Criada pela mestre cervejeira e sommelière Cilene Saorin e pela diretora Bruna Lessa, “A Cerveja Explica! Uma Terapia de Botequim” foi premiada como Melhor Série Educacional na 11a edição do Rio Webfest, considerado o maior e mais inclusivo festival de webséries do mundo. A premiação aconteceu no dia 1o de dezembro durante o evento de gala, que foi sediado na Grande Sala da Cidade das Artes Bibi Ferreira, no Rio de Janeiro (RJ).
O reconhecimento vem após dois anos de dedicação de um projeto que começou a ser pensado em 2022. E vem numa categoria educacional, mostrando o potencial de ideias como essa para ampliar os horizontes da cerveja artesanal com o público. “A gente sente uma alegria imensa em receber esse prêmio — pelo reconhecimento mesmo de todo o trabalho”, comentou Bruna Lessa. “O desejo por entregar conhecimento é vital para a série”, admite Cilene Saorin.
A websérie tem dez episódios (todos já disponíveis no canal oficial no Youtube) que visa tornar a cultura cervejeira acessível, utilizando uma linguagem bem humorada. O enredo central da série mostra Cilene e Laíza em uma viagem por diversas cidades do interior de São Paulo, como Várzea Paulista, Ribeirão Preto e Jundiaí, explorando o contexto sociocultural da cerveja, cervejarias locais e roteiros gastronômicos.
O Guia da Cerveja entrevistou as criadoras do audiovisual, que comentaram sobre a premiação e a repercussão da série lançada no início da segunda quinzena de setembro.
Como foi receber o prêmio? Como se sentem com esse reconhecimento?
Bruna Lessa: A gente sente uma alegria imensa em receber esse prêmio — pelo reconhecimento mesmo de todo o trabalho. Esta é uma série audiovisual que carrega mais de dois anos de dedicação. Começamos a pensar nesta série em 2022. E, em 2023, materializamos os primeiros documentos para inscrição em editais. Então, existe uma trajetória longa até aqui.
Chegarmos ao final desse processo, fazermos a entrega e ainda sermos premiadas, é tudo muito significativo. É a confirmação de que aquilo a que nos propusemos desde o início — falar sobre cerveja por uma perspectiva de educação — está sendo visto e valorizado.
E, embora tenha esse tempo próprio de desenvolvimento, a série reflete o trabalho pioneiro da Cilene Saorin nesse tema no Brasil. Alguém que se dedica ao tema da cerveja e marca seu compromisso com a educação há tantos anos. Por isso, de certa forma, este prêmio também reconhece essa longa caminhada que ela realiza em favor da cultura das cervejas e todo o entusiasmo com que ela abraça essa discussão.
“A Cerveja Explica!” explica muita coisa, como você disse, Bruna, ao receber o prêmio. Ganhar como Melhor Série Educacional mostra que cumpriram a missão de tornar o universo da cerveja acessível?
Bruna Lessa: A cerveja explica — e explica muitíssimas coisas, né? Eu até falei mesmo isso no dia da premiação. Quando começamos a pensar e desenhar esta série, eu sentia que eu era completamente desletrada na cultura das cervejas. Eu era só uma pessoa curiosa sendo apresentada a esse universo pela Cilene. No início, eu inclusive me sentia altamente intimidada ao chegar em um evento ou bar cervejeiro. Eu não sabia lidar com aquele monte de opções, que poderiam parecer óbvias apenas pra aqueles já consumidores e amantes da cerveja.
É como se a gente não pudesse fazer parte desse letramento. Como se, para entrar neste universo, fosse necessário ser especialista. E isso não acontece só com a cerveja; o mundo do vinho é assim; às vezes, o da coquetelaria também. Todo mundo acaba tendo que virar “meio especialista” para poder consumir.
A ideia do programa nasceu justamente do contrário: como é que a gente descomplica esse universo? Como é que traz a cerveja para o centro da conversa a partir de uma perspectiva acessível, humana, histórica e gastronômica? A cerveja é uma bebida ancestral, que acompanha a humanidade há milênios. E também é uma bebida que cria pontes — que gera encontros.
Quando sentamos numa mesa com mulheres que contam suas histórias e Cilene propõe harmonizações, esses encontros, regados à cerveja e costurados pelas trajetórias de cada convidada, criam sinapses muito potentes. E tudo isso a partir do olhar feminino. Sempre mulheres como ponto de encontro, como eixo da narrativa.
A função da série é justamente tirar a cerveja desse lugar intimidador — e muito masculino — e colocá-la em espaços onde mulheres se sintam encorajadas a entrar, pedir aquela cerveja do episódio de Sertãozinho, por exemplo, e se sentir parte desse mundo. Nosso desejo é decifrar essa cultura para um público que não quer, e não precisa, ser especialista. Um público que quer se divertir, experimentar e se reconhecer nessa experiência.

Os últimos episódios da série foram ao ar há cerca de um mês. Agora, com tudo publicado, como está sendo a repercussão do projeto?
Bruna Lessa: Sim, a série está toda publicada no YouTube. São dez episódios nessa primeira temporada. Temos recebido muitos retornos positivos, incluindo o prêmio. Acredito que a série cumpre uma função importante: é um programa audiovisual que expande territórios, valoriza histórias locais e, de alguma maneira, também convoca ao turismo em diversas cidades do estado de São Paulo.
Cilene Saorin: E, como estamos falando aqui para um canal que se dedica às cervejas, seria interessante pensar em como a comunidade cervejeira pode aproveitar esse conteúdo para repensar as abordagens e as estratégias de comunicação da cultura das cervejas — e, quem sabe, abrir espaço para novas leituras, novos públicos e novas experiências.
Então deixamos o convite para as pessoas acessarem e seguir a plataforma. Assistam aos episódios e conversem com a gente. Dessa forma, iniciativas como essa podem alcançar mais pessoas, ganhar novas camadas e gerar desdobramentos. Projetos só ganham força se tiverem apoios. Creio que estejamos no bom caminho e espero que a escala seja uma questão de trabalho no tempo.
Houve algum feedback específico que mais chamou a atenção de vocês até agora?
Cilene Saorin: Todos os episódios da série se apresentam em uma versão especial de acessibilidade para cegos, surdos e mudos. Foi marcante e lindo perceber a participação expressiva deste público nos comentários da plataforma quando se viram representados por nossa convidada no episódio de Ribeirão Preto. Esse é um dos gratos exemplos de representatividade que conseguimos alcançar na série.

Apesar de não ser necessariamente sobre mulheres na cerveja, a série tem a presença feminina constante — nas apresentadoras e convidadas. Como as elas estão se vendo representadas por vocês nesse material?
Bruna Lessa: Muitas mulheres têm conversado conosco, dizendo que se sentem muito representadas. Mulheres que não são do universo da cerveja olham o projeto e dizem: “Uau, existe tudo isso? Existem tantas possibilidades?”. Até as convidadas, em vários momentos, verbalizaram isso: que a série é uma expansão real de repertório. E esse é o grande propósito da série: expandir repertório, colocar a cerveja em outro lugar de discussão e trazer novos atores para essa conversa. Inclusive, nesse caso, mulheres protagonizando um espaço que, historicamente, costuma ter homens somente.
A propósito, penso que valeria a pena perguntar às mulheres da comunidade cervejeira o que elas estão achando da série. Muito mais que nós dizermos o que pretendemos, o que importa é: como elas têm visto essa iniciativa? Quais episódios as tocaram? De que forma as moveram? É esse olhar que nos interessa. A gente tenta sair do tecnicismo e ampliar o espectro, porque isso também faz parte de um modo de ver o mundo que é muito feminino — uma visão ampla, sensível, relacional.
Cilene Saorin: O desejo por entregar conhecimento é vital para a série. Entretanto, queremos oferecer outras perspectivas, outros olhares, outros modos de pensar e sentir a cultura das cervejas. E é muito animador ter mulheres tanto à frente quanto atrás das câmeras. Acho que chegamos a esse resultado justamente porque a equipe — majoritariamente feminina — participa de todas as etapas: da concepção à finalização. O olhar feminino atravessa tudo.
E isso nada tem a ver com querer afastar os homens. Muito pelo contrário: queremos os homens na conversa, como parceiros nesta transformação. Afinal, os desafios dos negócios da cerveja estão aí batendo a porta. E é preciso exercitar a observação e a escuta. É século XXI e sim — chegamos de volta. Vamos em frente!


