhece o mesmo comportamento: tendências que se esgotam rápido, bandas que ficam presas a uma única canção. A comparação vem com naturalidade para quem viveu os dois lados e também serve para separar o gosto do negócio. “Quando é um hobby e tu é caseiro, ela é linda, espetacular. Tu pode fazer o que bem entender. No momento em que botou um CNPJ, tu tem uma empresa.”
Talvez por isso ele recuse o título de pioneiro do homebrew brasileiro, mesmo tendo começado em 1984. “Os pioneiros foram aqueles que pegaram seu hobby de cervejeiros e transformaram isso em negócio. Eu fui um daqueles que, naquele período, se preocupou em ter alguma coisa diferente.”
“Tem que ter as papilas e os ouvidos abertos”
Sady Homrich
O que ele reivindica é outra coisa, e vem com nome próprio: liberdade cervejeira. A definição é simples e cabe num gole em que qualquer um pode beber o que tiver vontade.
Ele usa guias de estilo para estudar e para julgar concursos. Não para decidir do que deve gostar. “Quando faço cerveja, não uso guia de estilo. E quando saio para beber também não fico usando.”
Homrich lembra de uma frase que circula entre cervejarias brasileiras e que já fez muita gente do meio torcer o nariz, segundo ele: beba menos, beba melhor. “O pessoal dava risada, mas é isso que tem que acontecer”, diz. Beber por volume ou por teor alcoólico não leva a lugar nenhum, para o baterista; um encontro em que se compartilha uma boa cerveja, com moderação, é outra história. Nas palavras dele, “um lubrificante social.”
A panela com fermento de pão virou estudo técnico, concursos e degustações. A banda que ensaiava entre aulas e estágios chega aos 40 anos. E aquele engenheiro químico que escolheu a bateria como profissão nunca precisou fechar de vez a outra porta. Depois de quatro décadas testando as duas coisas, ele resume tudo numa regra bem mais curta que qualquer guia de estilos. “Tem que ter as papilas e os ouvidos abertos”, aconselha Sady Homrich.


