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Internacional

Beer Summit: A visão de Garrett Oliver sobre o setor cervejeiro no Brasil

Redação Guia da Cerveja
Por Redação Guia da Cerveja
10 de dezembro de 2020
Atualizado em: 11 de dezembro de 2020
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    garret oliver
    garret oliver

    O potencial do segmento de cervejas artesanais do Brasil é imenso. É o que garante ninguém menos do que Garrett Oliver, mestre-cervejeiro da Brooklyn Brewery e uma das grandes referências mundiais do setor. O autor do Guia Oxford da Cerveja apresentou essa visão na quarta-feira, durante a sua participação no Beer Summit.

    Para ele, a diversidade é o ponto central para a produção de novas cervejas, o que provoca a conclusão de que o potencial brasileiro é imenso. Em sua visão, o país tem muita oportunidade de levar novos sabores da bebida ao mundo. “Quando um norte-americano vai ao Brasil, por exemplo para São Paulo, ele nunca viu a maioria das frutas do Mercado Municipal. Várias frutas de diversas regiões. Posso dizer, eu reconheço 30% das frutas. Nós temos um ou dois tipos de bananas. Vocês têm dez.”

    Com a participação de Garrett Oliver e outras referências do setor, o Beer Summit é o maior evento online de conhecimento cervejeiro da América Latina, tendo sido idealizado e organizado por mulheres. Ele vai até o próximo domingo, com grandes nomes do mercado se conectando com o público para troca de conhecimento em busca de um universo cervejeiro com mais diversidade e pluralidade.

    Confira as atrações e como participar do Beer Summit

    E Oliver, ao utilizar o exemplo de marcas belgas que utilizam cerejas e framboesas em suas receitas, declarou acreditar ser possível que o Brasil possa exportar a ideia de uma cerveja com base nos frutos nacionais. “Quando falamos da nossa cultura cervejeira é importante lembrar de onde ela vem”, apontou o norte-americano.

    Em sua participação no Beer Summit, Garrett Oliver relembrou a sua primeira passagem pelo Brasil, em meados dos anos 2000, atendendo a um convite dos responsáveis pela Eisenbahn. Na ocasião, ele ficou surpreso ao descobrir que a cultura cervejeira brasileira é muito semelhante à norte-americana, com uma presença muito forte da imigração alemã em ambas. “A fonte de onde veio nossa tradicional Lager nos Estados Unidos é a mesma fonte de onde vocês recebem a sua tradicional Lager no Brasil. Foi com a imigração alemã.”

    Leia também – Beer Summit: Brasil caminha para se tornar um país exportador de lúpulo

    Garrett frisou, porém, não considerar que a cultura cervejeira seja europeia, apontando o caso de sociedades africanas, onde costuma-se utilizar diferentes ingredientes típicos e há cervejas feitas pelos mais velhos, sendo frequentemente usadas em cerimônias. Na América do Sul e do Norte, grupos nativos também tinham suas próprias produções.

    Se você olhar para os Estados Unidos antes da Guerra Civil, quase toda a fabricação do país era feita por afro-americanos

    – Garrett Oliver

    Para ele, ainda que a história norte-americana de cerveja destaque a produção da bebida por nomes como George Washington, Thomas Jefferson ou James Madison, é preciso lembrar que, naquela época, os negros eram escravizados e obrigados a realizar diversos trabalhos, incluindo a produção de cerveja e destilados.

    “Hoje, a cultura da cerveja é muito ampla. Como afro-americano na indústria da cerveja estou muito ciente de que nossa indústria traz pessoas de apenas uma parte de nossa cultura, essa é a parte europeia. Mas, claro, o contexto familiar de um grande número de pessoas nos EUA não é europeu”, destacou Oliver.

    Garrett relatou ainda que, em 2019, foi pela primeira vez a um festival de cerveja organizado por afro-americanos. “Eu vi 2 mil negros bebendo cerveja. Não consegui acreditar. A cultura era a mesma. Eles disseram: bem, sim, nós queremos ter o nosso próprio festival já que ninguém nos convidou para os outros. Cada vez que íamos lá [nas cervejarias] nos sentíamos deslocados.”

    Em sua visão, inclusive, foi o festival mais completo que presenciou, pela participação de pessoas de todas as partes, diversidade de gêneros e orientação sexual. “Eu pensei: ‘Uau, esse sim é um festival de cerveja que se parece com os EUA. Neste momento, os nossos bares de cervejas artesanais e as nossas cervejarias parecem com a Europa’”, refletiu Oliver no Beer Summit.

    Diversidade na Brooklyn
    Recentemente, a Brooklyn Brewery lançou o projeto Michael Jackson Foundation for Brewing & Distilling. A fundação tem o objetivo de levar educação técnica de cervejas e destilação através de bolsas de estudos para as minorias nos EUA, como negros, pardos e índios. “Eu estou trabalhando neste ramo há 30 anos e posso dizer que nunca tive um candidato afro-americano para uma vaga cervejeira. Então, decidi fazer algo sobre.”

    O programa de inclusão já aplicou quase US$ 200 mil na promoção do conhecimento. O objetivo é ter uma indústria cervejeira que se pareça com o perfil social norte-americano, composta por diferentes gêneros, raças e etnias.

    “Eles vão convidar os seus amigos e suas famílias para a cerveja artesanal. Depois, lentamente, você olha em volta e verá pessoas que não tinha visto antes. Como resultado, vai vender mais cerveja e ter um negócio melhor. A diversidade, de fato, não é apenas uma coisa boa para a sociedade em geral, bem-estar e felicidade. Ela também é boa para os negócios”, pontuou Garrett Oliver.

    “Na Brooklyn Brewery gostamos de pensar que a nossa cerveja não tenha só um gosto muito bom. Nós queremos que seja tão boa para a terra quanto ela pode ser. Queremos que ela expresse nossa cultura como pessoas diferentes, países e origens. E que nós queremos expressar a maneira como nós sentimos. Às vezes bebo cerveja, às vezes bebo cachaça, às vezes bebo vinho, mas quero ter certeza de que é sempre bom e é o que eu quero. Então, sim, é tudo sobre mim, sempre foi”, acrescentou o fundador da marca.

    Localizada em Nova York, a Brooklyn Brewery é composta por uma equipe “internacional”, ou seja, reúne pessoas de distintas nações. A cervejaria também possui um programa voltado para promover a inclusão de pessoas de distintos grupos. Na iniciativa, todos os membros têm a possibilidade de fazer a sua própria cerveja, utilizando-se dos ingredientes de suas diferentes culturas.

    “Cada pessoa que trabalha na linha de cerveja, produz a própria cerveja com seu próprio nome. Depois nós fazemos uma festa de lançamento e em seguida a bebida é vendida em nosso taproom”, falou Garrett.

    A Brooklyn Brewery também é famosa por seus rótulos colaborativos. E, entre os favoritos, Garrett revela que está um brasileiro: a Saison Caipira, batizada em homenagem a caipirinha. A bebida composta de cana de açucar foi feita em parceria com a cervejaria mineira Wäls. “Eu trouxe para a cerveja do Brasil um sabor que não posso encontrar nos EUA”.

    Ele comentou também que, quando a Brooklyn Brewery começou a fazer rótulos colaborativos, nenhuma outra cervejaria adotava tal prática. Entretanto, para Garrett, agora o conceito moderno é uma “collab de Instagram”. Ou seja, pessoas e marcas apenas se reúnem para uma fotografia, mas se produz a mesma cerveja que todos fazem, sem levar em consideração aspectos culturais.

    “Para mim não é interessante. Não é cultura. Não é imaginação. Pode ser divertido para as cervejarias, talvez venda, mas não nos dá nada de novo”, finalizou Garrett Oliver.

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