A Copa do Mundo de 2026 vendeu cerveja — só não onde a indústria esperava. A Constellation Brands, dona de Corona e Modelo nos Estados Unidos (EUA), publicou na terça-feira passada (6) o balanço do trimestre encerrado em 31 de agosto com o primeiro corte por canal depois do torneio: a venda para bares e restaurantes cresceu 6,6%, enquanto a venda para supermercados e lojas caiu -1,5%. Como nove de cada dez caixas da companhia saem pelo segundo caminho, o saldo foi uma queda de -0,6%.
Os números gerais do trimestre vieram acima do esperado. A receita líquida consolidada subiu 6%, para US$ 2,63 bilhões, e o lucro por ação em base comparável avançou 3%, para US$ 3,74 — os analistas ouvidos pela LSEG projetavam US$ 2,54 bilhões e US$ 3,56, segundo a Reuters. A cerveja responde por 94% dessa receita; o resto vem de vinhos e destilados, que cresceram 17%, para US$ 159,4 milhões.
No mesmo período, a Constellation Brands foi a que mais ganhou participação na cerveja americana. Nos canais acompanhados pela Circana, consultoria de dados de consumo, a divisão de cerveja foi a número 1 em ganho de participação tanto em valor quanto em volume, com mais de 0,8 ponto porcentual na categoria total — aceleração de mais de 0,2 ponto sobre o trimestre anterior. São dela 5 das 15 marcas que mais ganharam participação no país. No entanto, a projeção para o ano fiscal inteiro ficou apenas entre queda de 1% e alta de 1%.
Os números da Constellation Brands, que produz e distribui a Corona nos EUA, apesar da marca ser da AB Inbev globalmente, são os primeiros do período da Copa do Mundo a virem a público entre as grandes cervejarias. Heineken e AB InBev vão divulgar seus balanços na última semana do mês, nos dias 28 e 29 de outubro, respectivamente.
A diferença entre encher a despensa e jantar
Além disso, o balanço chama a atenção pela movimentação de cerveja. Dois números do mesmo contam histórias opostas, e distingui-los é a chave para ler qualquer resultado de cervejaria grande. O embarque — o que sai da fábrica para o distribuidor — subiu 5,5%, de 117,4 milhões para 123,9 milhões de caixas, equivalente a uma alta de 1 bilhão para 1,06 bilhão de litros. Já as depletions, que o relatório define como “os embarques dos distribuidores americanos dos nossos produtos para clientes do varejo, com base em dados de terceiros”, caíram -0,6%. É a diferença entre encher a despensa e efetivamente consumir o jantar.
A explicação da empresa para o descasamento é legítima. “De forma consistente com a sazonalidade do ano anterior, embarcamos um pouco mais caixas do que foram consumidas no trimestre, porque os distribuidores pediram mercadoria para recompor os dias de estoque em patamares mais saudáveis”, diz o comentário de CEO e CFO que acompanha o balanço. A companhia saiu do ano fiscal anterior com estoque abaixo da média e passou o primeiro semestre recompondo.
Na Constellation Brands, a Copa foi ótima para o bar
O motivo da queda está nomeado no relatório, e não é macroeconomia. “As depletions caíram -0,6% porque a atividade no off-premise em torno da Copa do Mundo ficou abaixo das expectativas do setor em junho e julho”, escreve a empresa — off-premise é o jargão do setor para o que se compra para levar embora, de supermercado a loja de bebidas, em oposição ao on-premise, consumido no próprio ponto de venda. A festa em casa não aconteceu na escala prevista.
No bar, aconteceu. O on-premise cresceu 6,6%, puxado pela Copa, por mais torneiras instaladas e por ativação de marca — Modelo Especial e Pacifico ficaram em terceiro e quinto lugar entre as marcas que mais ganharam participação em chope no país. O problema é a aritmética dos pesos: o canal que cresceu responde por 11% do volume da companhia; o que caiu, por 89%. Entre os cinco maiores estados, Califórnia e Nova York superaram a média, e Texas e Flórida ficaram atrás.
A Reuters leu o trimestre pelo agregado e registrou que o negócio de cerveja se beneficiou dos grandes eventos esportivos do ano, Copa e finais da NBA. As duas leituras não se excluem: o torneio movimentou consumo, só o deslocou para o canal menor.
Além disso, ganhar participação nesse ambiente exigiu investimento em marketing e despesas administrativas, o que teve um custo. A margem operacional da divisão de cerveja caiu 1,6 ponto porcentual, para 39%. O marketing ficou em cerca de 10% da receita líquida no trimestre e deve passar de 11% no trimestre seguinte, para bancar programação em beisebol e futebol universitário.
Preço não compensou. Ficou praticamente estável, com reajustes aplicados de forma seletiva, mercado a mercado, “dado o quadro de consumo mais fraco”. Como disse o diretor financeiro Garth Hankinson à CNBC, “é muito mais barato manter seu consumidor do que tentar reconquistá-lo”.
Heineken e AB InBev abrem as contas em duas semanas
Mesmo que comparações de uma operação específica e premium da Constellation Brands com grandes multinacionais não sejam diretamente possíveis, o balanço pode ser visto como uma prévia dos efeitos da Copa do Mundo sobre a indústria cervejeira. A Heineken publica a atualização do terceiro trimestre em 28 de outubro e a AB InBev reporta no dia 29. As duas atravessaram a mesma Copa e operam no Brasil pelas duas maiores cervejarias do país — a Ambev, que produz Corona no Rio de Janeiro, e o Grupo Heineken.
E há no mesmo pacote um detalhe que diz para onde as apostas da Constellation Brands começam a apontar. Dias antes do balanço, ela anunciou a compra da SpikedAde, bebida pronta para beber (RTD, na sigla em inglês) à base de vodca, sem açúcar, 100 calorias e sem gás, por 75 milhões de dólares à vista e mais até 278 milhões de dólares em cinco anos, conforme o desempenho.
A marca não vai para a divisão de destilados. Vai para a Divisão de Cerveja, com distribuição alinhada à rede de atacadistas do grupo — a mesma estrutura que acabou de vender menos no supermercado passa a carregar uma vodca com sabor de isotônico.


