O acordo Mercosul-UE pode redesenhar a dinâmica da indústria cervejeira nas próximas décadas ao trazer desafios e oportunidades para o setor. O tratado pretende liberar de taxas de importação e exportação um mercado composto por 720 milhões de pessoas — 450 milhões na União Europeia e cerca de 295 milhões no Mercosul — gerando um misto de cautela e otimismo na indústria brasileira de bebidas.
Para o setor cervejeiro, o impacto não será imediato, mas exigirá uma adaptação estrutural profunda de grandes indústrias e produtores artesanais, segundo especialistas consultados pela reportagem do Guia da Cerveja.
Mercosul-UE: quase três décadas de negociações
O acordo Mercosul-UE foi assinado em 17 de janeiro, no Paraguai, após 26 anos de negociações. Mas, para entrar em vigor, precisaria passar por aprovações nos parlamentos locais, incluindo o Congresso brasileiro.
Em 21 de janeiro, o Parlamento Europeu remeteu o acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) para verificar a legalidade dos termos — alguns países temem a competitividade com as commodities brasileiras e os detalhes do acordo, como salvaguardas caso os produtores locais sejam prejudicados, precisaram ser revistos.
Na prática, isso paralisou a tramitação até que os juízes emitam um parecer sobre o documento.
Enquanto o mercado aguarda o desenrolar dessas novas etapas, especialistas já traçam possíveis ganhos para a indústria cervejeira nacional quando as tarifas forem reduzidas. Seja pelo ganho de competitividade, pelo acesso a insumos mais baratos ou pela oportunidade de exportar “brasilidades” cervejeiras e despontar neste mercado tão competitivo.
O longo caminho para a tarifa zero
O acordo Mercosul-UE estabelece uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, integrando mercados que representam cerca de um quarto do Produto Interno Bruto global.
Para setores considerados sensíveis, como o de bebidas, o cronograma prevê uma transição gradual que pode durar até 15 anos, permitindo que a indústria nacional se adapte ao novo ambiente competitivo antes da isenção total de impostos.
Jackson Campos, especialista em comércio exterior, explica que as taxas de importação e exportação vão diminuir progressivamente, até atingirem o zero. O prazo estimado é de algo em torno de 15 anos, o mesmo para o mercado de vinhos e outras bebidas. No entanto, isso aconteceria após o acordo entrar em vigor oficialmente, ou seja, tramitar pela Justiça Europeia e passar pelos parlamentos dos países envolvidos, processo que pode demorar alguns anos.
Essa lenta transição funciona como uma salvaguarda indireta para a indústria nacional, segundo Campos, que poderá se preparar para a entrada de novos produtos e também se organizar para exportar.
“Isso significa que a concorrência para a cerveja nacional tende a crescer, mas não tanto a ponto de acelerar o processo, pois se abre em fases e ao longo de vários anos”, afirma.
Gargalos brasileiros
No entanto, Campos destaca que o acordo revisita fraquezas estruturais claras, como a enorme carga tributária interna e gargalos logísticos. Além disso, em um contexto de consumo reduzido, o aumento da concorrência deve pressionar as margens e forçar um reposicionamento das marcas brasileiras.
“O acordo apresenta tanto desafios quanto oportunidades para a indústria brasileira. É um desafio porque revisita fraquezas estruturais claras no setor em questão, como uma enorme carga tributária interna, logística e eficiência reduzida em certos elos da cadeia. Por outro lado, é uma oportunidade, porque faz o setor acelerar ganhos de produtividade, desenvolvimento de portfólio, até mesmo diferenciação de marca, o que tantas cervejarias nacionais, incluindo as artesanais já fizeram”, afirma.

Segundo Campos, o prazo para a eliminação total das tarifas sobre a cerveja é provavelmente no intervalo mais longo do acordo Mercosul-UE, próximo a 15 anos, semelhante ao utilizado para vinhos e outros produtos considerados sensíveis. O especialista afirma não haver evidências de que a cerveja terá um período mais curto ou um tratamento preferencial, nem evidências de que será excluída da liberalização final.
Identidade brasileira
Se, por um lado, a importação de rótulos europeus deve crescer, especialmente no segmento premium, por outro, abre-se uma porta para o Brasil levar sua “assinatura” ao Velho Continente.
O sucesso na Europa, contudo, não virá pela disputa de preço ou volume em estilos tradicionais, mas pela diferenciação. Carol Sanchez, analista da Levante Inside Corp aponta que o mercado europeu é maduro e possui uma cadeia extremamente eficiente. Mas pode abrir espaço para o exótico, desde que os produtos tenham história, origem e identidade.
Segundo a analista, o caminho para o sucesso internacional passa por três pilares: o uso de ingredientes tropicais e regionais, a aposta em cervejas leves premium com potencial de escala e o investimento na categoria de baixo teor alcoólico ou sem álcool, que atende à tendência global de moderação.
“Se a cerveja chega lá com um padrão alto, com uma proposta clara, com uma boa distribuição, dá para construir essa presença. Principalmente em bares especializados, lojas premium, eventos de cerveja artesanal”, afirma.
Ganhos na cadeia de suprimentos
Apesar da pressão competitiva na prateleira, a indústria pode colher frutos significativos na parte de trás da fábrica. A redução gradual de tarifas sobre máquinas, equipamentos, garrafas e rótulos tende a reduzir os custos de modernização e expansão. Esse ponto é especialmente vital para as pequenas e médias cervejarias, que hoje lidam com equipamentos importados caros e altamente tributados.
Para Jackson Campos, o saldo geral do acordo Mercosul-UE deve fortalecer uma cadeia mais integrada e voltada à qualidade. “O acordo remove obstáculos, mas o sucesso depende da estratégia das empresas”. Embora a ameaça de rótulos europeus mais baratos no segmento premium exista, a concorrência é vista como um motor para elevar o nível técnico e a inovação do mercado local.
Desafio: taxação sobre o álcool
Embora o acordo abra portas significativas para a indústria nacional, Carol Sanchez alerta para a taxação sobre bebidas alcoólicas na Europa. Segundo a analista, existe uma carga tributária relevante sobre álcool — diferente da taxa de importação, que é o foco do acordo.
Ela afirma haver impostos especiais, além de exigências regulatórias específicas do setor. “Eu diria que o acordo melhora o cenário, abre portas, mas a exportação não deveria explodir só por conta disso”, afirma.
Enquanto o acordo Mercosul-UE tramita na Justiça europeia e deve passar pela regulamentação nos países envolvidos, a indústria pode aproveitar para se preparar para este novo cenário que, cedo ou tarde, se tornará uma realidade para o bloco.
| Categoria de Cerveja | Potencial de Exportação (UE) | Desafios Principais | Ativos de Competitividade |
| Estilos clássicos (Lagers/Ales) | Baixo | Concorrência direta com grandes grupos europeus consolidados e escala produtiva superior. | Eficiência produtiva e baixo preço para consumo de massa. |
| Artesanais com identidade brasileira | Muito alto | Manutenção de padrão de qualidade, regularidade de lotes e adequação a normas sanitárias rígidas. | Uso de frutas nativas, leveduras regionais, biodiversidade e narrativa de origem. |
| Baixo teor alcoólico ou zero álcool | Crescente | Necessidade de alta tecnologia para manter o sabor e equilíbrio sensorial sem o álcool. | Alinhamento com a tendência global de saudabilidade e moderação de consumo. |
| Segmento Premium / Super Premium | Médio | Pressão de margem devido aos custos logísticos, tributários e variação cambial. | Valor agregado, diferenciação de marca e apelo sensorial superior. |


