Os casos de adulteração com metanol em bebidas destiladas em São Paulo estão preocupando o país. E essa repercussão também está gerando muitas informações equivocadas espalhadas pela internet. Para desfazer algumas dessas confusões em relação à cerveja, o Guia da Cerveja procurou o consultor e professor do Instituto da Cerveja Marcus Dapper, mestre cervejeiro formado na Alemanha que tem mais de 25 anos de experiência com a bebida. Ele conta que casos de adulteração de cerveja com metanol seriam improváveis, por serem financeiramente menos rentáveis ou até inviáveis. Além de bastante perceptíveis pelos consumidores.
Diferença entre falsificação e adulteração
Uma das questões importantes para entender o que está acontecendo é distinguir entre falsificação e adulteração de bebidas. Ambos são problemas que acontecem depois que o produto original sai das fábricas.
“Falsificação é quando tudo, todos os materiais, os ingredientes, os componentes de qualquer produto não são os originais”, explica Marcus. São casos em que organizações criminosas compram uma marca de cerveja mais barata e alteram a embalagem, substituindo rótulo e tampinhas, por exemplo, para que se passem por outras marcas mais caras.
Nesse caso, o falsificador precisa fazer o processo na cerveja gelada e de maneira muito rápida, para desprender o rótulo e manter o gás carbônico ao substituir a tampinha. Tudo isso para não trazer alterações perceptíveis ao consumidor.
“Já a adulteração é quando é uma parte do produto original é subtraída ou é adicionado de alguma outra coisa. Então, existe uma parte original do produto ali e ele foi adulterado”. E é isso que vem ocorrendo nos casos paulistas com metanol nas bebidas destiladas.
Cerveja com metanol é improvável
A cerveja está muito mais suscetível à falsificação do que adulteração por metanol, explica o mestre cervejeiro, por ser financeiramente mais viável e menos perceptível para o consumidor.
O metanol é fiscalizado e difícil de conseguir, tendo custo mais alto. E isso tornaria sua utilização na cerveja pouco rentável financeiramente, ou até inviável — já que o valor agregado da cerveja é menor do que os destilados. Sendo assim, muito menos provável.
Além disso, Marcus explica que esse tipo de adulteração na cerveja seria muito mais fácil de detectar. Isso porque, para a adulteração ser justificável, uma quantidade substancial de metanol (entre 25% e 30%) precisaria ser adicionada. “Se botar metanol, a percepção de álcool seria elevada, e isso também pode ser facilmente perceptível”. Já em destilados, essa diferença passaria despercebida.
Diferenças na fabricação
Todos os casos suspeitos de intoxicação por metanol estão sendo investigados a partir da perspectiva de adulteração das bebidas. Apesar de não ser possível descartar completamente problemas de fabricação de destilados, a fermentação de bebidas à base de cerais, como a cerveja, tem baixíssima probabilidade de produzir metanol. “Se presente, é numa quantidade irrisória”, explica Dapper.

Isso porque a levedura não metaboliza o metanol e os cereais não contêm pectina, necessária para a produção desse tipo de álcool. Ela é mais comum em fermentados de frutas e na cana-de-açúcar, explica o mestre cervejeiro. Mesmo assim, a produção é pequena. Em geral, abaixo dos níveis considerados seguros. Mas quando essas bebidas são destiladas, o metanol é evaporado e concentrado.
Um processo de destilação bem conduzido, no entanto, envolve a remoção da parte inicial e final da evaporação, conhecidas como “cabeça” e “cauda” do destilado, eliminando assim o metanol do destilado.
Sicobe não fiscalizaria
Outra informação equivocada que está circulando na internet é que o fim do Sicobe (Sistema de Controle de Produção de Bebidas), antigo método de fiscalização da Receita Federal desativado em 2016, teria correlação com a adulteração e bebidas destiladas.
Em nota, a Receita Federal desmentiu esse fato e explicou que o sistema servia apenas para fins fiscais, de recolhimento de impostos, em refrigerantes e cervejas. Ele nunca fiscalizou bebidas destiladas, controladas por meio de selos. A Secom, do governo federal, também publicou o alerta.
Em entrevista coletiva na terça-feira, Marta Machado, Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos do Ministério da Justiça, reforçou que a relação é falsa. “[O Sicobe] faz um controle de vazão para fazer um controle do ponto de vista fiscal. Para entender se tudo que foi produzido está representado do ponto de vista fiscal, da arrecadação dos impostos. Ele nunca teve qualquer relação nem com destilados, nem com a qualidade”.
Seis pessoas já morreram em São Paulo por suspeita de intoxicação por metanol até esta quarta-feira (1º). O governo do estado, no entanto, confirmou apenas dez casos, com uma morte até o momento. Outros 27 casos, sendo cinco óbitos, continuam em investigação.


