Olá, seguidores/as e leitores/as do Guia da Cerveja. Estou de volta ao balcão Xirê Cervejeiro.
Antes de entrarmos no tema da nossa conversa, vou explicar o porquê da minha ausência. E, por conseguinte, a minha volta a este espaço tão precioso (e que, por sinal, gosto muito de estar dividindo algumas ideias).
Que sou amante ardorosa da cerveja artesanal vocês já sabem. É um amor ancestral. É a beleza da história, é a conexão que ela carrega, os sabores e toda beleza que um pint de uma excelente cerveja proporciona. Não importa o estilo: se ela foi bem executada, é deleite às papilas gustativas, sempre sedentas por notas, aromas, leveza ou robustez e suas complexidades. Um copo de cerveja pode carregar um mundo de possibilidades em si. Ou, a depender da iguaria que irá fazer par (ou como pontua um amigo sommelier, parear), uma grande festa gastronômica.
Ainda não contei porque dei uma pausa na escrita. Então, como prometido no início desta resenha, vou contar.
Há um ano tive um problema de saúde e precisei, compulsoriamente, parar de tomar bebida alcoólica. Certo dia (parece o início de um conto de Kafka), não era pela manhã, era um fim de tarde, não me recordo qual, abri uma garrafa de cerveja e tomei uma taça. Imediatamente comecei a passar mal. Fui olhar o rótulo para verificar se estava vencido ou se tinha alguma avaria, mas não encontrei nada de anormal. Duas semanas após esse episódio, fiz um drink com uísque e o mesmo incomodo aconteceu. Vaticinei: o problema não foi a cerveja, tem algo estranho acontecendo. Procurei um médico especialista no sistema gástrico que me recomendou uma pausa e muitos exames. Vieram todos ótimos.
Fiz uma caipirinha para comemorar e o resultado, o mesmo incômodo. Mesmo ritual de voltar ao médico, novos exames, novas modalidades e o resultado, nada que indicasse que o álcool havia prejudicado qualquer parte do meu corpo. No entanto, sai de lá com uma recomendação: dê uma pausa na ingestão do álcool para verificar se melhora. Não melhorei.
Fiquei triste. Uma das coisas de que mais gosto de fazer é harmonização com cerveja. É pensar os pareamentos, pegar meu caderno e caneta e escrever a harmonização. É ir à feira escolher cada tempero, fruta, legumes, verduras para os pratos. Imaginar, ainda antes do preparar, cada harmonia, contraste, corte, semelhança ou equilíbrio de forças entre os pratos e a cerveja escolhida, e o resultado que irei apesentar.
Mas a verdade é algo que também aprecio muito. E o conflito se instaurou: como vou falar de harmonização se eu não posso provar a cerveja? Como falar das notas e das complexidades, se não posso sentir? Não posso contar mentiras. Não sei e não me sinto confortável em contar. Foi aí que parei de fazer as harmonizações e fui perdendo, também, um pouco o viço e a vontade de falar sobre cervejas.

As pessoas me paravam na rua e pediam as dicas de harmonização. Queriam os pratos e as receitas. Eu respondia: “um dia eu volto”. Sem saber ao certo quando seria esse dia.
A vontade de voltar a sentir o cheiro do malte me invadia a cada copo de cerveja que eu via brilhando nas mãos de um amigo ou amiga.
Mantenho uma tímida adega em casa. Certo dia, abri uma Belgian Dubbel só para sentir suas leves notas de caramelo, o frutado que remete a uma banana-passa, o equilíbrio entre dulçor e amargor, seu tom marrom quase avermelhado, com aquela renda bege, cremosa de boa retenção e bolhas perfeitas. Causou-me tamanha emoção que quase chorei diante de tanta beleza depositada em uma elegante taça globet. A cerveja trapista é encantadora.
Por um instante, pensei em vender todas as taças e cervejas que tenho em casa (ainda bem que o pensamento durou só um instante).
Timidamente, voltei a tomar cerveja. Porém, sem álcool. Apesar de sentir falta de estilos: Weiss, Witbier, Sour, Belgian, Red Ale, Dubbel, Stout, Porter (que saudade de um cafezinho e das notas de chocolate) e até das IPAs (apesar de não ser tão desse tipo de amargor, mas, só de sentir aquele leve gosto de malte, já me fazia feliz).
Estou voltando gradualmente a reintroduzir o álcool. Sempre bebi com muita moderação, como se deve fazer. E continuo neste ritmo. Por isso que, quando recebi o convite do Celso, não hesitei e aqui estou.
Como ainda não voltei 100% às alcoólicas. Fiz uma harmonização com muita leveza utilizando uma cerveja zero álcool, que traz notas de pão e um leve adocicado, não possui amargor inicial ou residual. É levíssima e saborosa. E cumpre bem o seu papel em alegrar os/as loucos/as por malte como eu.
Harmonizei com um sanduíche de ricota, tomate-cereja, manjericão e um fio de azeite.
Tudo muito leve, como a nossa conversa por aqui pretende ser.
Até o próximo encontro.
Sara Araujo é sommelière de cervejas e palestrante sobre relações raciais; consultora, formada em Direito (ITE de Bauru/2012) e em Ciências Sociais (UEM/2022), é também especialista em História da África e da Diáspora Atlântica (Instituto Pretos Novos/2025), além de mestranda em Ciências Sociais pela UEM.


