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Cultura

Como era a cerveja no Recife de 1977, época do filme “O Agente Secreto”?

Élida Oliveira
Por Élida Oliveira
13 de março de 2026
Atualizado em: 13 de março de 2026
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    Cena de “O Agente Secreto”. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

    No Recife de 1977, sob a sombra pesada do governo Ernesto Geisel, o personagem Marcelo, interpretado por Wagner Moura no filme “O Agente Secreto”, é recebido com um copo lagoinha (americano) cheio de cerveja ao chegar no Edifício Ofir em um dia de Carnaval. O especialista em tecnologia fugia de São Paulo em busca de refúgio na capital pernambucana e aquele copo representou alento. 

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    O gole de satisfação e alívio é um dos momentos em que a cerveja aparece no longa dirigido por Kleber Mendonça Filho – que participa da cerimônia do Oscar 2026 neste domingo (15) concorrendo em quatro categorias. Ela ajuda a contar a história do país e dos brasileiros em um momento de tensão da memória nacional.

    Mas, como era a cerveja daquela época? Qual o sabor e a textura daqueles goles?

    “O Agente Secreto” e a cerveja de 1977

    Gabriel Ferreira Gurian, doutor em História, conta que na época do filme “O Agente Secreto” era “dificílimo” ter opções de cervejas mais diversas, especialmente as de alta fermentação, devido à legislação da época. O padrão, tanto de oferta quanto de expectativa do consumidor médio, eram Lagers claras e leves. O mercado nacional produzia seus próprios produtos, e as opções orbitavam entre Brahma, Antarctica e Skol. 

    “A preferência pelo leve foi paulatinamente calcada no costume cervejeiro brasileiro desde o final do século 19. O que ganhou mais fôlego ainda com a reconfiguração do mercado na segunda metade do século 20, depois de algumas mudanças regulatórias e tributárias. Em 1977, já era dificílimo haver cervejarias alternativas oferecendo opções mais diversas, especialmente de alta fermentação, devido às novas legislações passadas naquela década, que acabavam sendo uma barreira estrutural e financeira ainda mais difícil de transpor para os pequenos produtores”, explica o pós-doutorando pela Universidade de São Paulo (USP), membro do coletivo Comer História e colaborador da pint.network, especialmente no podcast Surra de Lúpulo.

    Assim, não havia em Pernambuco, no tempo do filme, cervejarias locais que fossem expressivas na cena nacional. Mas a presença de uma fábrica da Antarctica em Olinda era motivo de orgulho para os pernambucanos, segundo Gurian.

    O sabor da cerveja mudou de 1977 para cá?

    Mesmo sabendo o gosto da Skol, Brahma e Antártica de hoje, ainda assim, não dá para supor que foi esse o sabor que Wagner Moura sentiu ao dar aquele gole de cerveja.

    Gurian diz que, para garantir as especificidades sensoriais, “só tendo acesso a receitas e livros de brassagem e conjecturando resultados na produção de 50 anos atrás”. Ele levanta ainda outras variáveis que interferem no produto final das cervejarias: diferenças em tecnologia de malteação, a condição em que insumos importados chegavam aos fabricantes, e o controle e os instrumentos aplicados nas etapas da cadeia de produção.

    “Dá para dizer que a intenção com o produto final era a mesma, ou muito próxima. Mas acredito que o nível de padronização industrial e as linhas de suprimento de hoje resultem em cervejas um pouco diferentes, talvez mais regulares”, afirma.

    Garrafas onipresentes, latas caras e “alternativas”

    3 locais para beber cerveja artesanal em Recife

    Em outro momento de “O Agente Secreto”, a cerveja volta a aparecer em uma reunião no apartamento de Sebastiana, reafirmando a solidariedade entre os “refugiados” do edifício. À mesa, garrafas e latas convivem no mesmo ambiente, mas o acesso às embalagens não era fácil como hoje.

    A garrafa era onipresente nos bares e lares brasileiros e a lata havia chegado ao mercado há cerca de cinco anos na época do filme, de acordo com o historiador. 

    O historiador explica que a lata era uma embalagem alternativa. Mas não tinha a mesma facilidade de transporte (porque era pesada), nem o mesmo potencial de reciclagem (porque não era de alumínio).

    Em 1977, as fábricas faziam as latas de um composto que combinava folha de flandres e estanho, sendo ainda esmaltadas. “O uso único era inclusive divulgado como vantagem em relação à garrafa, pois o vasilhame precisaria de manipulação adequada após o consumo do líquido”, afirma. 

    Isso fazia com que cada unidade de lata acrescentasse um custo significativo para a produção em escala. O que era repassado ao consumidor. 

    “Antes do lançamento da lata, os fabricantes da Skol em Rio Claro (SP) apostavam na substituição total do sistema de garrafas dentro de 8 anos. Dois anos depois, a imprensa já repercutia preocupações em relação à poluição gerada pelas embalagens não retornáveis. E hoje nós ainda consumimos a bebida em ambos os formatos. Em algumas tabelas de preço da época, comprar uma garrafa ou lata de cerveja tinha o mesmo custo. Então, nos anos 1970, o favor ainda estava do lado das garrafas, que já então tinham uma vida útil circular de anos no mercado”, explica.

    Evolução do setor

    As gôndolas dos supermercados de 1977 estavam repletas de Brahma, Antarctica e Skol, com algumas “turistas” como a Carlsberg, em aparições “pontuais”.

    As mudanças no setor em termos de oferta vieram paulatinamente. “A Carlsberg ensaiou uma parceria com a Skol para fazer produção local em 1990, mas não teve muito sucesso. A Heineken fez acordo para licenciar a Kaiser na mesma época, mas ainda não era a hora”, conta Gurian.

    Ele explica que a chegada de marcas estrangeiras veio na década de 2010, com a introdução de rótulos estrangeiros no portfólio da AB InBev. O conglomerado teve acesso ao mercado brasileiro por meio da fusão da belga Interbrew com a AmBev, em 2004, que, depois, em 2008, possibilitou a aquisição da americana Anheuser-Busch.

    O historiador diz ainda que as iniciativas “pontuais e desconectadas” de importadoras não tiveram impacto nos padrões de consumo cervejeiro no Brasil antes disso. E, ainda hoje, esses efeitos são considerados de nicho e circunscritos.

    Oscar 2026

    “O Agente Secreto” disputa quatro estatuetas no Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco (direção de elenco). A cerimônia acontece a partir das 21 horas deste domingo (15) em Los Angeles, com transmissão pela TV Globo, pela TNT e pelo streaming HBO Max.

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      Élida Oliveira
      Élida Oliveira
      Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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