O mercado de lúpulo no Brasil prepara o terreno para uma retomada de expansão no próximo ano. Após um ciclo de forte crescimento inicial nos últimos cinco anos, o setor observou uma estabilização natural em 2025 — mas com avanços importantes. Para 2026, a expectativa é que o crescimento volte a acelerar, impulsionado pela profissionalização da cadeia e novos investimentos em industrialização.
Segundo Daniel Leal, vice-presidente da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), o cenário atual reflete uma mudança estrutural no perfil de quem planta lúpulo no Brasil. Houve uma depuração do mercado, com a saída de produtores pioneiros menores e a entrada de investidores com áreas maiores e maior capacidade de aporte financeiro.
“Esperamos que 2026 seja o ano em que o setor avance mais concretamente na construção de pontes para buscar investimentos públicos e privados para pesquisas fundamentais no avanço técnico da cultura”, afirma Leal.
Para 2026, desenham-se dois caminhos claros para o desenvolvimento. O primeiro é a integração entre produtores para centralizar processos de beneficiamento, como ocorre com a Cooperativa Brasileira de Lúpulo e a Cadeia Produtiva Local (CPL) da região de Araraquara, no interior de São Paulo. O segundo é a verticalização da produção por novos e maiores players, que possuem capital para gerir todas as etapas de forma autônoma.
A busca pela industrialização do lúpulo no Brasil
Um dos gargalos históricos — o processamento — deve ganhar novos contornos. A industrialização é vista como passo fundamental para garantir qualidade, padrão e escala, acelerando a abertura do mercado cervejeiro para o produto nacional.
Em Araraquara (SP), esse movimento já está tornando realidade. Luciana Andreia Pereira, sócia da Lúpulo Guarani e diretora da CPL de Araraquara, destaca a inauguração, em 1º de agosto, de uma unidade de beneficiamento equipada com peladora (máquina que separa os cones da planta), secador e peletizadora. A peletização é o processo de transformar a flor do lúpulo em pequenos grânulos compactados. E isso reduz a oxidação e facilita o armazenamento e a dosagem pelas cervejarias.
Ela conta que o novo edital de fomento criou uma linha para certificar os lúpulos, analisando a qualidade em alfa-ácidos e óleos essenciais — compostos químicos responsáveis, respectivamente, pelo amargor e pelo aroma da bebida — e desenvolver blends de novos produtores. “Isso busca a padronização e alta qualidade do produto”, explica Luciana.
O desafio dos números e a dependência externa
Apesar do avanço, o Brasil ainda importa 99% do lúpulo que utiliza, mesmo sendo o terceiro maior produtor de cerveja do mundo. Essa dependência obriga a indústria a utilizar insumos muitas vezes envelhecidos pelo transporte, diferentemente do lúpulo no Brasil, que chega fresco às fábricas. Os dados regionais, contudo, mostram o potencial de reversão desse quadro.
A CPL de Araraquara inicia a cadeia com 6,2 hectares — o que representa 30% da produção do estado de São Paulo. A estimativa é ambiciosa: com 26 novos plantios previstos e suporte de consultoria e crédito, a produção local poderá dobrar.
O otimismo é sustentado pela base científica. A região conta com suporte da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e especialistas com mais de 16 anos de experiência na cultura, focados em controle fitossanitário e melhoramento genético.
“O trabalho ainda é longo. Estamos estabelecendo uma cultura que ainda não existe no Brasil, mas com o apoio do governo e a estrutura da CPL […] é possível catalisar um crescimento exponencial do lúpulo no Brasil”, avalia Luciana.
Para 2026, a CPL de Araraquara deve promover a 4ª Festa da Colheita, previsto para agosto. Trata-se de um evento pensado para sensibilizar o mercado cervejeiro.
Além disso, Luciana diz que está articulando e mobilizando outros projetos. A criação da Rota Cervejeira é um deles, e visa estimular o setor por meio do turismo. Já o fórum “Do Campo ao Copo” que deve envolver os maiores players do setor. E até a participação na Brasil Brau, maior encontro do setor, previsto para junho, está nos planos. “A participação dos elos verticalizados da CPL já foi aprovada para o evento Brasil Brau, de reconhecimento internacional. Lá estarão presentes todas as grandes cervejarias e alguns lupuleiros internacionais”, afirma Luciana.


