
Quem teria sido a primeira mulher cervejeira? Nunca saberemos quem foi e talvez essa nem seja a pergunta mais importante. A cerveja não foi inventada, foi descoberta e moldada lentamente por muitas mãos anônimas ao longo de milhares de anos. Antes de ser indústria ou mercado, ela foi alimento cotidiano, saber doméstico e prática coletiva. E, nesse tempo longo, foram sobretudo as mulheres que colheram os grãos, cozinharam mingaus e observaram a transformação silenciosa da fermentação.
Respeita as mina.
A natureza tornou possível uma mistura simples: grãos diversos e água, somados a um punhado invisível de microrganismos suspensos no ar, ao tempo e à fé. Um mingau deixado ao repouso alimentava a família e, pelas mãos femininas, fermentava. Antes de ser produto ou especialidade técnica, a cerveja foi sustento e observação empírica. Foi cuidado, celebração, ritual. Se fazia por sentido. Fermentar era parte do cotidiano. E, nesse cotidiano, as mulheres transformavam o que havia em alimento ou bebida, nutrindo corpos e também imaginários.
Muitas foram as deusas associadas à agricultura, à fertilidade, à colheita e à fermentação. Costumamos citar Ninkasi, deusa suméria da cerveja, mas também poderíamos lembrar Mayahuel, no México ancestral, Mbaba Mwana Waresa, na tradição zulu, Ceres, guardiã romana dos cereais, Sif, ligada aos campos dourados da mitologia nórdica, ou Pachamama, matriz andina da terra fértil. Muitas deusas em nossos caminhos abençoando todos os organismos e assim, os micros fermentam.
Em diferentes cosmologias, do Mediterrâneo às Américas, da África ao Norte da Europa, a produção de bebidas fermentadas caminhou lado a lado com o feminino como princípio organizador da vida cotidiana, a origem de saberes transmitidos entre gerações e como continuidade de um gesto fundamental: que além de alimentar, celebra e transforma.
Séculos depois, na Europa medieval, é tentador associar diretamente as alewives medievais à figura da bruxa de chapéu pontudo que habita o imaginário contemporâneo. No entanto, pesquisas historiográficas recentes mostram que essa iconografia se consolidou apenas entre os séculos XVIII e XIX, resultado de uma longa construção cultural que mistura heresia, propaganda religiosa e, inclusive, estereótipos antissemitas. A historiadora Christina Wade, em estudo dedicado a desmontar esse mito recorrente, lembra que a perseguição às mulheres que produziam e comercializavam bebidas fermentadas é parte da história, mas seus símbolos são muito mais complexos do que a cultura pop costuma sugerir.
Dentro dos mosteiros e de seus campos cultivados, algumas vozes femininas deixaram registros que atravessaram o tempo. Hildegard von Bingen foi uma abadessa, naturalista e pensadora do século XII, que escreveu sobre as propriedades do lúpulo e sua capacidade de preservar e equilibrar as bebidas, aproximou a cerveja da ciência um pouco mais com sua incrível forma de observar os detalhes da transformação que a planta causava. E adicionou também mais uma pitada de espiritualidade, arte, poesia e música.
Tudo se conecta com a cultura da cerveja.
A jornalista Tara Nurin lembra que, até a modernidade, as mulheres foram força motriz na produção cervejeira em diferentes continentes. Com a industrialização crescente e a regulamentação constante da produção, muitas mulheres foram sendo deslocadas do centro desse saber. Leis e estruturas econômicas restringiram a fabricação doméstica e transformaram em mercado aquilo que antes era prática cotidiana.
Estudos como os da historiadora Judith Bennett demonstram que a crescente masculinização do comércio cervejeiro alterou o equilíbrio econômico dentro das famílias e das cidades, cada vez mais foi-se restringindo a presença feminina nesse ofício. Era o mercado em disputa, concorrência que vemos até hoje, de diferentes formas.
Talvez aquelas primeiras mulheres do fazer fermentar os grãos não se nomeassem feministas e nem precisassem. A cerveja ainda não era uma disputa simbólica, nem era um território de prestígio econômico ou cultural. Tornou-se. A história segue em ciclos e, em cada um deles, seguimos disputando espaços que, em muitos momentos, já foram nossos.
A história das mulheres e das bebidas sempre foi atravessada por mecanismos de controle. Como observa a escritora Mallory O’Meara, culturas que restringiam a liberdade feminina também restringiam sua relação com o álcool: o acesso, o consumo e a legitimidade de sua presença em espaços públicos. Beber, afinal, sempre foi também um gesto de autonomia. E talvez por isso mesmo tenha sido tão regulado para as mulheres.
A mulher cervejeira no mundo contemporâneo
O século XXI, por vezes, cria a confortável ilusão de que já chegamos aonde deveríamos. Não chegamos. Enquanto ainda houver mulheres vivendo sob risco, limitação ou silêncio, seguimos todas atravessadas por essa realidade. Triste verdade. Um mundo cheio de tecnologias e inteligências ainda não evoluiu para compreender suas essências.
Estamos no século XXI e só posso falar a partir do tempo que me atravessa. É dele que observo, trabalho e escrevo. Consigo dizer que olho ao redor e sinto orgulho. Vejo mulheres ocupando espaços na produção, na pesquisa, no serviço, na comunicação e na gestão da cerveja de modo geral. Leio sobre as que vieram antes, estudo suas trajetórias e reconheço que essa memória me mantém desperta. Não sonho tão longe, observo o presente com atenção e sei que ainda temos um longo caminho que ainda falta percorrer. Mas comemoro. Brindo. É do celebrar que seguimos em frente.
Cresci entre mulheres fortes e, por isso, sempre me senti protegida e inspirada. Tenho expectativas profissionais e viso, livremente, sobre coisas que vão além da casa e da maternidade. E foi logo no começo do exercício cotidiano da profissão que percebi que os degraus para quem “usa saia” (quem quer que seja) costumam ser mais altos, mesmo quando o discurso pop diz o contrário. Em vários projetos com outras mulheres, há sempre uma nova história a ser contada. E tem histórias ruins, recheadas de preconceitos e machismos. Típicas histórias antigas como as que estamos contando aqui.
Quando entrei no mercado, encontrei mulheres extraordinárias: mestres cervejeiras, professoras, biólogas pesquisando leveduras, sommelières conduzindo degustações e conversas com o público, tantas diferentes personalidades. Gestoras da parte administrativa, marketeiras e vendedoras. De todos os paladares, de tantas diferentes partes do país. Em diferentes contextos.
Nos últimos anos, a cultura cervejeira ampliou seu vocabulário, gerou muito repertório e vem tentando agregar mais valor cultural à categoria. Falamos muito aqui no Brasil de qualidade, de insumos, de criatividade, de identidade e de experiência sensorial. Ainda assim, em muitos ambientes, homens continuam achando “interessante” ver uma mulher falando sobre cerveja, como se fosse algo fora do lugar. Excêntrico, para mim, é perceber o quanto certos pensamentos permanecem atrasados. Como se nossa presença ainda orbitasse o campo da imagem decorativa, do cartaz na parede, da publicidade com um copo gelado na mão, a gostosa de roupa curta. Ou, no máximo, como se ainda fosse necessário explicar o que significa ser mulher em um mercado que muitos insistem em reconhecer como masculino. Mais um mito cervejeiro. Brindamos sempre, mas não podemos perder de vista o que ainda precisa ser conquistado.
Recentemente reli Profissões para mulheres e outros artigos feministas de Virginia Woolf e me vi pensando no mercado cervejeiro. Uma mulher feminista nesse universo, para mim, é toda aquela que reivindica algo simples e fundamental: o direito de estar onde quiser, onde sempre esteve e continuar seguindo em frente e para o alto. E fazer cerveja. Falar de cerveja. Beber cerveja. Vender cerveja. Estudar cerveja. Sem pedir licença, sem pedir permissão. Como era no princípio, como é imaginado. Amém.
Ao longo dos anos, conheci muitas outras mulheres, todas atravessando batalhas pessoais e profissionais e, ainda assim, abrindo caminhos à sua maneira. Hoje é impossível fazer uma lista definitiva. Não existe uma única mulher que nos represente. A diversidade, talvez, seja justamente o que nos liberta.
Beber com liberdade
Última coisa importante. Vale ressaltar para quem ainda não entendeu: não existe “cerveja de mulher”. Existe liberdade de escolha. Seu sabor preferido, individual. Meu paladar não pertence a estruturas antigas nem às expectativas alheias. Mesmo que goste de algo frutado e leve, menos intenso ou estruturado. Mesmo que seja rosa. Apenas parem de generalizar e colocar as coisas desta forma. A primeira mulher cervejeira e feminista é sempre aquela que abre uma cerveja e bebe o que quer, onde quer e com quem quiser, com consciência, prazer e autonomia.
Há, ainda, batalhas importantes em curso. O álcool pode ser ferramenta de convivência e cultura, mas também pode carregar dor e violência. Falar de consumo responsável, de bem-estar e de ambientes seguros faz parte do caminho. Apoiar outras mulheres e fortalecer redes também. Mais sabor. Mais moderação. Mais conhecimento. Respeito.
Seguimos. Talvez o verdadeiro avanço esteja no dia em que não precisemos mais tensionar a corda para lembrar que sempre estivemos aqui e que igualdade não deveria exigir explicação.
Saúde.
Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.


